PÃO DE VIDA
Do Património dos Pobres
Tendo ocorrido o passamento de Monsenhor João Gaspar, grande figura eclesial da Diocese de Aveiro, em 2 de Julho, no Hospital de Aveiro, também queremos lembrar gratamente a sua vida de amor à Igreja, socorrendo-nos de palavras suas sobre o Património dos Pobres, cujo lema é: Cada freguesia cuide dos seus Pobres. Em sua memória, é de recordar: João Gonçalves Gaspar nasceu em Eixo, em 24 de Dezembro de 1929; tendo concluído os estudos de Teologia no Seminário dos Olivais, foi ordenado Presbítero em 3 de Janeiro de 1954, no Seminário de Santa Joana Princesa — Aveiro, por D. João Evangelista de Lima Vidal, de quem era secretário; teve várias missões na Diocese de Aveiro (como na Cúria Diocesana) e foi seu historiador, deixando uma imensa obra escrita. Neste âmbito, é oportunidade de trazer para estas colunas algumas linhas que este bom amigo publicou no jornal diocesano aveirense, três meses antes de partir. Eis um recorte do seu apontamento, sob aquele título:
«A partir de Abril de 1953, sendo já seu Bispo Auxiliar D. Domingos da Apresentação Fernandes, que nasceu em Braga no ano de 1894, D. João Evangelista de Lima Vidal aprovou os Estatutos do chamado 'Património dos Pobres', para diversas paróquias; esta obra nasceu do bondoso e caritativo coração do P.e Américo Monteiro de Aguiar (1887-1956), destinada primariamente à construção e administração de casas para as famílias carenciadas. Assim aconteceu na Diocese de Aveiro: — 1 de Outubro de 1953, Águeda (doze moradias); — 4 de Abril de 1954, Eixo (duas moradias); — 30 de Julho de 1954, Cacia (duas moradias); — 1 de Outubro de 1954, cidade de Aveiro (dez moradias); — 14 de Fevereiro de 1955, Murtosa (dez moradias); — 9 de Setembro de 1956, São Salvador de Ílhavo (vinte moradias, além do Lar de S. José e da Casa da Criança); — 19 de Setembro de 1956, São Jacinto (dez moradias); — 21 de Setembro de 1956, Moita — Anadia (dez moradias); — 15 de Dezembro de 1956, Alquerubim (três moradias); — 23 de Abril de 1957, Esgueira (quatro moradias); — 18 de Outubro de 1957, Glória — Sé (nove moradias); — 23 de Junho de 1964, Arcos (oito moradias); -11 de Março de 1969, Vera-Cruz, na cidade de Aveiro (dez moradias); e 9 de Julho de 1951, Avanca (cinco moradias).
Posteriormente, o Bispo da Diocese de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade, aprovou uns novos estatutos do 'Património dos Pobres'.
O 'Património dos Pobres' procura promover o bem-estar e a qualidade de vida, garantindo o direito à habitação em condições de higiene e conforto, conforme o artigo 65.º da Constituição da República Portuguesa, datada de 2 Abril de 1976: 'Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar'. […]» ['Património dos Pobres', in Correio do Vouga, N.º 4677, 25 Março 2026, p. 13].
Este grande movimento habitacional e social de construção de casas para pobres, lançado pelo Padre Américo e apoiado pela Obra da Rua, inédito em Portugal, em meados do século XX, também teve repercussão na Diocese de Aveiro, conforme se verifica. Na linha da iniciativa e visão de Padre Américo, concretizada em 1951, em Paço de Sousa, foi-se espalhando pelo território português; e, neste sentido, na Segunda Semana de Estudos Pastorais da Diocese de Aveiro, no Plano de Acção Pastoral para 1953-1954, foi delineado lançar o Património dos Pobres nas paróquias aveirenses [vd. Correio do Vouga, N.os 1159 e 1160, 19 e 26-9-1953]. O Património dos Pobres foi mesmo instituído em várias paróquias de Aveiro: Santo Isidoro de Eixo (27.11.1953), São Julião de Cacia (30.7.1954), São Jacinto (19.9.1956), Nossa Senhora da Glória (18.10.1957), Santo André de Esgueira (23.4.1967), Vera Cruz (11.3.1969) [vd. Hugo Calão — Os Arquivos paroquiais na diocese de Aveiro: fontes informativas no estudo do património religioso e sua salvaguarda. Lisboa: UCP- CEHR, 6.º Workshop de Arquivística, Lisboa, 9 Março 2013].
No desenvolvimento activo da campanha do Património dos Pobres, de que Pai Américo e colaboradores davam conta no jornal O Gaiato, como exemplo, segue-se um parágrafo sobre uma viagem à freguesia de Eixo — Aveiro, em Maio de 1953, por uma casa digna para pobres, com nome referido a uma terra moçambicana onde ganhou o pão na sua juventude. Aí vai:
«Ontem fomos por aí abaixo abrir os caboucos da Casa da Minerva Central, Lourenço Marques, que se vai erguer na freguesia de Eixo. Eram 9 quando saímos da aldeia. Às dez e quê estávamos em Espinho. Às 11 viram-nos passar em Estarreja. Ao fundo da povoação seguinte, cortámos à esquerda e agora vai o Vouga mais nós, até à porta do senhor Prior. Ninguém me esperava, mas no fim do almoço e quando saímos para o local onde a casa vai ser, estavam as crianças das escolas, professores à frente, com flores e tostões. Muito de tudo. Presidente da Junta, médico, outros senhores — eram dois carros. Ao passarmos junto a um bosque, oiço dizer é do Magalhães Lima. Gostaria de entrar, ver, gozar. Tão raros hoje os bosques! Dois minutos e temos à vista o terreno. Dá para muitas casas com seus quintais. É lavado dos ventos, coberto de sol, rodeado de pinheiros. Passa a estrada. Há vizinhos. Tudo na marca. Estavam os da futura comissão. Demos as linhas mestras. Rapo do livro de cheques e nos ombros do Prior encho um de doze contos. Como um dos presentes fosse empregado nos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques, em férias, a regressar em Agosto próximo, eu levanto a voz e recomendo: é preciso que ele, antes de partir, veja e toque e fale com os futuros habitantes da futura casa e mal chegue à Ponte Cais vá direitinho à Minerva dar testemunho aos interessados. […]» ['Património dos Pobres', in O Gaiato, N.º242, 6 Junho 1953, p. 2].
O Património dos Pobres foi outro belo sonho de Pai Américo, como escreveu: «A casa é pertença natural do homem, como a concha do crustáceo e o ninho dos passarinhos. Sem ela, sua ou à mão, o homem sofre. O seu sofrimento, por injusto e imerecido, causa a desordem. Se me fosse dado falar, tentaria virar tudo e todos para este lado. Começar obras pelos alicerces.» [Ovo de Colombo, Paço de Sousa, 1954, p. 18]. Como realização urgente e matriz marcadamente eclesial, foi uma grande resposta social a uma necessidade básica — a construção de casas para pessoas sem-abrigo e pobres.
A actualidade deste movimento eclesial é inegável, nomeadamente na ajuda à autoconstrução e apoio social a pessoas frágeis, como Pai Américo preconizou: «Cada freguesia cuidar dos seus pobres, tem de ser o programa de uma acção católica, actual e verdadeira. Corpo e alma.» ['Doutrina', in O Gaiato, N.º 242, p. 2]. As Conferências de S. Vicente de Paulo e outros grupos caritativos, de cristãos empenhados, são indispensáveis nas comunidades pastorais: caridade e justiça caminham a par!
Padre Manuel Mendes
