PÃO DE VIDA
Da morte e do funeral de Pai Américo - há 70 anos
Num dia demasiado quente, tivemos mesmo de parar numa sombra de caminhos poeirentos. Só Jesus é o Caminho que nos leva aos prados verdejantes. Anunciavam-se as festas da Rainha Santa, tão amada nestas terras do Mondego. No centro das nossas preocupações na cidade dos doutores, vai estando uma dúzia de Rapazes crescidos, originários de Timor-Leste, a residir no nosso Lar do Gaiato, que frequentam a Universidade e o Politécnico de Coimbra.
Com frescura e silêncio, na Biblioteca Municipal de Coimbra, foi com interesse que recorremos a uma fonte eclesial para tecermos algumas linhas, com recortes a iluminar. Ao perfazerem-se 70 anos do acidente de automóvel, em 14 de Julho de 1956, em S. Martinho de Campo, no concelho de Valongo, em consequência do qual Padre Américo veio a morrer a 16 de Julho, no Hospital Geral de Santo António, no Porto, urgia continuar a fazer memória da sua páscoa, ocorrida em dia de Nossa Senhora do Carmo. Desta vez, sobre esses momentos tão dolorosos para tantas pessoas que sentiram e viram a sua acção em favor dos pobres. Ao revisitar a imprensa da época — que é muito rica em notícias e artigos de opinião sobre o acidente, a morte e o funeral do Recoveiro dos Pobres — chegaram-nos à mão, em pouco tempo, os exemplares do Correio de Coimbra do ano de 1956. Na altura, era director e editor o Padre Urbano Duarte, e Chefe de Redacção o Padre A. Nunes Pereira. É de rememorar que, neste jornal diocesano, desde 1932, Padre Américo publicou belíssimas crónicas — Sopa dos Pobres e Obra da Rua — sobre as necessidades, dores e esperanças de uma multidão de pobres.
Como tivemos oportunidade de recolher o relato do funeral de Pai Américo, que ocorreu em 17 de Julho de 1956, do Porto para Paço de Sousa, vai ser transcrito na íntegra nestas páginas, como memória muito grata. Seguem-se, assim, as ditas colunas sobre:
«O FUNERAL
Foram uma expressiva e dolorosa manifestação do pesar de todo o país as últimas honras prestadas ao grande Apóstolo do Bem. Manifestação espontânea, sentida profundamente, prestada por gente de todas as classes sociais, o que prova iniludivelmente que é o espírito magnânimo e o coração generoso, aquele que se dilata abrasado pelo amor do próximo, que inspiram o maior respeito e a única consideração de peso.
Todos nós sentimos em nós, bem no íntimo da alma, o sentimento de justiça, embora este nos doa por vezes.
E todas as honras, prestadas ao Padre Américo, o Humilde por excelência, e todas as lágrimas de saudade e todas as palavras de louvor sincero, são apenas um sentimento de justiça prestada a quem só praticou o bem, ao grande educador da mocidade, ao amigo dos desgraçados e dos miseráveis.
Não podemos deixar de frisar a expansão de dor da gente do Porto, nós, de Coimbra, terra fria e reservada como poucas. Mas o pesar foi colectivo no país e todos são unânimes em proclamar o Padre Américo como Apóstolo de Caridade, o grande pedagogo dos nossos dias, o reformador da sociedade.
O Correio de Coimbra chora a sua perda, lamentando a falta da sua pena brilhante e justa, ele que foi honrado com as suas confidências a respeito da sua magnifica Obra da Rua.
Apresenta sentidas condolências a toda a família e é vergado sob a mais profunda mágoa que passa a relatar a apoteose que prestaram ao Amigo dos Pobres.
*
A romagem do povo não cessara toda a noite. Homens, mulheres, crianças, caminharam, silenciosamente, pela vasta igreja da Trindade, muitos chorando, outros beijando as mãos e a batina do sacerdote. Os gaiatos velaram, até à hora do funeral o corpo do seu grande protector.
Legendas — para quê?
Milhares de pessoas, vindas de todos os pontos da cidade, abeiravam-se do corpo do saudoso sacerdote e beijavam-lhe as mãos. A [urna] estava ladeada por guardas da P.S.P., militares e gaiatos, que com muito esforço continham o povo à distância.
Às 9:30 horas precisas, começou a ser chumbada a urna, a qual, em seguida, foi transportada aos ombros de Padres da Rua e de Gaiatos, sendo colocada, depois, numa viatura dos Bombeiros Voluntários do Porto, Padres, militares, guardas da P.S.P., mulheres, homens, crianças, não conseguem reprimir as lágrimas. Milhares de lenços acenam, de todos os cantos, de todas as janelas. Ouvem-se gritos. Dezenas de senhoras desmaiam.
O Porto — esse que Padre Américo se lamentava de conhecer tão tarde! — estremece, vibra. A sua alma está ali, à mostra e é ela que se manifesta, que diz ao que vem!
Ao funeral presidiu o sr. Cónego Tomás Francisco Póvoa, vice-reitor do Seminário da Figueira da Foz, que representava o Sr. Arcebispo-Bispo Conde. […]» [Correio de Coimbra, Ano XXXV, N.º 1735, p. 5].
[continua]
Padre Manuel Mendes
