BENGUELA - VINDE VER!
Solidariedade e partilha
A educação dos rapazes é o centro da nossa atenção dentro das Casas do Gaiato. É essencialmente uma acção de caridade para com o próximo. A expressão máxima de um humanismo puro e autêntico nas suas mais variadas formas de representação. Nela enquadra-se perfeitamente a visão e o ideal da Obra da Rua; "fazer de cada rapaz um homem". Um ser revestido de valor e competências vinculadas à caridade mais fraterna possível. Deixando naturalmente agir em primeiro lugar a graça Divina. E nesta perspectiva educacional e instrutiva é de estimado apreço a preparação dos rapazes para com as causas de grande aflição que atormentam as pessoas mais desfavorecidas da sociedade, nomeadamente os pobres e abandonados. Os sem nada! E os sem ninguém. Tendo sempre presente que foi a solidariedade que os alcançou também como beneficiários da primeira hora para acudir outros desafortunados da segunda hora do calor do dia em matéria de vulnerabilidade profunda, que no nosso contexto é igualmente traduzida em miséria extrema. A solidariedade alivia as dores profundas do irmão, restitui a esperança e a confiança em dias melhores. Acende a chama da vida e desperta os adormecidos pelo sono do sem sentido do seu viver. É reconfortante o momento em que pelos meus olhos entram as imagens dos nossos despenseiros a servirem os pobres no largo do aquário junto á rouparia. A outra experiência é colhida da marcha de regresso destas pessoas a retirarem-se da nossa Casa pela nossa avenida fora à sombra das frondosas mangueiras cinquentenárias. Eles carregados de sacolas e embrulhos nas mãos ou por cima da cabeça levando consigo o fruto das partilhas solidárias que recebemos de outras pessoas de boa vontade para dar aos pobres. Em primeiro lugar aos mais pequeninos habitantes desta numerosa família de Gaiatos. E a seguir conforme a ordem e disponibilidade de recursos, estes vão ter também às mãos dos nossos pobres. Digo nossos pobres porque são companheiros nossos da mesma sorte. Porque contamos com eles na hora da partilha do pão, da dor e do sofrimento. E de igual modo sabemos que eles contam connosco para mitigar as suas carências. Nossos porque conhecem as portas que se abrem para os acolher. E a porta aberta da nossa Casa é uma destas que diariamente testemunham a entrada e a saída das pessoas pobres, de pés descalços e roupa rota, de cara de fome, cansada e doentia. A entrada é feita percorrendo a avenida até ao busto de Pai Américo aonde são dadas as boas-vindas. Os necessitados encontram amparo e pela frente o cruzeiro faz lembrar o amor de Deus que nunca se esquece de enviar os bons samaritanos juntos que são maltratados e espezinhados. Cresce o número de pedidos para acolhermos mais crianças em nossa casa. Os pedidos vêm de toda Angola, feitos por via telefónica ou presencial. Recebemos seis novos rapazes que já estavam a espera para dar entrada desde o ano passado. São eles: «Chivela», «Benguela», «David», «Elísio», «Lucas», «Paizinho», e «Pedro». Os três últimos são irmãos de consanguinidade. É notável o carinho dos rapazes para com os recém-chegados. Todos os rapazes os acompanham para os actos de comunidade para que possam enquadrar-se rapidamente ao estilo de vida da família que encontraram.
Nas férias escolares que terminaram dois dos nossos mais pequeninos seguiram para a adopção em casa de famílias que solicitaram ao tribunal a tutela dos menores. São eles: «Edy e Evanilson». Os dois lugares na Casa Mãe já foram ocupados pelo «Elísio» e pelo «David».
No início deste mês a nossa escola foi escolhida para acolher o acto Municipal de abertura do ano lectivo. Estiveram presentes as autoridades e a comunidade académica em geral. O nosso salão de festas foi pequeno para tanta gente, valeram – nos as suas longas varandas e a parte da pérgula para arrumar as cadeiras. O lanche foi servido a meio da manhã e aconteceu no refeitório. Foi dito o que está feito em matéria de educação e ficaram indicadas algumas metas a serem alcançadas. Na verdade, depois das celebrações dos 50 anos de Independência é um bom reconhecimento, pois a nossa escola é anterior à independência. Quando se deu o 11 de Novembro de 1975 já a nossa escola contava com mais onze anos de funcionamento. A História está registada. Não se pode alterar. Só se pode agradecer e seguir para a frente. A conclusão é de Pai Américo "Não é favor nenhum o meu bater à tua porta nem o teu abrir a mão; é simplesmente uma obrigação social. Pedras do mesmo edifício que todos nós somos, a abundância de uns deve suprir a indigência dos outros para assim haver harmonia no todo."
Padre Quim
