CONFERÊNCIA DE PAÇO DE SOUSA
Quando é que deixamos de reparar
Hoje queria partilhar aqui um texto que serviu de reflexão na reunião de Sábado passado das Conferências Vicentinas da nossa zona. É um texto que vai ao cerne do que deve ser a acção vicentina e que toca no que é um dos principais problemas sociais do nosso tempo.
O texto tem por título "Quando é que deixamos de reparar". A sua autora é a jornalista Clara Raimundo. Foi publicado no jornal 7 Margens do dia 11/06/2026.
A autora começa por relatar os casos de três crianças, ocorridos na escola pública de ensino básico onde tem os seus filhos. O primeiro caso é o de um rapaz do 9.º ano que foi à primeira aula da manhã e depois desapareceu, sem ninguém saber para onde tinha ido. Acabou por ser encontrado, perto da meia-noite, sozinho, numa arriba junto mar. Veio-se a saber que algumas semanas antes esse rapaz tinha partilhado pensamentos suicidas com um colega, mas este colega não contou isso a ninguém.
O segundo caso é o de um menino do 6.º ano que, no intervalo das aulas, foi com os colegas ao skate parque que fica junto à escola. Caiu, bateu com a cabeça no chão e ficou desorientado. Os seus colegas não lhe deram nenhuma atenção e voltaram para a escola, com excepção de uma rapariga que lhe emprestou o telemóvel para ele ligar para a mãe.
O terceiro caso é o de um rapaz que mudou de turma quando passou para o 7.º ano e que foi o único a escolher Espanhol, quando todos os do seu grupo de amigos escolheram Francês. Na nova turma teve dificuldade em fazer novos amigos, mas o que o deixou muito triste foi quando soube que os seus antigos amigos continuaram a encontrar-se fora da escola, tendo deixado de o convidar.
O texto tem mais que vale a pena ler e reflectir, mas, para não alongar esta crónica, fico-me por aqui. Quantas crianças e quantos adultos por esse país e pelo resto do mundo fora passam por situações deste género? Isto também é pobreza e pode ser mesmo pobreza que mata como esteve quase a acontecer ao menino que foi encontrado na arriba, junto ao mar.
É muito fácil não repararmos, como não repararam os colegas das três crianças atrás referidas. Há tantas actividades que ocupam o nosso tempo: festas, encontros, reuniões, algumas até muito católicas ou sociais. Se fossemos a tudo, não faríamos outra coisa, especialmente nestes tempos de Verão onde não faltam por aí actividades para nos distrairmos. Com isso, não temos tempo, nem atenção que nos sobre para repararmos em quem não pode vir à festa, ou está a viver uma tristeza escondida.
Temos que arranjar tempo e atenção para repararmos nas pessoas que todos os dias Deus coloca nos caminhos da nossa vida e temos que educar as nossas crianças a fazerem o mesmo, se não a escola e a família não servirão para nada do que é mais essencial.
Américo Mendes