
Há 70 anos - Pai Américo - partiu para o Céu
Era duma vez eu e Pai Américo na varanda do seu escritório. Um belo fim de tarde. Tarde quente, de Verão. Ao longe, no horizonte, o sol escondera-se por entre montes e árvores. O panorama que dali se desfruta mais o fenómeno deslumbrante do poente, tão lindo, quase me distraía a conversa. E não resisti: «Pai Américo, olhe que lindo!» Por resposta, um sorriso. Às vezes respondia assim, a sorrir. Ora nesse dia inolvidável e na formosa sacada eu vim a saber como e porquê veio à luz «O Gaiato». Muito simples: uma força irresistível dominara Pai Américo — dizer a Verdade. Apregoar a Verdade. Mas a Verdade sem rodeios. A Verdade toda. Pura e simples. Pai Américo ainda a Obra da Rua não era e já escrevia, comunicava o resultado da sua experiência pelos arraiais da Miséria. Doutrina forte, para estômagos não preparados. E vá por isso os jornais «tinham medo. Medo do que eu dizia». E em tom solene, acrescenta: «Eu não tinha medo nenhum. Medo de quê?» E mais adiante: «Desde princípio quis ter um jornal. Ser independente».
O tempo passa. A Obra cresce. Paço de Sousa surge como uma faísca. O mundo vê, com espanto, os primeiros edifícios da nossa «aldeia». E em 5 de Março de 1944 Pai Américo lança o complemento admirável da nossa Obra — «O Gaiato». Agora sim. Está em sua casa. Pode dizer o que faz, o que sente, os planos que alimenta. Sem restrições. Abertamente. O jornal é o púlpito ambicionado. Única e exclusivamente da Causa, a Santa Causa da Obra da Rua. De mais nada. De mais ninguém.
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Hoje é dia de saudade: pela primeira vez festejamos um aniversário do «Famoso» décimo terceiro — sem a presença física de Pai Américo. Porém, espiritualmente, a sua presença é a maior de sempre. Nós acreditamos firmemente na Comunicação dos Santos. Ele está aqui. No jornal, na Obra, nos nossos corações. Ele é. Ele será. Até sempre. Sobretudo no seu «Gaiato». Deixem chamar-lhe «seu». Fora o seu diário. Tudo o que sentia, tudo o que vira, tudo o que realizara, tudo o que a sua alma tinha de Belo: as Obras, a Doutrina, o estilo da sua palavra inconfundível enchem páginas e páginas maravilhosas do nosso «Famoso». «O Gaiato» fora ele. Ele, «O Gaiato». Identificavam-se. Porquê? Vivia o que escrevia. Escrevia o que vivia. E quando se escreve com a alma a palavra vibra, toma forma bem mais diferente. É a alma a falar.
Temos uma rota. «O Gaiato» tem uma rota. Traçada por Deus, executada por Pai Américo:
«Não é jornal de feições. Não alimenta interesses. Não defende região. «O Gaiato» não conhece ninguém. Nunca se leu aqui um nome. Nunca um retrato. Jamais uma nota biográfica. Então quê? Não sei. Não dou fé. Digo o que ele não é; avante não sei o caminho. Não sei mesmo se as legiões de leitores são capazes de o definir; não sei. E contudo, apreciam-no. Têm fome. Se o jornal tarda, aí vem um postal — Olhe que não recebi».
É assim «O Gaiato».
Hoje é dia de saudade. Saibamos aproveitá-lo. Façamos. um Acto de Fé. Fé nos destinos da Obra e do nosso querido «O Gaiato». Na sua função social e divina. Não fosse assim e já não seriam. E não seriam logo de princípio. Acto de. Fé. Sim. A vida extraordinária de Pai Américo como Padre da Rua, foi um constante Acto de Fé. Para Ele jamais houve empecilhos. Todas as barreiras se desmoronaram. Porquê? Assim como naquele tempo, hoje, também. É o Santíssimo Nome de Jesus. Tudo o que os nossos olhos vêem e que extasia tantos portugueses tem aqui a sua razão de ser. Fé sem limites no Santíssimo Nome de Jesus.
Júlio Mendes. «O Gaiato».
2 de Março de 1957. Ano XIV, N.° 339, p.1