
BEIRE - Flash's
Olhar nos olhos 'aquela' REALIDADE...
Desde que comecei a enxergar o peso e as dimensões desta temática, o mundo da Ação Social mexe comigo. Foi na leitura d'O Gaiato que isso começou a acontecer. Era um jovem adolescente. Mas sentia já o problema na pele. Não intuía ainda que todos estamos imersos numa realidade que, de um momento para o outro, pode precisar de uma intervenção social. A intervenção de uma Ação Social de qualidade, seja na saúde seja no cuidar da d'ignidade do nosso Ser-Pessoa, seres-de-relação a pedir atenção e Respeito(1)… Hoje, entendo cada vez melhor que, nos inquéritos à população, o Melhor Benefício do 25 de Abril, 50 anos passados, continue a cair no SNS – para lá das limitações que ainda revela e urge colmatar…
1. Marginalizados pela própria "Lei"… No lidar com a problemática das relações das IPSS com a SS(2), e vice-versa, deparamos com situações que nos convidam a RE+fletir(3). Assim:
a) Um menino desamparado não pode ser entregue às Casas do Gaiato porque "há que abrir um pro+cesso e esperar pelo per+correr dos papéis" - com suas demarches sempre morosas… Legalmente, o nosso papel está reduzido ao de qualquer pessoa que disso tome conhecimento – sinalizar o caso ao Serviço Social. Isto é, dar conhecimento a um agente do Serviço Social Estatal para que "vá lá, para cuidar". E, depois, ficar quietinho, à espera que o tempo resolva/enterre o caso… Como se não se(4) pudesse fazer mais nada.
Entretanto… se o menino fica na rua, entregue a si mesmo, temos a porta aberta para toda uma escola do crime… Com as dolorosas e perigosas consequências que isso traz - para o próprio, para os seus grupos de pertença e para toda a sociedade em geral.
b) Um doente que, de repente, fica inválido, teve alta hospitalar e não tem para onde ir não pode ser entregue ao Calvário "porque há demarches a cumprir e papéis a preencher".
Mas… se o doente fica sem os cuidados devidos, pior ainda, vai finar-se… Quando chega "o papel da chamada", já ele se foi – sabe Deus como.
Tudo muito compreensível. A Lei é necessária - até Moisés, já n'aquele tempo, se deu conta disso... Porque, no caos, ninguém se entende. E os oportunistas (das IPSS e/ou da SS) estão sempre à espreita de uma brecha nas muralhas…
Mas… onde está a "Lei" que, nesta matéria, protege uma Necessidade Urgente, sem mais delongas?!
De consciência tranquila, deixamos que tais casos morram nas Urgências de um qualquer Hospital e/ou nas infindáveis listas de espera dos Serviços Sociais. Ditos competentes porque 'legalizados'… E lembro aquela de Hugh Prather a que tantas vezes aludo: «Gente desonesta acredita mais em palavras do que na realidade»…
Sei que, hoje, os serviços de Cuidados Continuados de alguns hospitais já vão dando, a título provisório, as respostas que podem dar. Mas os casos vão-se acumulando. E já são tantos e tais que assustam e nos roubam toda a esperança de que…
2. Leis em prejuízo de ambas as partes… Fico-me a ruminar o velho problema das relações entre a 'Lei' e os 'Profetas'… Sem uma Regra de Ouro que, na prática, concilie / resuma «toda a Lei' e os Profetas» (Mt 7,12). As Estruturas Sociais são necessárias. Mas a dinâmica da Realidade Social não se compadece com esperas na urgência… Por isso, Moisés (nosso 1.º 'Legislador') foi também nosso Grande 'Profeta'…
Vejo que o problema continua em aberto. Sem «profetas» que alertem para a realidade, tudo continua na mesma. À espera de olhos que saibam «ver nos olhos» o que todos sabemos que está a passar-se…
Parece que de nada valeu o alerta d'O Nazareno – "Se o teu filho, boi ou burro cair ao poço em dias de sábado, tu não vais esperar que…" (Lc 14, 1-6). Saltas a «lei» para resolveres o teu problema. Mas… passas por cima se o problema é dos outros…
Continuamos a esquecer que "a Lei - necessária, sem dúvida - é para os homens. Os homens não são para a Lei…" (Mc 2,27). A "Lei" de Deus, impressa na "Lei" da Natureza, não pode deixar os homens a morrer embrulhadinhos numa Lei e/ou numas Escrituras que, por hipocrisia de um legalismo cego, escondam a realidade em que todos estamos imersos…
Precisamos aprender a "ver nos olhos" a realidade em questão. Como diria o grande Bispo Ferreira Gomes, que tanto apoiou o nascer e o crescer da Obra da Rua, no Porto: "Há que saber ler o jornal à luz do Evangelho e saber ler o Evangelho à luz do jornal"…
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1. RE+speito = Ciência, Técnica e Arte de 'olhar nos olhos' (latim respicere, ver bem no espelho)…
2. IPSS – Instituição Particular de Solidariedade Social; SS – Segurança Social, no balcão mais próximo da residência.
3. Se olho nos olhos a palavra refletir, vejo que ela esconde um convite a debruçar-me / pôr de joelhos (fletir!) sobre uma determinada REalidade que precisa de ser tratada com toda a d'IGNIdade que ela merece… Aqui, temos crianças e jovens adolescentes – em fase de DESenvolvimento, dependentes da orientação que este desenvolvimento possa tomar… No caso de doentes e/ou idosos já incapacitados, o adiar é antecipar o triste desfecho…
4. Este se!… Não é um simples "agente apassivante"… Tem de ser o aguilhão que me deixa inquieto enquanto não vejo o caso tratado.
Um admirador
[Escreve segundo o acordo ortográfico]