PÃO DE VIDA

Da campanha o Selo da Rua

Algum tempo antes da passagem pastoral pelas terras de Santo Tirso, em equipa sacerdotal, tendo como que uma cela no claustro do Mosteiro, outrora dos filhos do Patriarca S. Bento, aconteceu um Congressobeneditino. Nas actas que temos em mãos, vem uma comunicação interessante sobre um tema filatélico beneditino, à qual botámos logo os olhos. Isto porque, neste artigo, dá notícias que dizem respeito a uma Campanha para o Património dos Pobres, cujo nome foi O Selo da Rua [vd. Paulo Sá Machado — 'S. Bento e os Beneditinos na Filatelia', in Os Beneditinos na Europa — 1.º Congresso internacional, 23 a 26 de Novembro de 1995, Santo Tirso, Câmara Municipal de Santo Tirso, 1998, p. 77-88]. Aproveitando uma deslocação a uma unidade hospitalar, fomos depois à Biblioteca Municipal de Coimbra [cuja cortesia agradecemos], para carrear mais informações da fonte citada. Como os mais novos não se dedicam a este passatempo e esta campanha é desconhecida dos actuais devotos de Pai Américo, para a história do Património dos Pobres, alinhavámos algumas notas.

Assim, à procura de mais pormenores do filão 'O Selo da Rua', pesquisámos vários números da revista Mercado Filatélico, onde se encontram notícias desta campanha louvável, com 70 anos, que permitiu construir várias moradias para pobres. Daremos conta desta investigação. Para já, da revista do mês da morte de Pai Américo, recortámos:

«P.e Américo Monteiro de Aguiar

Acima de tudo que se possa dizer ou escrever sobre o grande sacerdote que foi o Padre Américo, será sempre insuficiente para qualificar este homem, cuja obra de benemerência perdurará como um dos mais altos exemplos do espírito humano.

O Padre Américo acaba de ser levado para Deus, vítima de um desastre de automóvel.

Que saibamos não era filatelista, mas acarinhava a filatelia entre os seus gaiatos. Mas que importa isso se todos os portugueses, nesta hora de saudade, têm obrigação de lhe render as últimas homenagens.

A elas se associa Mercado Filatélico, endereçando a seu Primo, Sua Paternidade Reverendíssima D. Gabriel de Sousa, os cumprimentos do seu mais profundo pesar.» [vd. Mercado Filatélico, Porto, 2.ª série, Vol. V, N.º 85, Julho 1956, p. 263].

Voltando à comunicação supra, como síntese, o ilustre filatelista escreveu:

«O Selo da Rua

Em Setembro de 1956, foi publicado na Revista Mercado Filatélico, editada no Porto, o Regulamento de O Selo da Rua, que dizia no seu artigo número um: Sob a designação O Selo da Rua é organizada uma campanha com o fim de promover — se possível com carácter permanente — a recolha de donativos para o Património dos Pobres, de iniciativa do Padre Américo.

No seu artigo 16.º — A primeira Comissão Executiva, sob a presidência de Sua Paternidade Reverendíssima o Senhor Dom Abade de Singeverga [D. Gabriel de Sousa], será composta dos Ex.mos Senhores: Major Artur Augusto Lopes, António Joaquim Correa Júnior; Dr. António Fragoso, A. de Castro Brandão, Charles J. Chambers e Artur O. Vasconcelos.

A fonte de receita de O Selo da Rua eram os selos e outras peças filatélicas, oferecidas por filatelistas, que posteriormente eram vendidos.

Em Fevereiro de 1957, eram impressas as vinhetas de propaganda de O Selo da Rua, destinadas a propagandear a iniciativa e que eram fornecidas às pessoas ou entidades que tinham colaborado com a iniciativa.

Foram impressas em quatro cores, gratuitamente, graças à colaboração das firmas, Cruz, Sousa & Barbosa, L.da, Simão Guimarães e Mercado Filatélico.

Em 6 de Janeiro de 1958, Dia de Reis, foram entregues as duas primeiras casas, que se situavam no lugar das Regadas, em Fânzeres, Gondomar, com a presença das entidades oficiais e muito público. Presidiu à cerimónia D. Gabriel de Sousa, Abade de Singeverga e Presidente da Comissão Executiva de O Selo da Rua.

Refira-se que D. Gabriel de Sousa é filatelista, coleccionador de selos dos Países de língua portuguesa, para além de possuir uma colecção do Vaticano.

Já em 1951, acompanhou os filatelistas a uma visita à Casa do Gaiato, de passagem para um almoço de confraternização de filatelistas que teria lugar no Pejão. Presidiu várias vezes ao Dia do Selo, que anteriormente era celebrado a 24 de Março, dia da Festa de S. Gabriel, patrono dos filatelistas.» [vd. S. Bento e os Beneditinos na Filatelia, p. 78].

Sua Paternidade D. Gabriel de Sousa [17-III-1912 †23-I-1998], que foi Abade do Mosteiro de Singeverga, era primo de Padre Américo, e foi um bom amigo e conselheiro espiritual. Aproveitamos para prestar aqui a nossa homenagem ao seu grande labor eclesial. Na verdade, também foi um grande historiador beneditino e Postulador da Causa de Beatificação do Servo de Deus Padre Américo, entre outros serviços relevantes à Igreja. Sendo filatelista e empenhado na campanha d'O Selo da Rua, remetemos para o Céu estas letras com um selo de eterna gratidão!

Padre Manuel Mendes