CALVÁRIO

Calvário, 30 de Dezembro de 2005*

Estou na Obra da Rua e no Calvário há 5 anos. Fui formador dos seminários diocesanos e pároco por diversas ocasiões. Também estive como capelão hospitalar no São João, na equipa de cuidados paliativos. Pensava que tinha formação suficiente para abraçar um projecto como este. Na verdade, é uma missão que nos transcende, talvez porque o foco é a doação a cada membro. Mais que director ou administrador importa a presença e a qualidade da relação e do cuidado com cada doente. Estudei e trabalhei muito o tema da espiritualidade sacerdotal e sempre vivi o meu ministério com outros sacerdotes. A partilha de vida sacerdotal com o Padre Telmo é um desafio a procurar a simplicidade quando o mundo nos exige tudo. É o esforço de santificação permanente e contínua. É o exercício da pobreza aceite livremente e com alegria. Depois ajudar na escrita, na leitura, no caminhar, na refeição, na agenda, no telefone, na oração e na eucaristia. É uma liturgia muito rica e enriquecedora e que serve de testemunho para muitos que nos conhecem. É um estilo de vida com sentido, não é fácil, mas traz bondade.

O Padre Telmo não tem preocupações. É como o velho Simeão do Evangelho de Lucas (2,29-32), aguarda ver a salvação, no caso o Salvador. Gosta do seu cafézinho, do contacto com os doentes, de receber as visitas e os amigos. Por ocasião do seu centenário o Padre Rafael, actual responsável da Casa do Gaiato de Malanje, pensou construir uma casa adaptada para crianças com deficiência, para que possam ser acolhidas na Aldeia do Gaiato. É uma espécie de presente de aniversário a que chamou Lar Daniel – Calvário de Malanje.

No regresso de África e com a publicação dos seus textos, com supervisão do Professor Henrique Manuel Pereira, sobretudo suas prodigiosas memórias poéticas, o Padre Telmo tem inspirado as novas gerações de sacerdotes e confirmado no ministério muitos padres a quem a pastoral causa grande desgaste humano e espiritual… O seu testemunho tem lançados sementes em alguns Gaiatos que têm feito formação sacerdotal, nomeadamente o Padre Arnaldo Joaquim e os Seminaristas Adão Vicente e Paulo Domingos. O Lodo e as Estelas, Mibangas e Frutos, Rostos de uma Barragem são obras que criam um espírito vocacional muito impactante e sério. Ele foi ordenado sacerdote em Bragança, em 1951, mas desempenhou a maior parte do seu sacerdócio como missionário em África. Para ele o sacerdócio não é um título pessoal ou social, mas uma ferramenta, um sacramento para servir o próximo. Eu já escrevi que o Padre Telmo encarna, para os dias de hoje, o espírito dos místicos activos, daqueles que olham as pessoas e a natureza e as coisas criadas pela humanidade com bondade e nesse olhar elas tornam-se belas. Ele diz que: no coração humano cabe tudo. É maravilhoso, é uma imensidão. Cabe o amor de todas as pessoas que conhecemos. Cabe tudo no nosso coração. É extraordinário.

O seu último livro Fui Pároco de Aldeia, com ilustrações de Ana Cardoso e retratos de M. L. Chichorro Rodrigues é um ponto de regresso onde tudo começou e nesse sentido uma fonte inesgotável. As histórias do Rocha e do Patuleia, o seu fiel cavalinho e o seu amigo muito pobre, são parábolas comparáveis as que Jesus narrou há dois mil anos. Contêm tanto ensino quanto humanismo cristão e são um retrato fiel do planalto mirandês da primeira metade do século XX. Quando o mundo se guerreava um jovem preparava-se para ser arauto de paz e de desenvolvimento humano íntegro. O autor Telmo Ferraz funde-se com o homem sacerdote. E a originalidade dos textos é a própria vida desnudada e simultaneamente revestida de graça.

* Texto publicado inicialmente no suplemento da edição 400 da publicação de interesse Cultural e Literário As Artes entre As Letras de 17 de Dezembro de 2025.

Padre José Alfredo