
DA NOSSA VIDA
«É preciso pôr Deus no seu lugar»
Inesperadamente caiu uma grande adversidade sobre populações inteiras do nosso país, sem atender ao nível pessoal e social do que encontrou pelo caminho. Apesar de ter sido prevista a sua vinda, falara-se em catástrofe, quem estava preparado para a receber? Impreparados, sim, por falta de experiência em casos semelhantes, foi tratada como se desconhecidos fossem os seus efeitos, apesar de tantos casos similares que já vimos, diversas vezes, longe de nós.
Muitas outras populações ficaram incólumes à passagem destes fenómenos naturais. A natureza não é racional, simplesmente combina os diversos factores presentes num determinado momento, produzindo os seus efeitos.
Estes fenómenos seguem o seu curso, mas a natureza, para além do homem que nela pode agir, tem um Criador, que o é de todas as coisas criadas. Não é só ao homem que a natureza está sujeita, na medida das suas capacidades, mas, como Jesus mostra no Evangelho, as forças da natureza estão-Lhe integralmente sujeitas, exemplarmente manifestadas no mar agitado e no vento forte que os seus discípulos, submetidos a elas, lhes fazem temer pelas suas vidas. Jesus, por tudo Lhe estar sujeito, aquieta o mar e acalma o vento. Estabelecida a bonança, os discípulos questionam-se: «Quem é este que até o vento e o mar Lhe obedecem?»
Há, pois, uma diferença fundamental entre o poder do homem e o poder de Deus.
O homem de hoje, em grande parte, não equaciona, nos seus raciocínios e certezas, a Deus como premissa, não Lhe aceitando interferência nas suas conclusões. É um grave erro. Como não considerar o autor de uma qualquer obra quando nos confrontamos com ela? Quando se trata de questões naturais, a equação trata-se com dois membros: o homem e os fenómenos naturais. Mas se obra é inócua por si mesma, já se necessita de conhecer o autor da mesma, passando a equação a ter três membros: o homem, a obra e o seu autor. Estando perante a natureza, obra inigualável em beleza e agruras, porque pôr de lado a Deus, o seu autor?
Na passagem do Evangelho em que Jesus, confrontado pelos judeus, assegura que as vítimas de acção violenta, pelo facto de terem sofrido, não estão em pior condição que as que nada sofreram. Mas que, quer uns quer outros, se não se arrependerem de viverem uma vida infrutífera, sofrerão todos da mesma maneira.
A arrogância do homem é coisa vã; a sua simplicidade abre lugar à presença de Deus.
Padre Júlio