BENGUELA - VINDE VER!
Amar sem calculadora
É do Evangelho que recebemos a orientação para permanecer no amor como uma atitude de continuidade. Amar sem cessar, hoje, amanhã e sempre. No Evangelho segundo São João 15:9-12, Jesus usa a expressão de grande compromisso com o amor. Aparece o verbo permanecer. "Como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor… O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei." Na Obra da Rua o amor é a palavra que tudo cria e estabelece o padrão familiar que lhe é peculiar do ponto de vista da sua identidade. Somos a Casa de família dos filhos sem família. E sempre será pela estrada do amor que a acção transformadora continuará a abrir a porta do coração dos seus obreiros para sangrar até ao fim pela salvação da comunidade que lhes está confiada em cada uma das Casas do Gaiato e no nosso Calvário de Beire, de modo mais impactante pela sua natureza e especificidade. No Calvário, desde a sua fundação e orientação abnegada em total doação pelas mãos do Padre Baptista e agora na mesma senda do Padre Alfredo como continuador, se cumpre o mandato do Mestre e Senhor de permanecer no seu amor, animados pelo ideal de Pai Américo, em cada dia no meio das almas que no silêncio fazem a sua peregrinação neste mundo com enormes limitações com que vieram a este mundo ou causadas pela trajectória da vida.
É notável, que é pelo amor que se transformam vidas e se estabelece o princípio da comunhão para o alcance da vida verdadeira que está em Cristo Jesus. Amar e sempre amar até sofrer por causa do amor. Tal como o Filho amado de Deus nos ensinou a amar os nossos irmãos. Fui celebrar missa num bairro a convite do Pároco e levei comigo os rapazes que vieram daquela localidade. Uma mãe desorientada e com seis filhos pequenos vive graças aos cuidados da Paróquia onde está o Padre Abel. As crianças não foram ainda registadas. A mãe deixa o primeiro filho que tem onze anos a cuidar dos irmãos mais pequenos. Este quando podia, dava-lhes qualquer coisa para comer e outras vezes abandonava-os para ir brincar. É apenas uma criança a cuidar de outras crianças. Vieram para a nossa Casa. «O Paizinho, o Lucas e o Pedro». Tivemos de comprar colchões para os novos rapazes. No passado recebíamos alguma coisa da acção social, mas já de alguns anos para cá que não recebemos nada. Temos de comprar tudo. Literalmente tudo. "Leite e mel não jorram nesta terra". O futuro é construído com muito sacrifício de quem ainda tem coragem para continuar a amar sem medir esforços para garantir a dignidade das crianças. Da janela do escritório oiço as lições pelas vozes dos professores ensinando as lições às crianças que estudam na nossa escola. São cerca de dois mil alunos. O trabalho em várias áreas da vida da Casa nos tem valido alguma parcela para alimentação dos rapazes. A parte da educação e da saúde tem gastos elevados diariamente. Os pobres descobriram o seu lugar junto de nós e não se esquecem de nos visitar diariamente. São visitas exigentes, às vezes chegam mesmo a pedir o que faz falta para os rapazes. A solução tem sido a partilha. Damos o que nos faz falta e confiamos o dia seguinte na Providência Divina que nunca nos deixou desamparados. A visita de um pobre em nossa Casa é uma bênção. Os pobres conhecem os outros pobres. E não temos coragem de deixá-los partir sem nada nas mãos. O milho que produzimos nos nossos campos é levado à moagem e a farinha é a base da alimentação. E é desta que servimos os pobres. Quanta falta nos faz a presença do Património dos Pobres para servir as comunidades junto das suas Paróquias. A solidariedade é parente do amor e a sua consequência é benéfica para o convívio social equilibrado e saudável. Andamos de um lado para outro à procura de soluções para as variadas preocupações da vida da Casa. Matrículas nas escolas, emprego para os maiores, reparação e manutenção das máquinas de apoio ao campo e às oficinas para a educação laboral dos rapazes. Em tudo damos graças a Deus, que sabe o que nos faz falta e continua a tocar os corações generosos para que não falte o necessário para o bem-estar das crianças que são o futuro da Nação. De mãos dadas continuemos a acender a chama da esperança que nos permitirá ver nascer, através do amor, um mundo novo de justiça, de paz e de fraternidade. A conclusão é de Pai Américo «Caía a tarde quando entrámos na casa da Doente. Tudo ali são dores. Dor de quem fala, dor de quem escuta. A dor é mestra. Ai dos homens que nunca sofreram! Estivemos ali algum tempo, tendo regressado a Casa pelo caminho mais perto, com medo da noite. À Casa do Gaiato. À Aldeia do Rapazes. A irradiação quase universal da sua luz vem destas visitas aos Pobres».
Padre Quim
