PÃO DE VIDA

Padre Américo - Testemunho do Padre Nunes Pereira

Os conselhos evangélicos são ensinamentos de Jesus para guiar a vida dos cristãos no caminho da santidade. Centram-se principalmente nas virtudes da pobreza, obediência e castidade, constituindo os votos fundamentais e comuns professados na vida consagrada — institutos de vida religiosa.

No interrogatório às testemunhas, no Processo sobre a vida e virtudes do Servo de Deus Américo Monteiro de Aguiar, elaborado pelo Promotor de Justiça, Padre Doutor João Paulo de Campos, em 11 de Abril de 1991, constam no questionário sob o capítulo C — Virtudes anexas [n. 84-92, fl. 11-12].

No que se refere à pobreza, foi perguntado «se o Servo de Deus praticou a pobreza em grau heróico e de que forma». O Padre Nunes Pereira respondeu, no seu depoimento [p. 51]: «O Servo de Deus praticou a virtude da pobreza em grau heróico. Tomou à letra a palavra que Jesus disse ao jovem rico: 'Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis e segue-Me» [cf. Mc 10, 21].

Como já fiz notar, o Servo de Deus vestia modesta e pobremente, segundo o costume sacerdotal, com grande dignidade. Conforme ele mais tarde escreveu, acerca dos Padres da Rua, eles devem ser mendicantes, padres pobres, ao serviço de uma Obra pobre; sempre que seja necessário, saiam a mendigar, de porta em porta. São pobres, pobres por devoção. Quem isto escreveu para os seus colaboradores, com certeza o viveu em grau heróico. O Servo de Deus não tinha férias nem descanso; entregava-se totalmente ao seu trabalho, sempre pronto para prestar os serviços mais humildes.».

Questionado «se o Servo de Deus faltou alguma vez à virtude da pobreza, ou se notou nele algum defeito contrário a esta virtude», disse: «Não conheço.».

O Padre Nunes Pereira fez alusão ao Testamento de Pai Américo, em matéria de pobreza: «O fundamento da Obra da Rua é a sua pobreza. Os Padres da Obra são mendicantes. Padres pobres ao serviço de uma Obra pobre. Sempre que for necessário, saiam a mendigar de porta em porta e recebam por amor de Deus tanto o sim como o não. […]» [vd. 'O Meu Testamento', in O Gaiato, N.º 127, 8 Janeiro 1949, p. 1].

É de referir aqui que Américo Monteiro de Aguiar, depois de uma martelada decisiva e seduzido pelo carisma franciscano, foi para o Convento franciscano de Vilariño de la Ramallosa, em Tuy, em 21 de Outubro de 1923, onde permaneceu até 6 de Agosto de 1925, sendo aconselhado a sair… Não concretizou, pois, a profissão canónica dos conselhos evangélicos; contudo, quis continuar a imitar Jesus pobre. Assim, no Seminário de Coimbra, em Outubro de 1928, no dia em que foi admitido ao Subdiaconado, estando no início do 3.º ano de Teologia, num requerimento ao Bispo de Coimbra, D. Manuel Luís Coelho da Silva, fez por escrito o Voto de Pobreza e o Voto de Obediência [vd. O Gaiato, N.º 325, 18 Agosto 1956, p. 2].

No serviço dos pobres, como Presbítero diocesano, fez várias confidências sobre a sua vontade de ser e viver pobre, como esta: «Sinto desejos de ser Francisco de Assis, para abraçar este espaço imenso de luz e de vida, desprendido, como o Pobrezinho, de tudo quanto possa ligar a gente às ninharias do mundo.» [vd. Pão dos Pobres, vol. I, Coimbra, 1941, p. 45). E, v.g, esta lamentação: «Sabes: fiz um dia voto de pobreza, para acudir a tempo e horas à miséria dos meus Irmãos, alistando-me na maré, na ala do sacerdócio, para ser em tudo milícia de Jesus. Pois muito bem; em vez de ser guia de livre-trânsito, tem sido para mim ferrete, neste mundo, o meu carácter sacerdotal! Dá pena.» [vd. Pão dos Pobres, vol. II, Coimbra, 1942, p. 277].

Quanto à obediência, foi perguntado ao Padre Nunes Pereira: «Diga a testemunha se o Servo de Deus praticou a virtude da obediência em grau heróico em todas as etapas da sua vida». Respondeu assim: «Sim! Sem reticências. Em grau heróico. Com a maior das simplicidades!

Em relação à vida de família não há a mínima dúvida; com o seu Bispo também, quanto sei e pude observar, sempre lhe notei o maior respeito, para com os directores espirituais que teve, não sei pormenores íntimos, mas suponho que tenha sido obediente e respeitador; com os seus colaboradores, a noção de respeito e autoridade esteve-lhe sempre presente, até mesmo na organização interna das Casas, pois o cargo de 'maioral' a isso conduz.

Não me consta que alguma vez tenha faltado ao respeito para com os superiores, quaisquer que fossem.».

A confidência seguinte do Padre Américo ilustra bem o que foi dito supra: «[…] Gosto de ser mandado. De vez em quando, costumo ir ter com o meu Bispo a perguntar se vou bem. Não escolho o mais sábio, pode ser que haja outros mais sábios do que o meu. Não se me dá. Não é da minha conta. Vou àquele a quem devo obediência e ele, a mim, vigilância. O meu Bispo. Ande lá.

Eis as minhas credenciais. Nunca o meu Bispo me disse outra coisa. Ande lá! Eu cá ando. […]» [vd. 'Uma carta, in O Gaiato, N.º 89, 26 Julho 1947, p. 2].

Na verdade, para viver plenamente o ministério presbiteral, tem de haver sempre a vinculação com o Bispo, considerando que a relação Presbítero — Bispo é prioritariamente sacramental.

Padre Manuel Mendes