Há 70 anos - Pai Américo - partiu para o Céu

Ao principiar este Relatório, o primeiro dado à estampa depois que Pai Américo partiu, temos diante de nós, e meditamos, aqueles apontamentos que ele intitulou «Algumas Notas Exteriores, pois que por elas se costuma julgar a Verdadeira Igreja e também as suas obras».

Não as reportamos agora na íntegra; mas não podemos silenciar a notícia dos primeiros passos, da sementeira «em lágrimas», que só ela é garantia da «colheita em exultação»:

«a) Tendo sido designado para uma paróquia o seu fundador (da Obra da Rua), no momento de tomar posse, sobrevem-lhe uma doença que o impossibilita. Ao fim de três anos e tendo-se por incapaz, pede e obtém do seu Prelado licença para se dar à visita de Pobres.

b) Dado a esta missão com licença superior, não tardou que não fosse observado e tido por «imprudente» e como tal comunicado ao seu Bispo, por alguns sacerdotes de boa consciência. O Prelado não se manifestou.

c) A seguir são os directores dos hospitais e sanatórios de Coimbra que o tomam por indesejável na sua actuação entre os doentes e pedem ao Prelado que desterre. Outra vez o Ex.mo D. Manuel Luiz Coelho da Silva ignora o dito.

d) Finalmente é um ofício do então Ministro da Justiça, que o manda retirar de membro actuante do Patronato das Prisões, pelas suas «inconveniências»

e) Assim afastado dos Pobres e dos reclusos, o fundador dá-se às crianças da rua e organiza um grupo de cinquenta delas, em colónias de montanha. Desta vez é o próprio Prelado que teme, mas não proíbe. No segundo ano, houve menos receio. No terceiro, pleno consentimento. Desde aquela data o serviço das colónias de montanha e mar na nossa Obra, nunca mais foi interrompido. Quantos milhares de crianças!»

O Evangelho diz que «se a semente não morrer…» tudo é perdido. Aquele que hoje contempla a árvore de grande porte que a Obra da Rua é em seus 18 anos, saiba que ela nasceu do «pequenino grão de mostarda» que se julgou perdido ao longo do caminho de aparente fracasso, que foram os primeiros passos sacerdotais do seu Fundador. Quem hoje se admira da abundância de meios materiais que a nós acorrem, torne ao Evangelho e leia: «E Jesus disse-lhe: Em verdade vos digo que… todo o que deixar a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os campos, por causa do Meu Nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna».

E saiba mais: Que este crescer úbere da árvore nascida do «pequenino grão de mostarda» é resultado não só daquela sementeira toda em renúncia, mas também da adubação em sangue repetidas vezes sem conta durante 16 anos: «Suei sangue. Sei o que é ser mártir. Não afirmo que naqueles tempos de prova Jesus Cristo me tivesse aparecido e falado, como tantas vezes a Paulo. Não posso dizer. Mas senti o Seu bafo».

Quem entender o como e o porquê da contradição nas Obras in nomine Jesu, não se admira que de verdade a morte de Pai Américo – ele mesmo, de algum modo, o «pequenino grão de mostarda» a que Deus deu o incremento – tenha sido, e esteja sendo, o princípio da Obra que Deus lhe fez fazer.

[Padre Carlos]«O Gaiato». 8 de Fevereiro de 1958.

Relatório de 1957. Ano XIV, N.°363, p. 1.