Pai José Telmo Ferraz

A simplicidade em pessoa

Chegou o momento de retribuirmos, com cuidado e gratidão, tudo aquilo que o senhor foi para nós enquanto filhos. Agora somos nós a cuidar de si, vovô. Lembro-me de que foi numa quarta-feira — precisamente no dia 13 de Maio — que fui ao seu encontro: "Pai Telmo, está na hora do lanche. O Sr. Pacheco está à espera na salinha. Vamos?" E o senhor respondeu: "Ai… hoje estou com tanta preguiça…" "Vamos lá, pai Telmo, senão o Sr. Pacheco ainda nos puxa as orelhas." E, sorrindo levemente, disse: "É verdade… vamos." A sua cadeira de rodas estava ali, no cantinho. Peguei nela e aproximei-a. Quando se sentou, deixou escapar uma frase que eu nunca esperaria ouvir: "É no fim da vida que ganho um carro…" Naquele momento, não consegui responder. Descemos, servi-lhes o lanche e ausentei-me por instantes. Mas aquela frase permanecia dentro de mim: "É no fim da vida que ganho um carro…" Quanta humildade. Quanto desprendimento. Quanto desapego das coisas. Quanta vida oferecida aos outros. Quanto de si foi doado silenciosamente… A frase fez-me recordar as palavras de São Paulo: "Fez-se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza" (cf. 2 Cor 8,9). Como alguém chega a dizer aquilo com tamanha simplicidade? "Ganhei um carro." Uma cadeira de rodas — porque a idade já cobra o seu preço. Um carro de rodas — porque os seus 100 anos de vida já não lhe permitem caminhar sozinho como antes. Ainda assim, dificilmente se esquece da bengala. E, quando pode, sobretudo quando está sozinho, ainda consegue arriscar alguns passos por si mesmo. Nestes anos de convivência mais próxima com o pai Telmo, recordo-me de tantas homilias do Padre Rafael, em Malanje. Sempre que falava sobre a pobreza evangélica, nunca deixava de mencionar o pai Telmo: "Se forem a Portugal, verão que o pai Telmo não tem nada que o prenda…" Hoje, estando perto dele, sou testemunha ocular disso. Tive duas vezes a graça de visitar a terra do pai Telmo, a convite do Padre Alfredo: uma, por ocasião da apresentação do seu último livro, em Genísio; outra, em Bragança, quando recebeu, na Quinta-Feira Santa, a carta de felicitação do Papa Leão XIV pelos seus 100 anos de vida e 75 anos de sacerdócio. E, de facto, não há ali nada que lhe pertença — senão o bom testemunho deixado no coração das pessoas que o conheceram. Costuma dizer-se que "a velhice é uma meninice", como certa vez me recordou a dona Emília, uma das nossas utentes aqui no Calvário. Mas, com o pai Telmo, é diferente. Não é a mesma coisa quando se chega lúcido à velhice. De facto, há quem tenha deixado tudo para seguir o Senhor: "Nós deixámos tudo para te seguir" (cf. Mt 19,27-29). Pai José Telmo Ferraz, a simplicidade em pessoa. Muito obrigado, pai Telmo.

Zézito