BEIRE - Flash's

O nascer e o morrer sempre me encantaram. Misteriosamente, é certo. Mas sempre vejo aí o fascínio do desconhecido. A chamar por mim. Para me ensinar a viver — porque sou nascido… Desafiar-me a aprender a envelhecer e morrer — porque todos nascemos para passar por essa 'porta estreita' que é a morte… Porta que dá para a vida eterna… E gosto de olhar a fé e a esperança como a força motriz na descoberta d'isto a que chamamos o Amor que Nutre. E se manifesta através do «Mistério Central da Vida» — 'experiência' a que Jesus chamou Abba — Pai/Mãe em Quem todos somos e vivemos…

Metido por aí, sempre vou parar ao mesmo — «onde haja caridade e amor, aí habita Deus». Palavras que me fascinam — Caridade e Amor (e Deus!). Recordo o primeiro latim aprendido, no canto gregoriano — ubi caritas et amor, Deus ibi est… Ai aquelas emoções de adolescente sonhador que ainda me dão tanta vida!…

1. «Olhem esta oliveira. Bonita como…». Ontem, no funeral (Festa da Exaltação!) de Pe. Telmo, fartei-me de ouvir de quem com ele conviveu: «Nunca mais o posso esquecer»… Recebi abraços — sentidos pêsames — como se também eu fosse dos seus filhos. Isso mexia cá por dentro. E, porque 'é feio um homem chorar', saía a dar uma volta para não fazer má figura… Hoje, aqui em Casa, tudo me fala dele. Em cada canto (inclusive este onde escrevo). Vejo, ouço, sonho esse 'patriarca' que, como o 'seu' Jesus, «passou fazendo o bem». E também Pe. Telmo «passou por aqui» — pelo Calvário. Como Jesus passou pela Galileia1. Deixando rastos de beleza, de bondade, de verdade. Isso a que os técnicos de Deus chamam a essÊNCia2 da Natureza Divina. E da Natureza Humana. Porque também d'Isso estamos feitos e a Isso somos chamados. Tornarmo-nos «imagem e semelhança de Deus»…

Sinto-me como as crianças que, recebido um brinquedo, ficam encantadas, mas logo o largam e esquecem. Só que… mal se dão conta de que o perderam, choram desalmadamente porque o querem… Com anuência de Pe. Júlio, coube-nos a nós 'recebê-lo' e 'fixá-lo' aqui no Calvário. E coube a ele 'prender-me' — para não me ir embora daqui. — Isto a dois, ia melhor!… Tornamo-nos «inseparáveis». No seu jeito de dizer — nós já somos inseparáveis!

Hoje, o tempo nunca mais passa… Como já ouvi por aí, o Calvário sem o Pe. Telmo, já não é mais o mesmo… Sei que são 'frases enfáticas'… Para traduzir o 'inefável' que todos experimentamos…

Entro pelo portão do Calvário. Mal transponho os umbrais, logo à minha direita, vejo uma oliveira — já moçoila, em primaveril pujança. Paro. Contemplo. Uma legenda, sacada do ferro, informa: «Olhem esta oliveira. Bonita como o sol (25.09.2019). Pe. Telmo. // Ele passou por aqui!».

Se passarmos a horas em que o sol declina para anunciar o fim da tarde, e, se corre uma brisazinha leve, as folhas verde-garrafa tremeluzem cintilantes… Também nós podemos ver essa beleza que tanto seduzia o nosso Pe. Telmo.

2. Rastos… com «fiozinhos de ouro». Num dos poemas que Pe. Telmo nos legou, aparece-nos este significativo verso: «Por cima das nuvens / mais escuras / há sempre uns / fiozinhos de ouro». Quantas vezes já me deliciei a saborear isso mesmo! O nascer ou o pôr do sol, em dias de borrasca, quase sempre nos brinda com esse bonito contraste — o escuro da borrasca e, a bordejar a nuvem, uns fiozinhos de cores celestiais… Basta deixar-se a ver — com os olhos de quem se dá tempo para comTEMPLar3…

Hoje, pego nestes versos para me consolar. Sentimos a dor da sua perda — nesta dimensão terrena. Mas… que consolação esta de, podermos dizer uns aos outros, que «era mesmo um companheiro, um amigo, um pai»; «um santo vivo!»; «cresci com ele. Foi o meu pai desde os 4 anos»; «somos sobrinhos!…»; «Fui com ele para África a levantar aquela Aldeia»… Salta-me aquele ditado a que sempre recorro nestas circunstâncias em que urge a consolação: «Quanto mais a noite é escura mais a luz sabe a ternura». Chamem-lhe 'luz da Fé' ou 'calor humano' que afaga os nossos corações. Sei é que, nestas alturas, aquelas palavras de S. Paulo têm um sabor muito especial: «A ternura é o amor de Deus derramado nos nossos corações»…

Pe. Telmo passou por aqui… Deixou-nos. Mas, no seu passar, deixou rastos. Há sempre uns fiozinhos de ouro a lembrar a beleza da sua passagem…

3. Pe. Telmo — o 'amigo de Jesus'… Já o disse aqui. Foi na edição de 19 do mês passado. No ponto 2: Ele quer saber: — E já é Jesus ?!… Repito-me: «Pe. Telmo bem pode chamar-se Telmo de Jesus, como aconteceu com Teresinha de Lisieux, de quem é grande devoto… Olhos de criança que sabe «ver». Coração que sabe «falar» com Jesus em todo o tempo e lugar… Vejo-o quando, a desoras, 'fugia do quarto' e, sozinho, vergado sobre a sua 'filomena'4, ia «fazer companhia a Jesus que está ali sozinho, há tanto tempo…».

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1. Referência a um livro de Guedes de Amorim, que tem este título — Jesus passou por aqui…

2. Só agora reparei que a palavra 'essência' é uma palavra 'composta' por duas palavras simples — 'esse' (ser) e 'ência'. De 'ENTE' (o SER que faz ser…).

3. Contemplar é entrar no 'santo dos santos' deste 'templo sagrado' que toda a vida é…

4. Bengala de apoio — 'amiga fiel'. Do grego filos e mena — a filomena…

Um admirador

[Escreve segundo o acordo ortográfico]