
BENGUELA - VINDE VER!
Já há frutos! E são da nossa sementeira.
Venho de dar uma volta à nossa Aldeia de Benguela. A carrinha cheia de rapazes. Todos os nossos mais pequeninos gostam de andar em cima da carrinha, enquanto gritam convidando outros companheiros para o passeio visitando os nossos campos agrícolas e colhendo alimentos para o gado. No WhatsApp do telemóvel chega o sinal de entrada de mensagem. É de Portugal. Nisto paramos a marcha. É da nossa Tipografia em Paço de Sousa. É o «Régua» a solicitar a nossa participação na presente edição d'O Gaiato. A partir daquele momento todos os caminhos foram dar ao escritório, e da janela do primeiro andar da casa-Mãe ainda vejo os campos verdes de milho, o muro na sua conclusão de restauração e a rapaziada em cima da carrinha à espera que termine de escrever para continuar a ronda pelos campos em bandeiras a espigar. A experiência da vida do campo agrícola ensina-nos que árvore alguma produz frutos logo após a sua plantação. É preciso tempo, cuidado em linha de continuidade. O que acontece em casa de família e nas Instituições de acolhimento e educação, como as nossas Casas. Trabalha-se muito aguardando pela chegada dos frutos. Quando em boa terra a semente com sorte cair, a colheita poderá ser promissora. Uns sessenta, outros noventa por diante. O mais importante é a transformação que acontece com a semente no silêncio, aonde ganha nova forma e estrutura para vingar na vida produzindo em conformidade à vocação a que foi chamada. A nossa missão é feita de amor para acolher, educar, formar e transformar necessitados em potenciais servidores públicos e fiéis administradores do bem-comum. Tudo pela graça, e dado de graça generosa, dos frutos que já se podem colher do trabalho árduo que vai acontecendo na nossa Casa. Um dos frutos recentemente colhidos encontra-se representado no número de rapazes que apresentaram as suas candidaturas ao concurso público que vai decorrer em vários Ministérios do aparelho do Estado. Temos técnicos médios e técnicos superiores, fruto da nossa sementeira, do nosso seio familiar. São frutos-vidas transformadas para a autonomia e autogoverno se lhes forem abertas as portas da empregabilidade nestes sectores da vida activa da Nação. Têm capacidade e muita responsabilidade, perderá a sociedade se os perder de vista. Têm um longo percurso de acompanhamento, muita história para narrar e muito amor para amar. Quem são então? São os jovens Angolanos que chegaram do abandono, da pobreza e da marginalização social e hoje almejam servir com confiança a sociedade que os rejeitou no passado. Resposta segura de vidas tocadas e transformadas para proceder de forma diferente em matéria de solidariedade. São os jovens que descobriram, que nada está perdido. Foi apenas uma fase e a melhor ainda está para chegar, um seu futuro melhor construído com sacrifício, arrancado com bravura e conseguido por quem a sociedade utilitarista nada esperava colher. Educar é um acto de esperança, paciência e amor acima de tudo. Muito amor! Infinito amor. Somos inundados de tamanha alegria ao encontrar um dos nossos rapazes a servir a sociedade com competência. Outro dia, ao sentir dores fortes nas costas, fui ao nosso pequeno consultório e fui tratado pelo «Celestino» que concluiu o Curso Superior em Enfermagem. Bastou uma injecção de diclofenac para estancar as dores. Parece que foi ontem que estudava aqui na nossa escola na 6ª classe e hoje é Doutor a tratar quem o enviou para o ensino superior. Deus é maravilhoso. Faz o bem e serás sempre pelo bem, bem tratado. Obrigado, «Celestino», por me ajudares a tirar esta lição que compartilho com todos os nossos leitores. Os conhecimentos adquiridos são hoje postos ao serviço da própria Casa, que te criou e educou. Cuida agora daqueles que hoje percorrem o mesmo caminho que um dia também foi o teu. São os teus irmãos, cujo sangue de Cristo derramado pela remissão dos pecados uniu para sempre. Poucos testemunhos traduzem tão bem a força da nossa missão como ver um antigo menino tornar-se referência para os mais novos. Também no percurso escolar os frutos são visíveis. Há educandos que se distinguem pelo seu desempenho académico, conquistando lugares de destaque nas suas escolas e demonstrando que a disciplina, o esforço e a dedicação vencem as barreiras impostas pelas circunstâncias da vida. O «Manuel Tchimbassi» saiu como o melhor aluno do colégio Pitruca e vai estudar com uma bolsa no Instituto Nacional de Petróleos na cidade do Sumbe. Fez agora dezasseis anos e irá viver em regime de internato da escola. Cada reconhecimento alcançado é uma vitória partilhada por toda a comunidade porque confirma que investir na educação continua a ser o caminho mais seguro para transformar vidas. Mas a formação na Casa do Gaiato vai muito além da sala de aula. Há rapazes que descobrem no desporto uma oportunidade para fortalecer o carácter, aprender a trabalhar em equipa e desenvolver a perseverança. Ainda há sementes por lançar e vidas por acompanhar. Porque quando uma criança encontra amor, orientação e oportunidade, floresce. E quando floresce, transforma-se num fruto que alimenta a esperança de toda uma comunidade. É um testemunho de que o amor educa, e a esperança ensina todas as lições de vidas transformadas. A conclusão é de Pai Américo "O pequenino há-de compreender por si. Ele há-de conquistar. Mas isto só é possível deixando-o perfeitamente à-vontade."
Padre Quim