
PÃO DE VIDA
Património dos Pobres
No dia 3 de Setembro deste ano da graça, comemoram-se 75 anos da entrega das primeiras casas do Património dos Pobres, na freguesia de Paço de Sousa, conforme Pai Américo escreveu para a história viva: «Foi no dia 3 de Setembro [de 1951]. Uma semana antes, à estação da missa paroquial, avisou-se que no dia 2, domingo, as casas estariam em exposição e, na segunda-feira de manhã, os seus ocupantes dariam entrada no que é deles: Património dos Pobres. […]» ['Uma Data', in O Gaiato, N.º 197, 15 Set. 1951, p. 1].
A sua génese e o seu desenvolvimento foram historiados pela mão de mestre, no livrinho Ovo de Colombo [Paço de Sousa, 1954]. Nomeadamente nas crónicas 'Agora' e 'Património dos Pobres, no jornal O Gaiato, foi dando notícias desta obra urgente de casas para pobres. Nesta data festiva, das Bodas de Diamante, é uma oportunidade para reflectir sobre a história, o presente e o futuro deste movimento eclesial inédito de construção de casas para pobres, que Pai Américo lançou em Portugal, depois da II Guerra Mundial, considerando as enormes carências habitacionais, entre outras necessidades básicas da população portuguesa.
Sendo justo, deixamos também pequenas notas sobre esta obra da Igreja, em que foram construídas mais de 3.500 moradias em Portugal, Madeira, Açores, Angola e Moçambique. Depois, esta obra essencialmente paroquial enveredou pelos pequenos auxílios à autoconstrução. Na sua raiz, as casas construídas deveriam ser propriedade da Fábrica da Igreja Paroquial; e as Conferências de S. Vicente de Paulo seriam as mãos amigas dos pobres, como visitadores. A situação das casas do Património dos Pobres vem merecendo atenção das comunidades paroquiais, onde foram construídas, com soluções diversas, de forma a resolver algumas questões: situação jurídica da habitação, estado das moradias, moradores… O contrato de comodato é uma resposta jurídica fiel ao propósito do Fundador.
Numa breve notícia, Pai Américo deu conta da origem do nome desta obra da Igreja Católica, em Portugal, em meados do século XX. Diz assim:
«Trata-se da já célebre legenda Património dos Pobres, que se lê nos cunhais das moradias. Tanta glória vai tendo aquela designação, que me apresso a revelar, mais uma vez, que aquilo não nasceu dentro de mim. Não me pertence. Tomei-a de uma carta, aonde vinha um donativo para o Património dos Pobres. Li. Achei feliz. Achei adequado. Perfilhei. Eis. O seu a seu dono.
Tão pouco é minha a ideia das casas. Eu vi-a nascer no peito dos meus Rapazes; dos vicentinos. São eles. O seu a seu dono.
Mais. Os terrenos aonde as casas vão sendo construídas, são oferecidos. O dinheiro para as construir, é oferecido. As casas ficam pertencendo à Igreja. Qual é, pois, o meu quinhão nesta Obra? A alegria dos Pobres! Mais nada! Mais nada. Mais nadinha.» ['Uma Comunicação', in O Gaiato, N.º 198, 29 Set. 1951, p.3].
Neste sentido de memória, com espírito de gratidão aos cabouqueiros [como o meu saudoso Pai], das palavras que Padre Américo nos deixou sobre a fundação desta obra de casas para pobres, eis o seguinte: «[…] Pois o Júlio Mendes, que foi o fundador e é o presidente da Conferência do Santíssimo Nome de Jesus, da Casa do Gaiato de Paço de Sousa, tinha por costume falar-me com dor da corte aonde o seu Pobre habitava. Acontece, também, que naquele tempo, o mestre-de-obras que ergueu todos os edifícios da nossa aldeia, estes terminados, pede-me para inventar qualquer coisa; acrescentando que, alguns dos seus homens, tinham medo de entrar em casa por amor dos filhos — e iam fugir!…
Acontece, ainda, que há muito guardava no peito o desejo de um testamento. Não queria morrer sem deixar algo aos pobres. Tinha, até, pensado num grupo de três moradias. Tinha-as localizado. Tinha escolhido as três famílias contempladas. Tudo isto era um segredo. Só faltava ocasião. Esta veio com a falta de trabalho, segundo o mestre-de-obras, mai-lo o zelo do Júlio Mendes, dois elementos precipitantes. As casas começaram-se. Deu-se-lhes jurisdição. O impossível torna-se praticável. Os que nunca tinham visto nem sabiam como descobrir a América, agora sabem. É o Ovo de Colombo!» [Ovo de Colombo, Paço de Sousa: Tip Casa do Gaiato, 1954, p. 20-21].
