BEIRE - Flash's
Antes que se me escapem...
Acho que 'isto' não é só «para quem sabe ver». Porque, nesta matéria, ninguém sabe «ver mesmo»… Aqui não há «saber/saber nem saber/fazer»… Há só «aprendizes de saber/ser-saber/estar…». Quando me dou conta de 'coisas' desta natureza, geralmente, sinto uma espécie de 'vergonha' de mim próprio: — Puxa, como é que eu ainda não tinha visto o encanto d'isto?!... Porque isto eu já vi muitas vezes. Não lhe vi foi o encanto. Não o vi com os meus 'olhos novos' — isso que, em mim, é «isso» que me estonteia e me deixa maravilhado com a vida. Essa que pulsa em mim e à minha volta — antes de mim, commigo e depois de mim…
Lembro uma página de alguém que escreveu sobre este 'fenómeno humano'. Vislumbres que todos nós experimentamos (por isso é que é um 'fenómeno humano'…). Mas nem todos param o suficiente para que possa acontecer com maior visibilidade… Há que parar. Deixar-se senti-lo. Deixar-se a auscultar essa sua voz eloquente que só pode ouvir-se no silêncio interior — de que, habitualmente, tanto fugimos…
1. — Porque'a limpeza Deus a amou'... Ela precisa de sentir "proximidade". Como toda a gente ainda com alguma saúde psíquica... A fome de comtacto é uma necessidade básica. Numa média de três horas dia — sob pena de desequilíbrio emocional e por aí fora… Precisa. Mas, porque o seu leque de conversas/relação é muito reduzido, facilmente descamba. Tanto aparece uma mulher de trato afável como lhe salta a tampa e aparece a mulher do Bolhão… — como antes se dizia no Porto.
Sabiamente, procura a presença física de alguém sozinho. Sorri, diz qualquer coisa 'society' e toca de relatar os feitos do seu dia… Todos conhecemos este triste "fenómeno (des)humano"... Que, na minha ótica, fala da nossa necessidade básica de, quanto antes, nos tornarmos pessoas de comvivência. Seres-de-relação-saudável…
Ontem, ao ir para o seu quarto, quando já todo o mundo dormia, viu a luz acesa do bar(meu-escritório…). E zás… Foi até lá meter conversa… Para 'conversar de nada'... Uma arte que, nesta casa, me faz muita falta. Porque me sinto péssimo a conversar de nada. Sofro de um acentuado défice de society… Coisas que compenso com um acentuado superavit de monaquismo — para ouvir o silêncio, que tanto me encanta…
Entra, sorri, abre o livro e toca de virar páginas… Aproveito para treinar a arte de saber ouvir, e limito-me aos consabidos ah, pois, é isso, os meus parabéns, sim senhor, muito obrigado, etc. e tal.
– Levanto sempre cedo e a primeira coisa é levar o lixo da noite. Todos os dias é umas carradas para o contentor. Depois vou aos meus cães — dar de comer, aguinha fresca e limpar o chão… Passo pelos pavões. Estão mesmo ali à beira. É o mesmo — mudar a água, encher a comida, limpar o chão. A seguir, vou aos passarinhos. Não paro. Mas gosto de ver tudo limpo… Foi assim que minha mãe me ensinou…
Em cada capítulo, mete sempre um refrão que ainda adoro. Lá em casa, volta e meia, a minha mãe atirava com ele, na mira de nos educar: — Porque, a limpeza Deus a amou!...
Despede-se. Eu fico com minha mãe… A ruminar as pérolas que, mesmo em famílias destroçadas, algumas mães ainda cultivam. Pérolas que o Calvário acaba por recolher e polir…
2. Ele quer saber: — E já é Jesus ?!... Sacerdote bem sintonizado com o Calvário, grande colaborador e muito amigo de P.e Baptista, o P.e Crespo veio substituir P.e Alfredo. É domingo de grandes apertos nas paróquias vizinhas. Os nossos seminaristas também estão fora. Entro eu de serviço — para recordar meus tempos de menino e moço… P.e Telmo levantou-se, pequen'almoçou no quarto, arranjaram-no para ir à Santa Missa. É assim que ele gosta de dizer — a Santa Missa! Mas, depois, enquanto fazia horas, meteu-se de novo na cama e voltou a adormecer. P.e Crespo achou por bem deixá-lo dormir e seguimos com a Eucaristia, na hora estabelecida. No momento da Comunhão, decidiu que no fim vamos lá os dois… Ainda paramentado, despedida a assembleia, P.e Crespo e eu, com a Eucaristia nas duas espécies, subimos ao quarto de P.e Telmo. Dormia ainda. — Vamos embora?!... Dado o à-vontade que tenho com P.e Telmo, fiz-lhe uma festinha e ele logo despertou… Brinquei com ele. P.e Crespo, paramentado, espera e sorri-lhe, mostrando o Cálice e a Píxide com partes da Hóstia Grande (do Sacerdote) e muitas Hóstias Pequenas (da Assembleia). — Tire uma, à escolha!... Olha e, como que ainda a acordar, brincando entre o sagrado e o profano, pergunta: — Mas… já é Jesus?!... Ao sim autorizado de P.e Crespo, todo se recolhe. Comunga o Corpo de Jesus. Pega no cálice, olha com reverência e pergunta: — É para consumir tudo?!...
Sem os rituais de circunstância, P.e Crespo despede-se. Em linguagem de família. Para o deixar a sós com o seu Jesus… Descemos em silêncio. De mim para mim, vou ruminando os 'mistérios da nossa Fé'… P.e Telmo bem pode chamar-se Telmo de Jesus, como aconteceu com Teresinha de Lisieux, de quem é grande devoto… Olhos de criança que sabe «ver», sabe «falar» com Jesus em todo o tempo e lugar… Vejo-o quando, a desoras, 'fugia do quarto' e, sozinho, vergado sobre a sua 'filomena'1, ia «fazer companhia a Jesus, que está ali sozinho, há tanto tempo. Porque nos ama. Jesus ama-nos muito, é verdade!»…
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1. Bengala de apoio — 'amiga fiel'. Do grego filos e mena — a filomena…
Um admirador
[Escreve segundo o acordo ortográfico]
