
PÃO DE VIDA
Do Padre Augusto Nunes Pereira
No 120.º aniversário do nascimento do Padre Augusto Nunes Pereira [1906 †2001], foi lançado um vasto programa cultural para homenagear este notável artista – Do nascimento ao [re]nascimento. Associando-nos às comemorações, também lembramos justamente este sacerdote virtuoso, que foi condiscípulo de Padre Américo, rememorando como intróito alguns traços do seu percurso biográfico e depois divulgando algumas linhas das palavras recolhidas de um testemunho pessoal, em 4 de Março de 1992, no Tribunal Eclesiástico de Coimbra, para a Causa de Canonização do Servo de Deus, Américo Monteiro de Aguiar, sacerdote.
Justifica-se assim uma pequenina nota biográfica, sobre a vida deste padre exemplar e multifacetado da Diocese de Coimbra. No seu assento de baptismo, o Pároco de Fajão desse tempo, Padre Carlos José Fernandes de Almeida, registou assim estas primeiras linhas: «No dia vinte e três de Dezembro de mil novecentos e seis, nesta igreja paroquial de Fajão, concelho de Pampilhosa, Diocese de Coimbra, baptizei solenemente um indivíduo do sexo masculino, a que dei o nome de Augusto, nascido no dia nove do mês e ano supra, por três horas da manhã, no lugar da Mata, desta freguesia de Fajão, filho legítimo de António Nunes Pereira e Ana Gomes […].». [vd. Arquivo da Universidade de Coimbra – Fajão/Anno de 1906/ Baptismos N.º 2, n.º 53]. De notar que a data de nascimento que consta é 9 de Dezembro, embora o Padre Nunes Pereira o celebrasse a 3 de Dezembro… Tinha mais três irmãos. Seu pai era escultor santeiro e faleceu quando Augusto tinha 9 anos, dele herdando as ferramentas, o gosto e o talento pela arte.
Depois de aprender as primeiras letras, em 3 de Setembro de 1919, com 12 anos, foi admitido no Seminário de Coimbra [registo n.º 106], como aluno pensionista. Ao longo da formação filosófica e teológica, foi recebendo Ordens: recebeu a Prima Tonsura e Menores em 18, 19 e 20 de Dezembro de 1925; o Subdiaconado em 23 de Julho de 1928; o Diaconado em 7 de Junho de 1929; e o Presbiterado em 28 de Julho de 1929, juntamente com Américo Monteiro de Aguiar, de Galegos – Penafiel e José Marques da Silva, de Almoster – Alvaiázere [vd. 'Ordenação no Seminário', in Correio de Coimbra, N.º 374, 3 Agosto 1929, p. 4; 'Ordenação', in Boletim da Diocese de Coimbra, n.º 7-12 (1 e 15 Jul. – 1 e 15 Set. 1929), p. 66]. O Padre Américo terá dito sobre a sua vocação sacerdotal com veia artística: «Pode-se ser padre e artista […]. Repara, por exemplo, em Fr. Angélico que, sem deixar de ser um bom monge, foi o artista que foi.» [vd. Correio de Coimbra, N.º 2046, 7 Agosto 1980, p. 4]. Foi cofundador, ilustrador e dinamizador da revista manuscrita Lume Novo, dos alunos do Seminário de Coimbra, com muitas e belas ilustrações, e onde Américo de Aguiar também colaborou sob o pseudónimo Frei Junípero, no arco de 8 de Dezembro de 1926 a Junho de 1930 [N.os 1 a 13]. Foi Pároco em Montemor-o-Velho [1929-1935]; depois, em Coja – Arganil [1935-1952] e em S. Bartolomeu – Coimbra [1952-1980]. Foi Chefe de Redacção do jornal Correio de Coimbra, de 1952 a 1974. De 1980 a 2001, manteve residência em Coimbra; e, em 1995, fixou residência no Seminário Maior de Coimbra. Foi Vigário Geral, membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra e Conservador do Património Artístico da Diocese de Coimbra. Foi-lhe atribuída a Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra. Na Paróquia de S. José, em Coimbra, onde colaborou, deixou um belíssimo Vitral da Ressurreição, na igreja paroquial. Faleceu a 1 de Junho de 2001, com 94 anos, na freguesia de Santo António dos Olivais, concelho de Coimbra.
O Padre Nunes Pereira foi conciliando naturalmente o serviço pastoral na Diocese de Coimbra com o seu interesse por várias artes – poesia, desenho, aguarela, escultura, vitral e sobretudo xilogravura. Nesta arte, foi o melhor artista português da segunda metade do século XX. Nas suas obras, assinava por N.P. [Nunes Pereira], mas humildemente dizia: não presta… Publicou alguns livros, v.g.: Panorama artístico das Beiras. Lousã, 1947; Pedra d'Ara: versos. Coimbra, 1954; Do Cadeiral de Santa Cruz. Coimbra, 1984; Os Contos de Fajão. Coimbra, 1989. Foi professor, v.g.: no Instituto Superior de Estudos Teológicos [de História da Arte, de 1980 a 1994]; e na Escola Avelar Brotero, em Coimbra. Fundador do Movimento Artístico de Coimbra e da Sociedade Cooperativa de Gravadores de Portugal, e sócio da Sociedade Nacional de Belas Artes. A Oficina-Museu Mons. Nunes Pereira, no Seminário Maior de Coimbra, foi inaugurada a 10 de Janeiro de 1997 [vd. Aurélio de Campos – Seminário de Coimbra: subsídios para a sua história. Coimbra, 2014, p.344-345], tem à sua guarda cerca de 15 mil peças e vem dinamizando actividades culturais meritórias, especialmente exposições, para divulgar o belo e rico legado artístico do Padre Augusto Nunes Pereira. Na sua aldeia natal, há o Museu Monsenhor Nunes Pereira, inaugurado a 13 de Setembro de 1997. Os seus trabalhos artísticos, na sua maioria, encontram-se dispersos pela Diocese de Coimbra, nomeadamente em: igrejas, capelas, instituições particulares e no domínio privado. No Memorial Padre Américo – Obra da Rua, na Casa do Gaiato de Paço de Sousa, foram recolhidas duas peças, em xilogravura: rosto de Padre Américo e uma Sagrada Família. Sobre o Padre Nunes Pereira foram publicadas algumas obras: uma excelente fotobiografia – Monsenhor Nunes Pereira: O percurso de uma vida. Coimbra, 2001; e Monsenhor Augusto Nunes Pereira no Centenário do seu Nascimento. Coimbra, 2008.
Na homilia da Missa exequial, o Bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, afirmou: «nós, os Padres de Coimbra, perdemos uma jóia». Mais, disse: «ser artista como ele foi é ser pregador e padre. Os seus traços pictóricos são uma verdadeira pregação porque o artista aponta-nos sempre as pegadas de Deus». Entre tantos, eis o belo poema Minha Mãe: «Por graça do Senhor fui ordenado/ certa manhã de esp'rança e alegria,/ e a obediência ao meu Prelado/ naquela hora grande eu prometia./ Fiquei, porém, confuso e abismado/ por ver na minha terra, ao outro dia,/ na pitoresca aldeia onde fui nado,/ a minha Mãe a dar-me senhoria./ Perante o meu protesto reverente,/ a minha Mãe querida respondeu:/ – sou tua mãe; criei-te com amor,/ mas tu agora és padre eternamente;/ dou senhoria a quem é mais do que eu./ Pois não és ministro do Senhor?».
[continua]
Padre Manuel Mendes