PÃO DE VIDA

Da morte e do funeral de Pai Américo - há 70 anos

O mês de Julho foi marcante na vida de Pai Américo e é decisivo na Obra da Rua: ordenação de Presbítero — 28 de Julho de 1929; e morte — 16 de Julho de 1956. Considerando as muitas deslocações de automóvel — ao serviço da Obra da Rua, do Património dos Pobres e nas visitas aos pobres - Pai Américo temia a ocorrência de um acidente, como deixou escrito: «Mais Morris [DD-22-19]. A minha primeira e constante aplicação ao pé do rapaz que me conduz, é impedir que ele ultrapasse. Não me importa saber qual, que eles são todos na mesma. Não suportam nada à sua frente e se o carro tem chapa estrangeira, isso então é muito pior. Tentam. Procuram desobedecer — 'aqui é Portugal'! Se os senhores ouvirem dizer que eu um dia fiquei òs pedaços, não precisam de ir perguntar a ninguém a causa do desastre: 'aqui é Portugal'» ['Património dos Pobres', in O Gaiato, Paço de Sousa, Ano XII, N.º 321, 16 Junho 1956, p. 1]. Num testemunho pessoal, Padre Baptista recordou-nos esta preocupação, que acabou infelizmente por acontecer.

De facto, um mês depois desse anúncio, deu-se um acidente de automóvel em S. Martinho de Campo - Valongo, quando regressava à Casa do Gaiato de Paço de Sousa, vindo do Porto, depois de algumas voltas do Minho à Estremadura, com a questão da Casa do Gaiato nos Açores no centro das suas preocupações; pois, encontrou-se em Subportela - Viana do Castelo com o Bispo Coadjutor de Angra, D. Manuel Afonso de Carvalho [19-II-1912 †13-XII-1978], e em Coimbra com o Bispo D. Ernesto Sena de Oliveira [30-IV-1892 †13-X-1972], no sentido de desligar da Obra da Rua a Casa do Gaiato de Ponta Delgada. Era o dia 14 de Julho de 1956. No seu martírio, houve fractura exposta e cominutiva dos membros inferiores, aproximando-se a sua morte: Deus veio levá-lo para junto de Si, no dia de Nossa Senhora do Carmo, com 68 anos. Foi no Hospital Geral de Santo António, no Porto, que aconteceu o termo da viagem terrena de Pai Américo, quebrando-se assim com sangue o percurso de um gigante da caridade!

Tendo rememorado de relance algumas preocupações dolorosas na vida de Pai Américo, na proximidade da ocorrência do grave acidente e do seu dies natalis, é de continuar a transcrição do relato minucioso publicado no jornal Correio de Coimbra, sobre o funeral de Pai Américo, em 17 de Julho de 1956. Desde a igreja da Trindade, no Porto, até Paço de Sousa, segue-se a descrição do cortejo fúnebre e do ambiente de enorme dor que o envolveu. Eis:

«[…] Cerca de quinhentos soldados, em representação das guarnições do Porto, fazem a guarda de honra, juntamente com um grupo de rapazinhos do Asilo do Terço. Os ramos, as coroas de flores multiplicam-se. Todas elas trazem uma legenda. Uns eram das floristas do Bolhão; outros de vendedeiras de galinhas; outros dos Ardinas do Porto; outros, os anónimos, não traziam assinatura nem legenda.

Legendas — para quê?

Quando o cortejo se põe em movimento, os sinos dobram. Uma senhora, à passagem do caixão, estende os braços, tenta dizer alguma coisa, mas cai sem sentidos!

Guardas da P.S.P. tentam impedir que a multidão, postada nos passeios e nas bermas da estrada, avance.

Uma mulher, descalça, rompe a barreira. Traz com ela um pequeno ramo de rosas rubras. E corre. E entrega, em silêncio, as suas flores, regressando ao ponto de partida.

A partida do Largo da Trindade verificou-se às 9,35 horas. Dificilmente se encontrava uma nesga de terreno livre. O comércio encerrou as suas portas. A marcha, através da Rua Formosa, Bonfim, Praça das Flores, é lenta. Mais de um milhar de automóveis incorporaram--se no cortejo.

E o povo, inteiro, ajoelha-se à passagem do Amigo mais amigo dos pobres.

Eram 10,49 horas e o cortejo dobrava, ainda, o términus da Rua de S. Roque da Lameira. De quando-em-quando, viam-se doentes nos passeios, em camas, em cadeiras de rodas.

Nas janelas dos prédios, ao atingir-se o Rio Tinto, caem capas negras. Braçadas de flores são lançadas sobre a urna.

Uma avioneta do Aero Clube do Porto sobrevoava, a baixa altura, a Casa do Gaiato [de Paço de Sousa], largando milhares de pétalas de flores, que algumas senhoras apanham, beijam e guardam. Juntamente, com as pétalas, caem dois pequenos pára-quedas, que seguram ramos de rosas. Um deles, traz uma flâmula, com esta legenda: Homenagem de saudades do Aero Clube do Porto. A legenda da outra é breve: Ao amigo dos pobres — os pobres do Porto.

Diante do cortejo, depara-se depois, de focinho rente à terra, o Marão, o cão do Padre Américo.

*

Logo que o corpo do Padre Américo entra na airosa capela privativa da Casa do Gaiato [de Paço de Sousa], repleta de rapazes da rua, assiste-se a um espectáculo comovente, patético. Os rapazes olham a urna. Imploram que a abram; e, então, como não era possível conceder-lhes tal graça, lançam-se sobre ela. De facas e navalhas — e mesmo com as unhas! — arrancam o chumbo — e abrem o caixão. Abrem-no — e beijam, devotos, olhos rasos de água, o Homem que foi o melhor dos Pais — o Pai Américo.

… Mas a missa de corpo presente havia principiado, celebrada pelo sr. Bispo de Limira [D. Rafael da Assunção].

O celebrante recolhe-se em silêncio. Tudo está de joelhos. Reza-se, baixinho, o Padre Nosso.

Cá fora, o povo comprimia-se. As flores, junto ao cruzeiro, amontoavam-se. Eram ramos de operários, de vendedores ambulantes — dos que sofrem, dos que carecem de auxílio!

Seguidamente, na igreja paroquial de Paço de Sousa, houve missa cantada pelo Padre Adriano, acolitado pelo Padre eng. [Carlos] Galamba.

Uma hora depois, o corpo do Apóstolo do Amor aos Pobres recolhia ao jazigo de família, no cemitério da vila [freguesia de Paço de Sousa]. Ia de batina — e descalço.

*

Quando o funeral saiu da igreja da Trindade, um avião sobrevoou aquele templo, em homenagem de saudade ao Padre Américo.» ['O funeral', in Correio de Coimbra, Ano XXXV, N.º 1735, 19 Julho 1956, p. 5].

Padre Manuel Mendes