
DA NOSSA VIDA
O razoável (2)
Referi-me na penúltima quinzena d'O GAIATO, a um jovem adolescente que recebemos em nossa Casa a pedido de alguém que nos pediu acolhimento para ele, em sintonia com o seu familiar mais próximo, na primeira ordem de responsabilidade familiar.
Como era previsível, não o deixarão ficar connosco, e será colocado em regime de autonomização. A autonomização é também a nossa pedagogia preparatória para a vida independente, pois normalmente os jovens nesta situação não terão, na idade adulta, quem os possa auxiliar. No entanto, até lá, mantemos a vida em família, coisa que ele não terá. Nestas circunstâncias, não terá com quem a partilhar afectivamente, nos êxitos e nos fracassos, nos sonhos e na realidade, na correcção e na auto-superação, na fraqueza e verdade. Terá algum acompanhamento, mas formal. Há de facto muito que se transmite com o exemplo, com o silêncio, com um gesto que se pode manifestar de muitas maneiras, diariamente. Ele, na nova vida com que se vai confrontar, não terá isto de quem lhe seja mais próximo, ou seja, não terá um pai, uma mãe, irmãos e outras figuras familiares.
Há dias, ao escutar o nosso mais alto magistrado da Nação, relembrei coisas a que o nosso Pai Américo também se referira no seu tempo, neste caso a propósito de uma empresa de navegação, mal gerida pelo Estado, matéria que lhe era bem conhecida. Foi respondendo a uma questão de um jovem, que o Senhor Presidente disse: «Precisamos de mudar a maneira como olhamos para os territórios e como o Estado se tenta sempre imiscuir em tudo e quando centraliza a decisão, então isso dá asneira.»
Embora não se referindo à parte que nos interessa, ou seja, à protecção de crianças e jovens carentes dela, salvaguardada pela sociedade através dos organismos oficiais competentes, parece-me que seria um princípio a aplicar na descentralização dessas competências em instituições criadas para o efeito, com provas dadas. O tratamento dado às crianças sem família ou àquelas que foram sacudidas por quem as trouxe ao mundo, tem muitas maneiras de se aplicar. Mas, há coisas que são fundamentais neste tratamento, como é o de serem inseridas numa família humana, com todas as condições humanas e materiais e, já agora, também espirituais e morais, de modo a contribuir para a formação de pessoas equilibradas. O Estado e quem o representa, pode ter muitos meios e muitos funcionários, mas não pode assemelhar-se a uma família, o que é fundamental no crescimento das crianças e jovens, e por isso não se deve imiscuir em tudo, sob pena de dar "asneira". Nós não somos perfeitos, mas temos todas as condições para que este jovem, a um passo da maioridade, se mantivesse entre nós.
Padre Júlio