
Dias de calor no Calvário
Nestes últimos tempos, o calor faz-se sentir de forma intensa em todo o país. Também aqui, no Calvário, não escapamos às altas temperaturas. Os dias tornaram-se mais exigentes, obrigando-nos a alterar algumas rotinas e, sobretudo, a redobrar a atenção para com aqueles que nos foram confiados.
O refeitório, onde diariamente rezamos o terço antes do jantar, e a sala de convívio são dos espaços mais amplos da Casa. Ainda assim, o calor faz-se sentir com intensidade, levando-nos a procurar os locais mais frescos e a recorrer aos ventiladores para tornar o ambiente mais suportável.
Mas o que mais me impressiona não são propriamente as temperaturas elevadas.
Quando o calor aperta, quem pode levantar-se procura um lugar mais fresco. Os outros doentes esperam que alguém se aproxime, lhes ofereça um copo de água ou lhes faça um pouco de companhia.
É nestes pequenos gestos que se percebe o verdadeiro significado do cuidado.
Também o jardim pede água. Mesmo essa tarefa, tão simples, exige hoje mais esforço. São dias que nos pedem mais paciência, mais disponibilidade e mais delicadeza. Afinal, cuidar de quem mais precisa não conhece férias.
Enquanto vivíamos estes dias de calor, a vida recordou-nos, uma vez mais, que existem realidades ainda maiores.
Na manhã de sábado, 4 de Julho, a nossa comunidade parou por alguns momentos. O silêncio tomou conta da casa quando recebemos a notícia da partida da nossa querida Adelaide.
Desde que cheguei ao Calvário, encontrei por toda a parte o testemunho da sua dedicação. Também os vídeos partilhados nas nossas redes sociais revelam uma mulher que fez da própria vida um serviço discreto e constante aos mais frágeis.
Talvez seja essa a forma mais bela de atravessar esta vida: gastar-se, silenciosamente, pelos outros.
Nestes dias, todos procuramos sombra, um pouco de água e algum alívio para o calor. Adelaide deixa-nos uma lição importante: o mundo continuará sempre a precisar de pessoas capazes de refrescar a vida dos outros com a sua presença, a sua dedicação e o seu amor, como o fez na Obra da Rua, particularmente no Calvário.
Foi sepultada no cemitério do Calvário, junto da mãe, Dona Alzira.
Um até já, querida Adelaide!
Zézito