CALVÁRIO

Cuidar de quem cuidou. Cuidar de quem não se cuidou ou não foi cuidado. Ensinar a cuidar.

Assim tem sido a nossa vida do Calvário. Temos ainda connosco o Padre Telmo, a Adelaide e a D. Esmeralda, apesar da idade e das limitações de saúde. Há anos que estão ligados à Obra da Rua desde aqui, desde Malanje e desde Benguela e Paço de Sousa. Cuidaram de centenas de rapazes e doentes e agora entregam-se confiantes aos nossos cuidados de humanização: higiene, alimentação, enfermagem, medicação e sociabilização. É uma grande graça isto poder acontecer aqui e agora. No passado mês de Maio fomos ao Santuário de Fátima, com um grupo de senhora e voluntários, agradecer exactamente isso.

Acolhemos recentemente o senhor Leite, que nos chegou desde uma clínica de reabilitação, aonde foi parar depois de um AVC, quando já era amputado da perna esquerda. Há anos que o visitei, num primeiro andar de um edifício industrial, com um lanço íngreme de escadas que descia rastejando. Fui pela mão da D. Leopoldina, voluntária no Calvário no tempo do Padre Baptista. Na altura ele disse-nos que ainda não era chegada a hora de vir para ficar connosco. Aceitamos. A Albertina, que sempre lhe levava a mercearia para o dia-a-dia, voltou a falar-nos do caso. Fomos ao seu encontro e decidiu-se a vir ver. Assim mesmo. Tem visto e tem-se sentido acolhido. Graças a Deus e a todos os intervenientes aqui em Casa: assistente social, cuidadoras, voluntários e doentes. Sofre com a suas feridas físicas e psicológicas, a maior de todas a ausência do filho, que o abandonou. Resta-lhe a visita dos netos que a nora faz questão de manter. E nós também. Não fazemos muitas perguntas sobre o passado, mas criamos caixa de ressonância para que as memórias fluam e se partilhem. É assim que se cura, expondo cuidadosamente a história individual. Sarando.

Nos últimos tempos recebemos dois grupos de Catequese da adolescência, de Sobrosa e de Valongo, que quiseram vir conhecer o Calvário e os seus membros. Estiveram na casa, com as pessoas, rezaram, brincaram e aprenderam que o que lhes ensinam na catequese pode ser concretizado na caridade para com os mais desfavorecidos. Como está escrito, o Calvário é uma página do Evangelho escrita cada dia. Basta apresentar-se para a ler e deixar-se tocar. Como alguém que nos visitou na ocasião escreveu: este é o lugar onde os esquecidos ainda têm nome! O Calvário cumpre também a sua missão pedagógica para que um dia os membros de cada família possam ser cuidados em ambiente íntimo e, quando isso não for possível de todo, possam vir ter connosco e terem muitos que possam e queiram cuidar deles como profissionais ou como voluntários. Aqui também se aprende a fazer vendo como se cuida e como se ama.

No passado dia dezassete de Junho teve lugar o concerto solidário com a Banda do Exército – Destacamento do Porto e o músico Pedro Abrunhosa. Agradecemos a presença de todos e de muitos que já não podemos acolher: o espectáculo teve muita procura. Agradecemos o acolhimento da Câmara Municipal nas pessoas do seu Presidente, Dr. Alexandre Almeida, e da Vereadora da Cultura. Dra. Beatriz Meireles, que cederam o auditório do CCP e facilitaram toda a logística. A solidariedade de todos fez-se sentir para com a Casa do Gaiato e Calvário de Beire. Os donativos serão uma ajuda para o processo de manutenção das instalações. Também elas a precisar de cura e reabilitação.

Poderão os nossos leitores contribuir também para os fins acima anunciados para a conta na CGD: PT50 0035 0585 0000 8772 8301 9; ou por MB WAY 911 835 876. Muito obrigado.

Padre José Alfredo