PÃO DE VIDA

Padre Américo-Testemunho do Padre Nunes Pereira

Das virtudes anexas às virtudes teologais e cardeais, no depoimento do Padre Augusto Nunes Pereira para a Causa de Canonização, constam ainda algumas informações, que fecham este elenco de notas sobre as virtudes do Padre Américo.

Esta virtude liga-se directamente à oração, que Santa Teresa do Menino Jesus definiu bem assim: «Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, é um grito de gratidão e de amor, tanto no meio da tribulação como no meio da alegria» [vd. Obras Completas, Ed. Carmelo, 1996, p. 276]. «De onde é que falamos, ao orar? Das alturas do nosso orgulho e da nossa vontade própria, ou das 'profundezas' (Sl 130, 1) dum coração humilde e contrito? Aquele que se humilha é que é elevado. A humildade é o fundamento da oração. 'Não sabemos o que havemos de pedir para rezarmos como deve ser' (Rm 8, 26). A humildade é a disposição necessária para receber gratuitamente o dom da oração: o homem é um mendigo de Deus [Santo Agostinho].» [Catec. Igreja Cat., n. 2559].

No que se refere à humildade, foi perguntado ao Padre Nunes Pereira «se o Servo de Deus manifestou espírito de humildade e simplicidade evangélicas nas diversas etapas da sua vida, e em que grau». Respondeu desta forma [p. 52]: «Sobretudo depois que entrou para os Franciscanos e depois, no Seminário de Coimbra, manifestou o maior espírito de humildade, em grau heróico».

Em seguida, afirmou: «Considerava-se um nada, lamentava o seu passado pré-sacerdotal, como tendo sido tempo perdido. Prestava sempre atenção aos exemplos positivos das diversas pessoas, procurando extrair lições para si e para propor aos outros, em vez de salientar os defeitos que porventura via nelas e exaltava-lhes as virtudes. Uma vez em que o Prefeito, em reunião à noite com os seminaristas, censurava o procedimento de alguns deles, ele, julgando-se o prevaricador, prontamente ajoelhou, como forma de pedir perdão. Nas visitas aos pobres, sujeitava-se aos maiores incómodos físicos. Nunca procurou honrarias públicas; ao contrário, fugia delas e quanto à Obra, procurava continuadores, para assegurar um futuro à mesma e atribuía a Deus todos os sucessos da sua acção».

As últimas questões, nesta matéria, foram as seguintes: «Diga a testemunha se o Servo de Deus disse ou fez alguma coisa contrária à virtude da humildade. Sabe a testemunha mais alguma coisa de relevo relacionada com esta virtude?». A resposta foi simples: «Não conheço e julgo que está dito o essencial».

Para complementar este tema, socorremo-nos ainda de alguns escritos com traços autobiográficos, do seu tempo de seminarista, em que se comprova o que foi dito. Assim, em Maio de 1925, numa missiva à sua prima Benilde, encontrando-se no Convento de Vilariño de la Ramallosa, em Tuy, na Galiza, Frei Américo escreveu: «Nos momentos mais difíceis desta minha vida, gosto de sentir sobre os ombros o peso das mãos do Senhor e tenho observado que, suportando assim a carga com muita paciência e inteira conformidade com a sua vontade, em breve sinto converter-se em suave alegria o que ainda há pouco era dor. O mundo não entende como nós podemos ser grandes e felizes no meio das mais severas amarguras, ele que passa todo o tempo a fugir a elas!» [vd. Humanística e Teologia, 8, Set.-Dez. 1987, Porto: Faculdade de Teologia, p. 287]. Em post scriptum, deu como exemplo Santa Teresa de Lisieux, que foi canonizada em 17 de Maio de 1925, pelo Papa Pio XI.

Depois, numa carta ao amigo penafidelense António Moreira da Rocha, em 31 de Maio de 1926, escreveu: «A vida [do sacerdócio ministerial] é cheia de dificuldades e só se pode equilibrar por meio das forças ocultas da oração e sacrifício. Este é o segredo dos Grandes que venceram a vida, pequenos e ridículos aos olhos de toda a gente. […] Tome lá esta máxima e escreva-a na parede do seu quarto e da sua alma: ama nesciri et pro nihilo reputari.» [vd. revista Penafiel, N.º 1, 1972, p. 42]. Este lema foi extraído do célebre livro Imitação de Cristo [vd. De Imitatione Christi, Antuerpiae, 1601, Lib. I, cap. II, 3, p. 22]. Pode traduzir-se assim: deseja que te não conheçam nem estimem. Padre Américo fez desta máxima a sua divisa, numa atitude de humildade diante de Deus.

Sobre a virtude da humildade, abordou o tema de forma exemplar, sendo aluno do 2.º ano de Teologia, no Seminário de Coimbra, numa extensa carta doutrinal para o seu irmão Jaime Aguiar, de Dezembro de 1927, no sentido de o ajudar a aproximar-se da fé, da qual recortamos este belo pensamento, em que cita S. Paulo: «[…] 'Temos porém este tesoiro (a vida mística) em vaso de barro para que a sublimidade da minha palavra seja não de mim, mas da virtude de Deus' [vd. 2Cor 4,7]. E aqui tens precisamente o segredo da vida dos místicos: a humildade. O verdadeiro conhecimento de Deus tem de necessariamente começar por nós mesmos.» [vd. O Gaiato, N. 449, 27 Maio 1961, p. 3].

Sendo sacerdote católico e ao serviço dos pobres, na Obra da Rua, a virtude da humildade foi vivida e sublinhada abundantemente por Pai Américo, como desta vez: «Só pela nossa humildade é que o mundo acredita e ama.» [vd. O Gaiato, N.º 28, 17 Março 1945, p. 3].

Padre Manuel Mendes