PÃO DE VIDA
Padre Américo - Testemunho do Padre Nunes Pereira
Continuanado a recolha e a divulgação do depoimento do Padre Augusto Nunes Pereira sobre o seu condiscípulo Padre Américo, seguem-se algumas informações sobre mais duas virtudes anexas às virtudes teologais e cardeais, a saber: a castidade e a humildade. Neste apontamento, deixamos algumas notas sobre a virtude da castidade.
«A castidade é uma virtude moral. Mas é também um dom de Deus, uma graça, um fruto do trabalho espiritual. O Espírito Santo concede a graça de imitar a pureza de Cristo àquele que regenerou pela água do Baptismo.» [Catec. Igreja Cat., n. 2345].
Como testemunha da Causa de Canonização, na Diocese de Coimbra, sendo questionado se o Servo de Deus Américo Monteiro de Aguiar observou a virtude da castidade em grau heróico nas diferentes etapas da sua vida, respondeu deste modo [p. 51-52]: «Consta que na sua mocidade terá sido um tanto folgazão; no entanto, nas conversas, nunca lhe notei quaisquer indícios de ter tido graves desvios nessa matéria. E uma prova é que, se a boca fala da abundância do coração, no trato com ele nunca notei, referindo-me ao seu passado pré-sacerdotal, ouvi ou notei qualquer indício de um passado que indique desvios nessa matéria. Nunca falou em casar-se e nunca lhe ouvi qualquer referência a possíveis ou passados namoros.
Referindo-me agora ao seu passado, no Seminário e vida sacerdotal, posso testemunhar que o Servo de Deus foi exemplar no seu comportamento, quanto à castidade e, tendo convivido com pessoas de 'alto risco', abeirando-se de ambientes e pessoas degradadas, sempre o fez de modo digno e com sentido evangélico, pensando em Cristo à procura dos pecadores e exigindo respeito pela sua pessoa, apresentando-se como sacerdote, através do seu hábito talar. Nas conversas familiares, entre amigos, em que a pessoa é mais espontânea e singela, nunca me contou qualquer palavra ou atitude em seu desabono. Foi extremamente prudente no trato com as Senhoras que trabalhavam na Obra, nas diversas Casas. Era sempre afável, mas respeitador; sabia colocar-se no seu lugar. Ninguém punha sequer em dúvida o seu comportamento nesta matéria.
Não me consta que tenha faltado à virtude da castidade, na vida sacerdotal.».
Para enriquecer este testemunho abonatório, juntamos vários depoimentos e alguns parágrafos autobiográficos que corroboram o que fica exposto quanto à virtude da castidade na sua vida. As notas seguintes reafirmam o seu saudável temperamento alegre, nas festas populares por ocasião das actividades agrícolas, na sua terra natal, mas que não contradizem a sua postura digna. O seu irmão Joaquim de Aguiar [17-IX-1875 †13-XI-1966], que foi senhor da Casa do Bairro, em Galegos — Penafiel, transmitiu a perspectiva do seu pai Ramiro de Aguiar [17-VII-1848 †5-VIII-1921] sobre o filho mais novo: «Então não o vês um rapaz amigo da pandega, tocador de viola, dançador e cantador como nenhum outro? Pode lá ser padre?! Não tem vocação. Olha, Teresinha, conheço todos os nossos filhos por dentro e por fora. O Américo é o único que não conheço. Ou há-de ser uma coisa muito grande ou então há-de dar-nos muitos desgostos.» [vd. O Gaiato, N.º 328, 29 Set. 1956, p.3].
O seu excelente confidente espiritual em Moçambique, o Padre Rafael da Assunção [8-VIII-1874 †22-XII-1959], no seu testemunho, não deixa dúvidas sobre a boa conduta de Américo de Aguiar. Reza assim: «Contava-me o sumário da sua vida, para desabafar. Se havia sido folgazão, nunca fora estúrdio; tinha sempre honrado as tradições da família, da qual fazia parte um Padre, seu irmão mais velho. A educação da infância fora religiosa e o tempo passado no Colégio lazarista de Santa Quitéria de Felgueiras mais a aperfeiçoou.» [vd. O Gaiato, N.º 332, 24 Nov. 1956, p. 1].
Um companheiro de Américo de Aguiar, no Chinde, Sebastião Marques Rafael, sobre o tempo que aí viveu, ao serviço da companhia inglesa The British Central Africa Company Limited, em Moçambique, afirmou: «Américo de Aguiar participava nas brincadeiras de toda a rapaziada; mas nunca se manteve nele aquela expressão própria dum rapaz folgazão. Fugia a certas conversas da rapaziada; as palestras dele eram todas cheias de moral. […] Uma senhora inglesa (talvez Miss Crosby) durante um chá fez-lhe esta pergunta: 'Aguiar, quando se casa?'. Resposta: 'Dificilmente me prenderei…'. […] Era um misterioso, um contemplativo. No entanto era evidente, demasiado evidente mesmo, que teria levado uma vida misteriosa e sem interesse, que nunca praticava loucuras, ou sequer o mais elementar flirt. […]» [vd. O Gaiato, N.º 470, 17 Março 1962, p. 2].
Um testemunho credível do franciscano Padre Alexandre dos Santos [21-XII-1875 †1-I-1961], que foi seu companheiro no Convento franciscano de Vilariño de la Ramallosa, em Tuy, deu breve notícia de uma cena significativa do tempo de Moçambique, em que viveu na república do carapau frito. Diz assim: «Da vida do Padre Américo antes de vir para os franciscanos sei pouco — o bastante para o definir:
Na África correu a cavalo-marinho uma miserável desvergonhada, que supôs poder ser com ele atrevida…» [vd. 'O franciscano Padre Américo', in Alma, Braga, Ano XLIX, N.º 21, Set. 1956, p. 6]. De facto, diante de uma cilada, Américo de Aguiar, teve a capacidade de se manter na linha da pureza cristã.
Dos seus passos no serviço aos mais frágeis, como Recoveiro dos Pobres, escreveu belas páginas e a sangrar pelas dores dos últimos, como este inciso: «Fui ver com meus próprios olhos a toca de uma Menor, errante dos caminhos, com seu filhinho ao peito. Topámo-nos muitas vezes na Baixa [de Coimbra] e o pequenino, do colo da mãe, puxa os botões da minha batina, enquanto ela desfia as contas da vida.
Não tomes a mal nem te escandalizes, se um Sacerdote da Igreja conversa em público e vai a casa da mulher de má nota, que o pecado está no coração, não nas passadas. Pior nota tem o homem que a faz cair, e tu dás-lhe a tua direita!» [vd. Pão dos Pobres, Coimbra, vol. III, 1943, p. 71].
Na verdade, Deus foi escrevendo, ao longo da vida de Américo Monteiro de Aguiar, por linhas tortas, mas sempre no caminho dos Pobres — que Jesus escolheu como Sua herança!
Padre Manuel Mendes
