PÃO DE VIDA

Da morte e do funeral de Pai Américo - há 70 anos

No dia 16 de Julho de 1956, a família da Obra da Rua, especialmente os seus filhos, uma multidão de cristãos, amigos e pessoas de boa vontade choraram amargamente a morte de Pai Américo, Pai dos Pobres, na Igreja Católica em Portugal, no século XX. Este acontecimento infausto encheu de enorme tristeza todas as pessoas a que se foi ligando, que consolou e ajudou, e viram a sua acção eficaz de proximidade com os últimos. A sua páscoa dolorosa deixou na orfandade especialmente os seus gaiatos e inúmeros pobres. Como se pode verificar abundantemente, teve ecos incontáveis nos meios de comunicação social, nomeadamente na imprensa escrita, que é um filão de muito interesse para perceber o alcance da vida e da Obra do Venerável Padre Américo.

Quando a inteligência artificial vai subindo para o topo da actualidade tecnológica, faz bem parar, em tempo muito quente, no frenesim diário, com múltiplos afazeres, e estar alguns momentos numa Biblioteca, como a de Coimbra, sentindo a tranquilidade e a importância do acesso directo às fontes de informações. Nessa pausa, na pesquisa de notícias da época, consultámos os jornais eclesiais A Voz do Pastor e o Correio de Coimbra, do ano de 1956, que se referem à morte e ao funeral do Padre Américo. Depois, recolhemos algum material que iremos apresentar, pois vale a pena trazer à luz do dia o impacto do passamento de Pai Américo, com 68 anos, no coração de muitos amigos do Amigo dos pobres. As notícias e os artigos de opinião publicados nesse tempo transmitem-nos os sentimentos mais profundos dos devotos que reconheceram a santidade da sua vida sacerdotal, pelo seu serviço e entrega total aos pobres, na Igreja Católica.

Com o propósito de memória muito grata, recordando e meditando neste acontecimento marcante, que os mais novos devem conhecer, segue-se a crónica 'O Funeral do P.e Américo foi a apoteose da Caridade cristã', no jornal A Voz do Pastor, da Diocese do Porto, sendo Director o P.e Domingos de Oliveira Costa Maia. Eis:

«— Morreu o Padre Américo!

Esta voz, que percorreu o país com a velocidade do relâmpago na manhã de 2.ª feira, lançou a consternação na alma de todos os portugueses, sem distinção de credos, de política ou de classe.

Entretanto a Liturgia entoava, em honra da Virgem do Carmo, este hino de louvor:
Foi-lhe dada a glória do Líbano e o esplendor do Carmelo!

De facto, é no cume dos montes santos que habitam os espíritos assinalados pela Providência com a missão de espalharem o bem sobre a terra

MORTE E FUNERAL

O P.e Américo foi vítima de um desastre de automóvel, ocorrido no sábado, dia 14 [de Julho de 1956], em S. Martinho do Campo, quando regressava de Alcobaça, em serviço do Património dos Pobres. Morreu, pois, em plena missão de caridade. E foi um motorista ex-gaiato que, involuntariamente, provocou o fatal desastre, embatendo contra um muro ao fugir de um carro de bois! Que dor de alma para este filho espiritual do P.e Américo!

No Hospital [de Santo António, no Porto], tudo se fez para salvar a vida ao enfermo; em vão, porém! No domingo. A seu pedido, recebeu os últimos Sacramentos, até que, às 6,05h. de 2.ª feira, entregou a alma a Deus, que tão zelosamente servira na pessoa dos pobres e das crianças abandonadas.

Os sacerdotes da Obra do Gaiato logo celebraram missa por sua alma, na Capela do Hospital. O corpo foi trasladado, à tarde, para a Igreja da Trindade, por onde passaram ininterruptamente, de dia e de noite, muitos milhares de pessoas de todas as condições sociais, como já haviam feito na Capela mortuária do Hospital da Misericórdia do Porto, rezando, chorando, beijando as mãos e a batina do bondoso sacerdote. Este, de harmonia com as suas expressas determinações, encontrava-se revestido de batina e descalço.

Depois de celebradas várias Missas, na 3.ª feira, fez-se a trasladação para Paço de Sousa. Descrever o funeral? Impossível. Jamais se viu, nesta cidade, espectáculo semelhante. A multidão, inconsolável, rompeu em choro convulso, quando o esquife saiu do templo. Milhares de lenços esvoaçavam nervosamente, num acenar de despedida. Numerosas pessoas do povo, homens, mulheres e crianças, lançaram-se ao caminho, ao lado e na rectaguarda dos automóveis, que ultrapassavam o milhar, para acompanharem até Paço de Sousa aquele de quem não se resignavam a separar-se. No percurso, quase toda a gente ajoelhava à passagem. Das janelas pendiam panejamentos negros. Braçados de flores eram lançados sobre a urna.

À saída da Trindade, cerca de 500 soldados, em representação dos regimentos da cidade, faziam guarda de honra. O comércio encerrou as portas e as ruas estavam coalhadas de gente. Presidiu ao funeral o Rev. Cónego Tomás Francisco Póvoa, vice-reitor do Seminário de Coimbra [vice-reitor do Seminário da Figueira da Foz], onde P.e Américo recebera as sagradas Ordens. O Sr. Bispo do Porto, assim como outros Prelados, enviaram representantes.

Em nome do Sr. D. António F. [Ferreira] Gomes, o Sr. Cónego Nédio de Sousa também celebrou Missa na Trindade. Estiveram no funeral mais de 100 sacerdotes e o Sr. D. Abade de Singeverga com os seus monges e alunos. Incorporaram-se as autoridades da cidade e distrito seis Ministros de Estado também se fizeram representar, assistindo o Subsecretário da Assistência Social.

A cena que se desenrolou na Casa do Gaiato, em Paço de Sousa, com os desolados 'órfãos' do P.e Américo, assumiu as proporções do patético. Arrojaram-se sobre a urna, arrancaram o chumbo, com facas e navalhas e arrombaram-na. Chorando alto, a tremer, beijavam e abraçavam o seu querido 'Pai', cuja voz amiga jamais escutariam neste mundo. Restabelecida a calma, o sr. Bispo de Limira [D. Rafael da Assunção] celebrou Missa de corpo presente. Depois, a Missa solene de Requiem e os responsos, na igreja paroquial, pelo padre engenheiro Galamba. Por último, o fim o recolhimento do túmulo, campa rasa, junto do jazigo de família, à espera da ressurreição.

Entretanto, uma avionete do Aero-Club do Norte sobrevoava o local, largando milhares de pétalas, como a advertir que a alma do saudoso extinto voara para o seio de Deus e de lá continuaria a desfolhar sobre a Obra flores de bênçãos. […]» [A Voz do Pastor, Porto, sábado, 21 de Julho de 1956, p. 1, 3].

Padre Manuel Mendes