
Reflexão de um Gaiato
Continuação do número anterior
Na Casa do Gaiato, sempre existiu um princípio que não caberia nos manuais da Rede Institucional: "A Obra é uma casa com a porta aberta, entra e sai quem quer." Pode parecer arriscado à luz das regras modernas, mas era, na verdade, uma lição profunda sobre liberdade, consequência e arrependimento. Era comum haver rapazes que, em momentos de revolta ou impulsividade, decidiam fugir. E o mais incrível é que muitos voltavam - não pela força, mas pelo reconhecimento íntimo do erro. Voltavam porque sabiam que, apesar da fuga, a Casa continuava ali, de portas abertas, com lugar para o seu arrependimento e recomeço.
Essa experiência — fugir, cair, arrepender-se e regressar — era parte essencial da formação. Porque, como dizia o velho provérbio latino, "errare humanum est". E é no erro que se forma o carácter. Ao contrário da lógica institucional, que tudo quer controlar, fechar e prevenir, a pedagogia da Obra deixava margem para o erro vivido, não como castigo, mas como caminho. Porque só quem é livre de sair pode, de facto, escolher ficar.
Se esta tendência continuar, sem que ninguém diga nada, podemos acabar a transformar rapazes activos, responsáveis e com papel educativo em "menores institucionalizados". Cheios de diagnósticos, planos de intervenção, técnicos de referência, relatórios e fichas. Tudo muito correcto… mas frio.
A pedagogia de Padre Américo não vive em papéis. Vive-se na pele. Precisa de corpo, de tempo, de erros e de fé. Precisa de acreditar que um rapaz pode cuidar de outro. Que pode ser líder, exemplo e educador do seu irmão de caminhada. Precisa de confiar nas pessoas — não só nos técnicos.
Paulo Freire dizia que "não se pode ensinar aquilo que não se vive", e talvez seja esse o ponto mais sensível: educar não é apenas fazer por, é criar espaço para fazer com, e depois deixar fazer — mesmo que isso implique errar. Porque, como já ensinava a velha máxima latina: "errare humanum est" é nesse erro que o jovem aprende a levantar-se, a ajustar-se e a tentar de novo. Rousseau também acreditava que a criança devia ser "livre para experimentar, sofrer e saborear as consequências das suas escolhas."
Mesmo sem assumir nenhuma Casa, a influência da Segurança Social já mudou muita coisa. E o perigo não é de uma invasão repentina, mas de uma erosão lenta. A estrutura fica, o espírito vai-se. E quando isso acontece, a Obra já não é a mesma.
A Obra do Padre Américo não precisa de heróis, nem de mártires. Precisa é que os que ainda nela vivem — ou que por ela passaram — se levantem e digam com humildade: isto é diferente, e precisa continuar a ser assim.
Porque se tudo for igual, ninguém cresce. E se ninguém cresce, até a própria Segurança Social fica mais pobre.
«Dimas»