
PÃO DE VIDA
De como Américo de Aguiar viu S. Francisco de Assis
Em 3 de Outubro 1226, ao sol-posto, em Porciúncula, perto de Assis, morreu S. Francisco [de baptismo, João], com 44 anos, rodeado de Irmãos, banhados em lágrimas. Antes da vinda da irmã morte, «mandou chamar todos os Frades, e quando estavam todos reunidos em volta dele, mandou que lhe trouxessem um pão, benzeu-o, deu um pedaço a cada um e disse-lhes: — Quero fazer com todos uma última refeição; comam este pão como um símbolo da união e da concórdia que deve reinar entre todos.» [J.M.S. Daurignac — Historia de S. Francisco d'Assis. Trad. M. Fonseca. Porto: Typ. Catholica, 1896, p. 396] (1).
Neste ano da graça de 2026, em que é celebrado o VIII centenário da morte do Pobrezinho de Assis, o Papa Leão XIV dirigiu uma Carta aos Ministros Gerais da Família Franciscana [7-I-2026]. Sendo o nosso tempo marcado por tantas guerras, infelizmente, numa oração pela paz, suplica: «São Francisco, nosso irmão, tu que há oitocentos anos ias ao encontro da irmã morte como um homem pacificado, intercede por nós junto do Senhor.». A bibliografia franciscana é interminável. A loucura evangélica da sua vida de pobreza foi traçada também pelo 121.º sucessor de S. Francisco: Frei Massimo Fusarelli — Francisco de Assis: Uma vida inquieta. Lisboa: Ed. Franciscana, 2025.
Considerando o bom acolhimento universal da vida de S. Francisco, também em Portugal, há cem anos, foi publicado um livro interessante (2), com testemunhos de autores portugueses: Em louvor de S. Francisco: A Literatura Portuguesa (1926-1927). Braga: Tip. Boletim Mensal, 1927. Nesta linha de admiração pelo santo que viveu apaixonado por Cristo, na pobreza, entre outros escritos da época, se insere uma revista [manuscrita] dos alunos do Seminário de Coimbra: Lume Novo, N.º 2, 1927 — Comemorativo do sétimo centenário da morte de S. Francisco de Assis, publicado na Semana franciscana última semana de Fevereiro). É uma revista preciosa, preservada no arquivo no Seminário Maior de Coimbra, com muito interesse, também pelos belos artigos da autoria de Américo Monteiro de Aguiar, na maioria sob o pseudónimo de Frei Junípero, ilustrados por desenhos de Augusto Nunes Pereira. De um desses escritos, assinado por Américo d'Aguiar, intitulado de 'Mansões de paz', transcrevemos um elogio do santo de Assis — como o viu, nesse sétimo centenário do trânsito de S. Francisco. Na verdade, deixou-se marcar profundamente pelo seu carisma, chegando a ser frade franciscano em Vilariño de la Ramallosa — Tuy, Galiza, de Outubro de 1923 a Agosto de 1925. Eis o recorte:
«[…] São santos todos os fundadores das ordens Monásticas! E, sendo certo que todos são grandes santos, qual a razão por que uns são mais venerados do que outros e S. Francisco mais do que todos? Porque é que ele transformou os homens e as ideias do seu século, inspirou poetas e artistas, excitou o amor, a simplicidade, a harmonia e a beleza no coração de todos e ainda hoje, sete séculos decorridos, ele é o mesmo santo extraordinário que os homens de todas as confissões religiosas e profissões sociais admiram, invocam e celebram?! O seu VII centenário, que a nossa modesta Revista hoje celebra, interessa todos os povos e estende-se a todo o mundo! Porquê?! É que nenhum homem como ele soube jamais desprezar a vida para a viver na sua plenitude. Viveu-a amando. Mas amando o quê? Os homens; a natureza; as coisas. A simplicidade; a pureza; a humildade, a penúria.
Viveu-a cantando a luz do sol, conversando com os passarinhos, chamando irmãos aos lobos; às cotovias; às formigas e à própria morte. Ao irmão cerqueiro, recomenda instantemente que reserve sempre na cerca um pequenino canteiro de flores, e quer ver a alegria no coração de todos os frades. Ele personifica o ideal cristão; é o irmão de Jesus Cristo, acessível à razão pura sem mistérios nem dogmas nem milagres, e esta é feição da sua vida que atrai as vistas dos grandes pensadores e artistas, quando começam a indagar o porquê da vida, o segredo da existência e o enigma eterno da morte!
Nós, porém, sabemos mais e melhor.
Conhecemos a força inexplicável da sua vida de prodígios. S. Francisco viveu amando, sim; mas amando o quê? Eis a questão.
O pobrezinho de Assis amava com efeito os homens; amava a natureza; amava as coisas. Mas amava primeiro que tudo e acima de tudo Deus.
Era o amor de Deus que lhe enchia a alma e, transbordando, comunicava-se tão extraordinariamente às criaturas. Era o amor sobrenatural que lhe conquistava então e conquista hoje, aquela força irresistível e transcendente que produz a veneração e o respeito de toda a gente pela sua vida sublime. Desposando a sua noiva, a Santa Pobreza, o filho de Bernardone rasga novos horizontes na vida; descobre um novo mundo e vê numa luz nova os pobres e os ofícios humildes. Grande e poderoso senhor que era, faz-se pequenino e miserável para se dar todo inteiro aos pequeninos e aos miseráveis; tudo por amor de Deus.
Ele não quer pisar papéis em que se ache escrito o nome do Senhor! Ama todos os Sacerdotes nos quais não quer ver malícia nem indignidade porque são eles na terra os únicos homens que consagram o corpo do Senhor.
''E os que não sabem letras não cuidem de as aprender'', diz ele na Santa Regra, ''antes se apliquem ao trabalho e à oração em espírito de amor''. E no seu testamento diz: ''andávamos vestidos com sacos curando leprosos e fazendo os trabalhos mais humildes, entrávamos nas igrejas a orar e éramos idiotas!''.
Louco de amor!
Os seus primeiros companheiros são arrastados, seduzidos pelos seus cantos de louvor a Deus! E o primeiro capítulo a que assiste, em Assis, conta 5000 frades, abrasados todos no mesmo espírito de amor sobrenatural.
Amor! Eis o enigma que dá a razão da influência extraordinária da sua incomparável vida, produzida no coração dos homens. Amor romântico para os diletantes; amor divino para os cristãos sinceros, mas sempre amor!
O pobrezinho de Assis morreu amando.
Amando a pureza, pois exala o último suspiro sobre cinzas.
Amando a pobreza porque acaba no chão estreme, embrulhado em trapos.
Amando a humildade, havendo pedido, em vida, que o sepultassem no lugar dos condenados.
Amando a Deus, com as marcas da sua paixão impressas no corpo.
Dilexit [amou].».
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(1) Pertenceu a Ana da Conceição Silva Carvalho, de Penafiel.
(2) Foi da biblioteca de Heitor de Campos Monteiro, em S. Mamede de Infesta.
Padre Manuel Mendes