Pai Américo fez questão de nomear os primeiros moradores das primeiras casas do Património dos Pobres, em Paço de Sousa:
«Damos aqui o nome inteiro de cada um dos moradores. A eles toda a glória. Eles merecem ser conhecidos:
Casa número um: Glória Barbosa, solteira, 57 anos, doente, e Maria Trindade, solteira, 64 anos. Casa número dois: Margarida Pinto Leal, viúva, 50 anos, mal de Corea [? Crohn]. Casa número três: Maria Trindade Ferreira, viúva, 71 anos de idade. Casa número quatro: Tomás Dias, viúvo, 76 anos. Casa número cinco: Olinda Ferreira, viúva, 51 anos, entrevada: Casa número seis: Joaquina da Silva, viúva, 72 anos, entrevada. Casa número sete: Maria de Sousa, solteira, 84 anos.
Doentes. Velhos. Estropeados. Há três casos de doença incurável! A eles toda a glória. Só eles merecem ser conhecidos. Que valemos nós, para o sermos?!» [O Gaiato, N.º 197, p. 1].
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Dando um salto no tempo e no território português, para o Mondego, seguem-se breves informações actuais relativas a várias casas do Património dos Pobres, entre outras moradias construídas com essa inspiração na Diocese de Coimbra. Em Cantanhede, em 2018, a Paróquia cedeu o direito de superfície sobre vinte casas no Bairro Vicentino, à Câmara Municipal, pelo período de vinte anos, visando criar condições para que a autarquia pudesse avançar com obras de reabilitação das habitações, com apoio financeiro da União Europeia. Na Figueira da Foz, um bairro vicentino, a carecer de intervenção, foi entregue pela Paróquia de S. Julião ao Município, para reabilitação e acompanhamento social. Em Coimbra, na Unidade Pastoral Aeminium, a Paróquia de Santa Cruz tem tratado de resolver a venda de algumas habitações a moradores. Em Miranda do Corvo: das que foram construídas, referenciámos ainda quatro casas dos pobres e tratámos de empreender o registo predial de três moradias, depois doadas à Diocese; e ainda há uma casa, habitada, em nome da nossa Obra. E mais, na cidade de Coimbra: duas casas na Quinta da Misericórdia, a procurar resolver; e foi accionado o processo de cinco casas do Património dos Pobres, na Rua Verde Pinho, para o seu registo pelos moradores, mas ainda está em tramitação a situação de duas habitações. Na 'Tribuna de Coimbra', Padre Horácio deu notícias sobre as primeiras casas dos pobres, construídas em Coimbra. Eis:
«Foi no dia 27 de Junho [de 1954] a entrega das quatro primeiras casas do Património dos Pobres na cidade de Coimbra. Esteve presente e fez a entrega delas o Senhor Arcebispo [D. Ernesto Sena de Oliveira]. Estiveram as autoridades. Embrulhado na sua capa e escondido na multidão estava também o Senhor Padre Américo. Não podia faltar. Foi em Coimbra que a Obra nasceu, embora Coimbra seja um pouco fria.
Duas das casas são na Lomba da Arregaça, o terreno deu-o uma família; uma senhora, alma de fogo, corre e bate e insiste e consegue o necessário para a construção; um, senhor, mestre-de-obras, dedica-se e empurra. Tudo grande e tudo belo!
As outras duas são no alto da Conchada, onde contamos brevemente entregar outras tantas. Ficou uma delas aos cuidados dos vicentinos do Liceu D. João III e a outra aos dos vicentinos do nosso Lar [do Gaiato de Coimbra]. Tudo bem e tudo importante, mas mais importantes as famílias ocupantes. […]» [O Gaiato, N.º 271, 17 Julho 1954, p. 3].
Padre Manuel Mendes