Os sinais que ficaram 2156
Foi no dia 8 de Outubro, depois de uma formação e antes de me dirigir à capela para rezar a Hora Intermédia, que peguei no telemóvel para saudar algumas pessoas. Entre as mensagens que fui recebendo, uma das respostas do Jorge Domingos chamou-me particularmente a atenção: «Recebi a mensagem de que o rei morreu».
Senti imediatamente que alguma coisa tinha saído de mim.
Fiquei sem jeito, sem forças e sem saber o que fazer. Fui à capela e fiquei ali, diante de Jesus Crucificado, a olhar fixamente para Ele. Não sabia o que dizer. Talvez, naquele momento, nem fossem necessárias palavras.
Começaram, então, a surgir as recordações. Sabia que já não voltaria a ver o Pai Telmo, nem a ouvir a sua voz, os seus conselhos e aquele seu jeito tão próprio de se fazer ouvir.
A certa altura, pensei: «Ui! Afinal, é preciso estarmos atentos aos sinais».
E esta palavra, "Sinais", fez-me recordar o título que o Pai Telmo escolheu para as suas publicações de artigos no nosso jornal "O Gaiato". Que ironia! Nunca pensei que, um dia, seriam precisamente algumas das últimas experiências vividas com ele que me fariam pensar tanto nesta palavra.
Lembro-me da última noite em que dormi no seu quarto, como era costume nos últimos tempos. Eram noites difíceis, de sofrimento para ele e também para mim, que o via sofrer sem saber o que fazer para o ajudar. Perdoe-me, Pai Telmo…
Na última segunda-feira em que estive com ele, por volta das 19 horas, depois do jantar, despedi-me do Pai Telmo e regressei ao Seminário. Fui com a esperança de voltar a encontrá-lo no fim de semana. Tínhamos combinado que, a partir de então, eu procuraria estar junto dele todos os fins de semana.
Afinal, esse encontro já não aconteceu.
E agora ficam as lembranças. As saudades. O seu silêncio, os seus mimos e os seus conselhos, sobretudo aquele que tantas vezes nos recordava: «Devemos ser amigos de Jesus».
Ultimamente, tenho-me lembrado muito dos tempos de Malanje, quando ainda era um dos mais novos, um «batatinha» da Casa do Gaiato. Naqueles tempos em que ainda não tínhamos energia da rede pública, o Pai Telmo acordava-nos à meia-noite, à uma ou às duas da manhã para irmos fazer xixi, para que não molhássemos a cama. Na altura, talvez nem compreendêssemos inteiramente aquele cuidado. Hoje, percebo melhor o amor escondido nesses pequenos gestos.
No dia em que recebi a notícia, diante de Jesus Crucificado, não encontrei palavras. Hoje, ao recordar tudo isto, continuo sem conseguir explicar inteiramente o que sinto. Há tristeza por já não poder estar com ele, mas há também a paz de saber que terminou o seu sofrimento. E há gratidão. Muita gratidão por ter feito parte da minha vida, desde os tempos de Malanje até aos últimos encontros no Calvário.
Talvez seja esta uma das grandes lições que o Pai Telmo me deixa: aprender a estar atento aos sinais, valorizar os pequenos gestos e não adiar o bem que podemos fazer a quem está junto de nós.
Como rezamos no primeiro Prefácio dos Defuntos: «Se a certeza da morte nos entristece, conforta-nos a promessa da imortalidade».
É nessa esperança que quero confiar a vida do Pai Telmo e também estas minhas saudades. A morte não apaga o bem que recebemos, nem destrói a esperança de que, em Deus, a vida não termina.
É um até logo, Pai Telmo.
Muito obrigado pelos cuidados, pelos rebuçados, pelos conselhos, pelas provocações e por tudo aquilo que me ensinou, tantas vezes sem precisar de dizer muito.
Agora, descanse. Já não precisa de sofrer.
E eu, por cá, procurarei guardar os seus ensinamentos e continuar a ser amigo de Jesus.
Até ao Céu, Pai Telmo!
Zézito
