
DA NOSSA VIDA
Gratuidade
Dar de graça o que de graça recebemos é, não só, um princípio de vida, mas também uma fonte de alegria e de liberdade. De facto, nada é nosso, tudo é dádiva divina.
Agir, pois, com a mesma liberalidade de Deus, aproxima-nos da verdade e purifica-nos da mentira que afasta o homem do seu Criador. Apesar de tudo ser nosso, como diz S. Paulo, nós não nos pertencemos, mas a Cristo, isto é, não somos senhores de nós mesmos.
Toda a dádiva deve ser dada com alegria e recebida, também, com alegria. Muitas vezes isso não acontece, do lado de quem dá ou da parte de quem recebe. Mas toca-nos profundamente quando vemos a alegria nos gestos de quem recebe ou de quem dá. Só na alegria este comércio fraterno passa para além da matéria e atinge o espiritual. A matéria é morte, mas o espiritual é vida. Um dom na gratuitidade eleva a alma para Deus.
O dom maior de todos é a vida. Nada tem igual ou maior valor. Carece o tempo actual destas dádivas. Elas são preciosas para purificar o mundo do materialismo que o destrói, a que tudo é reduzido, inclusive a vida. Muito bem anda a sabedoria do povo quando diz que o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada, ditado que anda mais na boca dos pobres do que noutras.
A vivência da gratuitidade está sujeita a riscos e perigos. De modo imprevisto e sem racionalidade é ameaçada. A traição é a maior arma com que ameaça.
A questão da presença do traidor na paixão de Jesus é significativa. Porquê esta presença? Será devida à oposição óbvia entre o dom gratuito e o poder egoísta? A vivência da gratuidade é, por isso, uma fonte de dissabores consentidos, porque sendo este deste mundo, aquele não o é; os seus interesses são antagónicos.
Padre Júlio