
PÃO DE VIDA
Padre Américo - Testemunho de Padre Nunes Pereira
Continuamos a dar notícia do depoimento do Padre Augusto
Nunes Pereira. Desta vez, serão apresentadas as respostas sobre as virtudes
cardeais: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. Na Sagrada
Escritura diz assim: «se alguém ama a justiça, tem como seus frutos as
virtudes, pois ela ensina temperança e prudência, justiça e fortaleza»
[Sb 8, 7].
«A prudência é a virtude que dispõe a razão prática para discernir, em qualquer circunstância, o nosso verdadeiro bem e para escolher os justos meios de o atingir» [Catecismo da Igreja Católica, n. 1806]. Sobre esta virtude humana, disse [p. 50]: «No meu trato com o Servo de Deus, nele vi sempre, em grau eminente, esta virtude cardeal e, nas diversas circunstâncias indicadas, não tenho dúvidas em testemunhar esse exercício heróico. Será fácil manter o equilíbrio humano e sobrenatural em ambientes de depravação moral, de prostituição, de vício, etc., em que ele actuou?
O Servo de Deus não se guiava apenas pelas suas ideias próprias, mas pedia a opinião alheia também e confrontava-a com o seu pensar que mantinha firme e fiel ao seu ideal. Era um homem livre de espírito, mas não era um contumaz. Era um homem de ideias claras, directas e simples. Foi prudente em nada querer fazer sem a anuência do seu Bispo e conforme o ideal evangélico. A sua prudência não era meramente humana, mas profundamente sobrenatural, procurando ver qual era a vontade de Deus.
Não tenho conhecimento de que o Servo de Deus tenha agido imprudentemente, nas circunstâncias indicadas.».
«A justiça é a virtude moral que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhe é devido. A justiça para com Deus chama-se 'virtude da religião'. Para com os homens, a justiça leva a respeitar os direitos de cada qual e a estabelecer, nas relações humanas, a harmonia que promove a equidade em relação às pessoas e ao bem comum.» [Cat. Ig. Cat., n.1807]. Da justiça para com Deus, afirmou [p. 49]: «Sim. Segundo o meu conhecimento, ele praticou-a em grau heróico.». Questionado se «foi fiel na observância das obrigações para com Deus (vida de adoração, esmero no culto divino, etc.) e no tocante às leis da Igreja? […]», respondeu: «Em tudo isso foi fiel. Tudo isso é altamente positivo nele.». E ainda: «Não era hipócrita nem se procurava a si próprio. Não era homem de respeitos humanos.».
Da justiça para com os homens, disse [p. 50]: «O Servo de Deus sempre demonstrou rectidão e lealdade, em relação aos homens, seus irmãos. Quando tinha alguma coisa para dizer, ou alguma correcção a fazer, era franco e frontal. Obedeceu sempre às leis justas. Justiça social – foi sempre a meta da sua acção. As soluções que adoptou, para remédio dos males sociais, são um autêntico achado do seu lúcido e grande espírito. Praticou sempre a justiça, em alto grau, nas circunstâncias indicadas.
A sua pedagogia educativa e a instituição do chamado 'tribunal', nas Casas do Gaiato, são a expressão do seu sentido íntimo de justiça, que o norteava em tudo.». À pergunta «se o Servo de Deus, em qualquer circunstância, faltou à justiça para com o próximo […]», respondeu: «Não conheço».
«A fortaleza é a virtude moral que, no meio das dificuldades, assegura a firmeza e a constância na prossecução do bem.» [Cat. Ig. Cat., n.1808]. Quanto a esta virtude cardeal, disse [p. 50]: «Como não será profundamente forte quem teve de enfrentar tantas dificuldades e contradições, como vemos no decorrer de toda a sua vida? Ele foi sempre um lutador!
A fortaleza do Servo de Deus não era apenas uma qualidade natural, mas era sobrenaturalizada pela sua fé profunda, na oração, na comunhão, nos laços que o prendiam ao Senhor.». Questionado «se suportou com fortaleza de ânimo e serenidade os sofrimentos do acidente de que foi vítima e o consequente risco de vida», afirmou: «Não tenho conhecimento directo, mas julgo que sim.». E mais: «Nada conheço em que o Servo de Deus tenha demonstrado [inconstância], pequenez de espírito, temeridade, impaciência, presunção ou orgulho. Pelo contrário!».
«A temperança é a virtude moral que modera a atracção dos prazeres e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados.» [Cat. Ig. Cat., n 1809]. Relativamente à 'moderação' [Tt 2, 12], «o Servo de Deus era um homem sóbrio e comedido. Sempre o conheci no Seminário como tal, embora o seu feitio fosse alegre e expansivo.
O Servo de Deus era sóbrio e não fugia das tarefas aborrecidas ou incómodas. Na convivência com ele, nunca notei que ele se excedesse na comida ou na bebida. Era modesto em seu trajar e não tinha cuidados exagerados com a sua saúde. Era extraordinariamente cuidadoso com a sua higiene. Era de porte singelo e vestia com dignidade e simplicidade. A batina era o seu trajo habitual, juntamente com a sua capa que o acompanhava para todo o lado. Era comedido nos seus gestos, no seu andar e no falar.». À pergunta sobre «eventuais faltas ou excessos do Servo de Deus no exercício da temperança […]», o Padre Nunes Pereira respondeu: «Não tenho nada a referir, no aspecto negativo.».
Neste belo pensamento, Pai Américo indicou claramente o lugar central de Deus, como fonte da Luz na sua vida e missão: «Aqui há dias vinha uma carta a dizer que a Obra da Rua, por alcunha do Padre Américo, é uma obra de Deus. Esta sombra confirma. É a Luz quem projecta a sombra…» [vd. O Gaiato, N.º 189, 26 Março 1951, p. 3].
Padre Manuel Mendes