BENGUELA - VINDE VER!

Respostas solidárias

Todos os nossos benfeitores, amigos da Obra e os nossos assíduos leitores se recordam dos dias difíceis a que fomos submetidos a passar pelas enxurradas que assolaram a Província de Benguela, com destaque para as propriedades dos moradores das margens do vale do Cavaco, onde se encontra localizado no meio do povo a nossa Aldeia do Gaiato. Sim, é uma das zonas onde a terra é fértil e generosa ao esforço do trabalhador do campo. Foram dias de coragem e confiança redobradas nos desígnios do nosso bom Deus e nas pessoas, homens e mulheres de boa vontade. Irmãos e irmãs que sempre caminham do nosso lado com a sua presença "in loco" ou a distância meramente geográfica com os olhos posto no nosso Mensageiro por excelência "O Gaiato" que quinzenalmente nos aproxima, quebrando barreiras físicas de espaço e lugar numa convivência de grande proximidade.

Passados quase um mês e meio as coisas estão a voltar à normalidade. O tractor já entrou em trabalhos para a preparação dos terrenos e as obras de reconstrução do muro caminham a passos animadores. É preciso muita dedicação, calma e confiança. Graças a Deus, as moradias não foram afectadas. Apenas estão a precisar de nova pintura. Vigora em toda a Aldeia o tom de cor creme para as paredes internas e externas das Instalações. Já temos o pintor na oficina, ajudantes de Casa que têm ali o seu sector para a aprendizagem da profissão. As tintas é que estão em falta. Mas confiamos que em breve nos possam socorrer a esta carência e à de substituição de alguma canalização que pelo tempo se encontra rota e provoca alguma infiltração nas casas de baixo. São muitos os gestos de solidariedade que têm sido manifestados pelas pessoas desde que tomaram conhecimento da situação da entrada violenta das águas. É a natureza. Todos também aprendemos com a natureza. Ela segue o seu curso e passa pelo caminho a que está habituada.

O mestre-de-obras que construiu a primeira vez o muro também apanhou agora mais uma lição no seu ofício. Foi convidado a reestruturar um outro plano de acção para o início das obras de reconstrução. Agora sabemos por onde passa a água das enxurradas. Pela entrada e pela saída espaços a deixá-la passar. Ela não gosta de estar retida. Foge com pressão e deita por terra o que está erguido.

Retomamos os trabalhos das oficinas e o funcionamento em entrada de mais algumas motobombas que estavam avariadas. Um mês depois regressou a nossa carrinha que foi renovada numa oficina de bate-chapa e pintura geral. A "Canter" já tem 23 anos de funcionamento em Casa. Gerações de rapazes foram já transportados ao longo da sua formação académica para os institutos médios na cidade e para as universidades. O motor é uma "jóia" a chaparia nem tanto. Outro dia um dos rapazes viu a nossa carrinha a passar disse-me: este carro deveria ser homenageado. Que bem merece. Pois então ali está ele. Bem renovado, para alguns bons anos de serviço. Que boa homenagem. O "Chicambi" é o único motorista que a leva ao volante. Quando chegou a Casa com a carrinha disse-me: Senhor Padre, o agente da polícia pediu uma boleia. E quando subiu disse: o nosso carro agora está novo. Gosto deste sentimento de pertença! É nosso. Sim é nosso para ser estimado e cuidado por todos. Nem mais nem menos do que isso. É uma das carrinhas mais conhecidas da cidade. Leva todos os dias muitos rapazes. Eles com ela na praia, ao passeio, às escolas. E ainda segue para as compras por onde quer que estejam os mercados. Merece! E bem o mereceu esta nova roupagem. Foram precisos quinhentos e cinquenta mil cuanzas para a sua homenagem. Tudo para melhor servir os nossos rapazes e outros que pedem auxílio. Estamos na mesma estrada, no caminho da peregrinação construindo um mundo de paz e de justiça, de fraternidade e de amor. A conclusão é de Pai Américo: «É absolutamente impossível haver no mundo alguém que se baste a si mesmo. Pode dizer que sim, mas a fala interior é outra. Somos feitos e criados na dependência. Trazemos esta lição nos membros do nosso corpo mortal; eles dependem uns dos outros, pela sua desigualdade. A igualdade é uma palavra. Sim. O Pobre é a riqueza espiritual das almas. A nossa verdadeira riqueza. Aonde iríamos nós por testemunhas de defesa no Tribunal de Contas, se não fosse o Pobre — aonde? Contas da hora derradeira. Hora tremenda!»

Padre Quim