
VOZ A PAI AMÉRICO
«Esteve há dias na nossa Casa, vindo de muito longe, um senhor que quis informar-se pessoalmente do progresso de um dos nossos rapazes, tal nome e acções tinha ele na terra de onde veio. Inteirou-se e foi-se embora.
Dias depois vem alguém da mesma terra com idêntica missão. O rapaz estava ao pé de mim enquanto a dita pessoa passava, uma por uma, as folhas do seu livro desditoso. Também se foi embora. Agora, conhecedor de tantas coisas, disse ao nosso ex-vadio que tinha medo de o mandar para o Porto aonde os perigos seriam maiores que na sua terra natal porque também a terra o é; e pedi-lhe que me dissesse aonde estava o segredo de tamanha transformação.
O nosso homem tem uns olhos negros que falam à gente com muita expressão.
Fita os meus e diz assim: — É que a gente aqui pensa no trabalho.
Esta verdade infelizmente não os abrange a todos. Quando ele diz «a gente», quis falar de si mesmo. Há muitos que não pensam assim. Mas a verdade fica de pé. Transformam-se, sim, todos aqueles que pensam no trabalho e sentem-se felizes porque têm muito em que ocupar o seu pensamento.
Este tem sido o chefe da copa. Fez exame. Ficou distinto. Disse-me que quer voar e eu vou dar-lhe asas. Tenho obrigação moral de o fazer. Não vem longe o dia em que o possas ver no Porto a trabalhar no Comércio e a estudar na Escola Comercial.»
Duarte, M. P. M. P. 1967.
«Somos a Porta Aberta
— Pedagogia do Padre Américo: MÉTODOS E VIDA». 2.ª ed., pp. 139-140.