BENGUELA - VINDE VER!

Recuperação

Aos poucos andamos a recuperar a zona de cobertura dos nossos muros que tinham ficado em parte destruídos pelas enxurradas e em parte danificados parcialmente pelos vizinhos envolvidos pelo terror das águas que invadiam as suas moradias. Em momento de grande aflição escavaram a zona do alicerce para fazer escoar as águas para o nosso quintal. Tem sido difícil fazer obras de reconstrução, mais ainda, comparando com os custos da primeira construção. A aquisição do material tem sido uma dor de cabeça pelo encarecimento dos mesmos; ferro, pedra, cimento, areia, brita, cofragem e outros que são solicitados pelo mestre-de-obras. Já terminamos a reposição de quinhentos metros de comprimento e três de altura desde a base ao topo. Falta ainda ferro para soldar a malha de metal. Hoje foi dia de acerto de contas em relação ao pagamento de uma das parcelas da mão-de-obra. Resta a parte danificada pelos vizinhos. Mais outro orçamento. Mais trabalho. Mais despesas. Isto é apenas o que a natureza causou. Há outros tantos empreendimentos por recuperar causado pelo maneio dos operadores, motores, moto-bombas de rega, alfaias, empanques, rolamentos, e em tudo isso as oficinas, agora também com o funcionamento do torno mecânico, responde à altura para consertos mínimos porque o fabricante hoje é comerciante também. Faz para substituir e comprar uma nova. Estamos diante de um cenário permanente entre a factura e as despesas. Só deste modo é que se garante o funcionamento das dinâmicas e das máquinas. Desde o nosso forno a lenha a cozer o pão para o dia seguinte, até à outorga de diplomas dos rapazes no fim dos seus cursos Médios e Superiores. No fim da formação profissional e de outras formações complementares. Tudo é progresso social, humano e Cristão.

Os dormitórios dos rapazes também estão a exigir manutenção constante sobretudo na zona dos balneários. A convivência e utilização frequente das instalações pelo número grande de rapazes é natural que exijam maior atenção e assistência técnica para que possam manter-se sempre dignas e apropriadas para servirem comodamente a família. A casa 3 foi a primeira a merecer arranjos neste ano. Os mestres fizeram um bom trabalho que lhes mereceu outro convite para continuarem a recompor também em outras casas. Sempre começamos a intervenção pelos mais novos. É o amor preferencial pelos mais pequeninos, pelos pobres, pelos mais necessitados. Depois seguem os médios e os maiores em último lugar, mas com a mesma dignidade que todos merecem. Porque todos são filhos. O pai e a mãe são os mesmos. É a Casa do Gaiato.

As aulas tiveram o seu início e a menos de um mês já estão os alunos outra vez parados. Não são férias escolares. São os professores que estão em suas casas por causa da greve. Os nossos ainda tentaram trabalhar mas logo chegaram os senhores do sindicato e proibiram-nos de continuar. Também neste capítulo o estado precisa recuperar para manter o equilíbrio do bom funcionamento das Instituições sociais, prestadoras de serviços de utilidade pública. Administrar também é antecipar e prever situações adversas que põem em risco o bom funcionamentos da coisa pública que diz respeito a todos. Que os professores possam regressar o quanto antes para assumirem as suas responsabilidades de educadores, mas também com a mesma rapidez possam ser atendidos os seus clamores. Aquele que grita sabe por que razão está a gritar, e mesmo quando não somos capazes de resolver as aflições dos outros que gritam, pelo menos paremos um pouco para sabermos porque gritam quando deveria estar calado no cumprimento da sua missão de educar. Não é justo que o meu professor, o meu mestre viva em condições menos dignas daquelas que o seu estatuto o prescreve, para que possa gozar dos privilégios que esse título de educador lhes é conferido. Que a recuperação os faça regressar mais entusiasmados para o cumprimento responsável das suas obrigações, obviamente com a alegria de ver em breve satisfeitos os seus direitos. Senão como será possível educar num contexto onde o educador faz greve de educar? O barco assim vai na contracorrente, o automobilista segue na contramão e a vítima é quem anda na passadeira a espera do regresso às aulas. E se por um instante tudo se invertesse? Aquele que grita por dignidade pudesse assumir o lugar daquele que o nega, talvez nunca deveríamos administrar como se um dia não pudéssemos passar para o lado da vítima. Mas, até lá, tenhamos esperança num futuro melhor quando este filme passar pelas telas do cinema da vida de cada um de nós. A conclusão é de Pai Américo «Falta sangue de Cristo na sociedade. Falta, sim senhor. Vive cada um para si e mui poucos para os mais; quando nós havíamos de ser todos para todos...»

Padre Quim