PÃO DE VIDA

Do Património dos Pobres

Já que trepámos a outro ramo da árvore frondosa — que teve raízes e muitos frutos ainda na vida terrena de Pai Américo, ao serviço dos pobres — é melhor arquivar nestas colunas mais notícias sobre os primórdios do Património dos Pobres, nomeadamente na Diocese de Aveiro, considerando algumas informações a que temos acesso e complementam o artigo precedente. De facto, o Padre João Gonçalves Gaspar — beneditino historiador aveirense — deixou uma excelente obra monográfica sobre a sua Diocese, em que registou algumas notas sobre o Património dos Pobres. Do exemplar à mão [que foi da biblioteca de um Bispo português], transcrevemos infra o capítulo respectivo, sob esse título, com as notas indicativas das fontes. Eis:

«O conhecido apóstolo da caridade e fundador da 'Obra da Rua' para rapazes, Padre Américo Monteiro de Aguiar, diante do infortúnio de miseráveis sem casa, lançou certa vez do alto de Fátima, em dia de peregrinação nacional, uma revolucionária cruzada, que logo se espalhou pelo país fora: que se unissem as boas vontades e, descendo das teorias, viessem para o campo das realizações, construindo casas para necessitados, que delas se serviriam a título precário. O nome da instituição seria 'Património dos Pobres' e o seu suporte jurídico, em cada freguesia, a Fábrica da Igreja Paroquial.

Redigiram-se os estatutos, que os respectivos Prelados foram depois aprovando para as suas Dioceses.

A ideia chegou a Aveiro; surgiram desde logo ofertas e dedicações. Padre Américo conseguia subsídios para quem se lançasse a construir. Certa vez bateu à porta da residência paroquial de Eixo e deixou ficar 12 000$00 para esse fim, de dois benfeitores de Lourenço Marques (20 de Maio de 1953) [jornal Correio do Vouga, n.º 1143, de 30-V-1953, p. 5]; veio à Cidade a 12 de Fevereiro de 1954, quando o entusiasmo já crescia, e falou no Cine-Teatro Avenida, apinhado de ouvintes [Correio do Vouga, n.º 1179, de 6-II-1954, p. 1 e 10; n.º 1180, de 13-II-1954, p. 1 e 8; e n.º 1181, de 20-II-1954, p. 1, 10 e 4]; esteve também na Murtosa [Correio do Vouga, n.º 1204, de 31-VII-1954, p. 4 (Conferência do Padre Américo na bênção da 1.ª pedra da primeira casa, no passado dia 19)]; entusiasmava, pregando e escrevendo.

A 2 de Abril de 1954, o Arcebispo-Bispo de Aveiro [D. Evangelista de Lima Vidal] lançou a primeira pedra para dez moradias na Vera-Cruz (Aveiro) [Correio do Vouga, n.º 1188, de 10-IV-1954, p. 1 e 4], a 4 seguinte, benzeu duas em Eixo, logo ocupadas por famílias pobres [Correio do Vouga, n.º 1189, de 17-IV-1954, p. 1 e 6]. E, de então para cá, construíram-se 97 moradias em toda a Diocese, assim distribuídas: Aguada de Cima — 2; Águeda — 5; Alquerubim — 3; Arcos — 4; Avanca — 4; Bunheiro — 2; Cacia — 2; Eixo — 2; Glória — 11; Ílhavo — 16; Moita — 10; Murtosa — 10; São Jacinto — 12; Valongo do Vouga — 4; Vera-Cruz — 10 [CDA =Arquivo da Cúria Diocesana de Aveiro, Relatório Paroquial de 1962].

Em virtude dum valioso legado de D. Celeste Maria dos Santos ao 'Património dos Pobres' da freguesia, edificou-se em Ílhavo um asilo para cerca de 60 velhinhos de ambos os sexos, a que se deu o nome de 'Lar de S. José'. O prédio surgiu da terra em 1962-63, em propriedade adquirida para o efeito [Informações do pároco de Ílhavo].» [João Gonçalves Gaspar — A Diocese de Aveiro: Subsídios para a sua História. Aveiro: Ed. da Cúria Diocesana de Aveiro [imp. Gráfica de Coimbra], 1964, p. 508-509].

No capítulo XVI — Realizações materiais, o Padre João Gaspar elencou os custos de construção das casas do Património dos Pobres, nos anos indicados, na Diocese de Aveiro, que também se registam aqui — para a história. Aí vão:

Aguada de Cima — construção de duas casas para pobres, 1958: 85 000$00; Águeda — construção de 5 casas para pobres, 1960: 90 000$00; Alquerubim — construção de 3 casas para pobres, 1956: 45 000$00; Arcos — construção de 4 casas para pobres, 1957: 90 000$00; Avanca — construção de 4 casas para pobres, 1958: 60 000400; Bunheiro — construção de 2 casas para pobres: 25 000$00; Cacia — construção de 2 casas para pobres, 1955: 30 000$00; Eixo — construção de 2 casas para pobres, 1954: 24 000$00; Glória — construção de 11 casas para pobres, 1960: 250 000$00; Ílhavo — construção de 16 casas para pobres até 1962: 400 000$00; Moita — construção de 10 casas para pobres, 1959: 300 000$00; Murtosa — construção de 11 casas para pobres, 1955-1963: 230 000$00; São Jacinto — construção de 12 casas para pobres, 1955-1959: 250 000$00; Valongo do Vouga — construção de 4 casas para pobres, 1958: 80 000$00; Vera-Cruz — construção de 10 casas para pobres, 1954: 200 000$00. Em síntese, na Diocese de Aveiro, entre 1951 e 1964, o valor total das construções de casas para pobres — do Património dos Pobres foi de 4 209 000$00 [idem, p. 544-558].

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Em meados do século XX, ferido pelas condições indignas de habitação de uma multidão de pessoas na miséria, em Portugal, como visitador dos pobres, Pai Américo denunciou esta realidade dolorosa e lançou uma resposta social concreta, ao seu jeito e como sinal cristão, que colocou nas mãos de uma estrutura jurídica das comunidades cristãs: a Fábrica da Igreja Paroquial. Porém, insistiu muito na presença vicentina nas comunidades cristãs para acompanhar os pobres alojados. Não havendo visitadores dos pobres, em estreita ligação aos Párocos, o Património dos Pobres teria tendência a desviar-se do seu caminho originário, em que as moradias deveriam alojar pobres.

O propósito do Padre Américo era bem claro, na evangelização: «Tendo assim procedido, demos ânimo e coragem ao zelo de inúmeros párocos, que também começaram a construir. As cartas que eles nos mandam a pedir normas, trazem lume. Eu tenho que nós, se quisermos ser acreditados pelo povo de hoje, temos de apresentar o Evangelho com obras, que a palavra já não basta. Porquê? Por causa da palavra e das obras dos adversários. Eles dizem. Eles fazem. Eles dão o sangue. Hoje é assim. Nada disto enfraquece, evidentemente, nem sequer diminui o poder do Evangelho. Mas enfraquece-nos a nós, se o não pomos por obras.» [Ovo de Colombo, Paço de Sousa: Tip. da Casa do Gaiato, 1954, p. 26-27].

…era peregrino e recolhestes-Me…

Padre Manuel Mendes