
MALANJE
O primeiro trimestre terminou em Dezembro e tivemos de esperar até meados de Janeiro para receber as notas dos gaiatos. Durante este mês aproveitámos para realizar uma entrevista individual com cada um deles, a fim de analisar como decorreu este início de ano lectivo. O sistema de avaliação em Angola tem as suas particularidades, e continuamos a constatar que tudo depende, em grande parte, do sucesso num exame. Ao observarmos os resultados — sobretudo daqueles que já frequentam o segundo ciclo do ensino secundário em escolas fora do Gaiato — apercebemo-nos da necessidade de garantir sempre bases sólidas.
Neste ano lectivo solicitámos à Ministra da Educação que o Complexo Escolar do Gaiato seja transformado numa Escola Politécnica. O processo foi aceite em Malanje e aguardamos agora resposta de Luanda. Se o projecto avançar, teremos o desafio de construir mais de dez salas de aula e vários laboratórios, assegurando que todos os alunos concluam a sua formação como técnicos médios. Trata-se de um sonho que partilhamos com todas as instituições e pessoas que nos possam apoiar neste projecto.
Continuamos a apoiar o Lar de Idosos da Maxinde, destinando uma pequena parte do que nos é enviado desde Portugal. A ONG Mundo Orenda também se comprometeu a apoiar este grupo de idosos, que de quinze em quinze dias aguardam a nossa visita com algum alimento. Normalmente realizamos uma compra no valor aproximado de 200 euros em cada visita. Não conseguimos responder a todas as necessidades, mas também não podemos virar o rosto quando a pobreza se apresenta diante de nós.
O Lar Daniel encontra-se já numa fase avançada de pré-projecto para ser apresentado ao Governo de Angola. Este lar pretende acolher, dentro do Gaiato, algumas crianças abandonadas ou provenientes de famílias em situação de grande carência, que apresentam algum tipo de deficiência. Mesmo antes da sua abertura, já temos sete crianças em lista de espera e, há poucos dias, falaram-nos de um bebé. Muitas pessoas, ao verem-nos, pensam que estamos loucos por nos envolvermos neste tipo de projecto, mas fechamos os olhos, olhamos para dentro de nós e encontramos o reflexo do olhar do Padre Américo, que sempre iniciou a Obra com a certeza de que vinha de Deus — e assim o acreditamos também nós.
Outro dia ouvi o comentário de que a Obra da Rua tem o seu futuro em África, mas pensei comigo mesmo que onde quer que exista um ser humano a sofrer, seja onde for, aí está a Obra como família, disposta a colocar todos os meios para que essa pessoa encontre nela um lar e um caminho para sair da pobreza. A Obra só terminará quando deixarmos de acreditar nela.
Padre Rafael