BEIRE - Flash's

Calvário, ouvir a Vida a falar...

Gosto de acordar a aurora. Se o tempo assim o pede, ao acordar, mal me despacho, saio e passo pela 'minha' jovem araucária. Pego na mangueira e, enquanto ela faz o seu trabalho de rega, ali fico eu a comtemplar a vida que flui. A araucária que vi ainda em semente (in virtu…), agora já a vejo, acelerada, em vias de desenvolvimento (in fieri…). E, fico-me a sonhar como virá a ser o seu clímax, o seu ponto de plenitude (in facto esse…). Sem esquecer que também ela é «ela e a sua circunstância». Fico-me parado no coração do mistério da vida! Essa 'coisa' (mistério) a que os gregos parece que também chamavam 'sacramento'… Isto é, uma coisa visível a querer falar-nos de outras 'coisas' invisíveis. Mas que lhe estão associadas e que também integram a nossa vida, no seu rumo em busca da plenitude humana…

Recordo a Casa Oficina de António Carneiro cuja parede exterior destaca, em letras de ferro forjado, um verso/prosa de um poeta alemão. É um verso que encerra uma história tal que o fez perder o alemão e virou assim: "Jeune est celui qui s'étonne et s'émerveille…". Encanta-me esta ideia! E esta prática – porque as 'ideias' também se exercitam… Samuel Ullman (seu autor) defende que «a juventude não é um período cronológico da vida, mas sim um estado de espírito marcado pela capacidade de manter a curiosidade e o deslumbre». E a ideia que corre por aí: «A juventude não é um período de vida, mas sim um estado de espírito baseado na coragem, na imaginação e no desejo de aventura». Por isso é que eu não posso mesmo perder pitada da vida que me é dado viver. E senti-o ali diante da araucária…

1. Para lá da araucária que cresce… Enquanto a água corre para o pé da árvore, deixo-me a contemplar a frescura, o viço e o acelerado dela… 'Ouço' as falas da Vida, nas suas diferentes dimensões – zoé, biós, psique e… 'vida espiritual' (ao menos na melhor versão dos crentes)… Acordado por esta 'ideia', sinto-me invadido pelo meu velho propósito de cultivar em mim essa «capacidade de manter a curiosidade e o deslumbre». Gosto muito da Ciência, mas ali tomo consciência atual do empobrecimento que é deixar-se 'encarcerar' no plano meramente científico… Ouço a conversa entre o grande cientista Henri Fabre e um jovem 'cientista' deslumbrado com o pouco que já sabe… Estamos, em 1910, numa homenagem que a França, nos 87 anos dele, prestou ao seu grande naturalista, escritor e entomologista. Um poeta dos insetos! A quem Darwin chamou o «observador incomparável». No decorrer da festa um jovem aproxima-se, ganha confiança e dispara: – Ó Henri, v. acredita mesmo que Deus existe?!… Gargalhada e resposta rápida: – Eu?!… Não. Eu vejo-O em todas as coisas!

Sou um sortudo. Acho que aprendi a vê-lO assim, ainda no seio de minha mãe… Por isso é que, ali parado, deixo a araucária e passo a comtempla-lO por aí fora… Nas formiguinhas que se arrastam em imparável azáfama de recolher e guardar para, no inverno, vir a ter… Que sabedoria naquela vida em miniatura! Vejo-O nas cores – as mais variadas – das árvores, arbustos, flores e milhentas ervinhas que me rodeiam a espirrar Bondade, Beleza e Verdade! Olho para isto como a essência de Deus! E do Homem – porque d'Ele é imagem e semelhança.

Sinto toda esta bênção a derramar-se sobre o Calvário – que quer continuar a ser «uma palavra tirada do Evangelho». Voo a ouvi-lO na fala dos pássaros que, àquela hora, orquestram para mim as mais belas melodias. Vindas de coros de anjos que assistem o Senhor Jesus, no mais alto dos Céus…

2. 'Ver' é mais que 'acreditar'… Volto ao 'acreditar' do jovem 'cientista' e ao 'ver' do arrojado octogenário – já 'mais-que-cientista'… Gostaria de poder 'ver' a paralinguagem(1) dos dois atores… Em termos de comunicação, parece que falam duas linguagens distintas. Coisas que a paralinguagem sempre ajuda a perceber… O jovem cientista, fala da cabeça, ofuscado pelo seu precário mundo do conhecimento cientifico; o velho cientista, fala já iluminado pela sabedoria da vida – que sempre tem cabeça e coração…

De novo desço ao Calvário – e à Obra de Rua, onde o Calvário é. A linguagem «tirada do Evangelho» e a linguagem «tirada do Serviço Social». Teoricamente, diz-se(2) que buscam o mesmo Bem Comum – promover a d'ignidade humana. Mas a falta de treino num diálogo[s] capaz, a complexidade da matéria prima (comum ao Estado e ao Evangelho), a precária coragem para perfurar a realidade social, a pouca humildade para reconhecer a necessidade de dar as mãos ('dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus'), e o reduzido exercício da inteligência para buscar a luz lá por onde ela anda…

Consciente da unidade que atravessa esta multiplicidade de perceções da realidade, sonho como Pai Américo gostava de sonhar: Que acabem as Casa do Gaiato porque o Estado e as Iniciativas Particulares já se entenderam. E aprenderam a dar as mãos. Em perfeita sinodalidade

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1.
A paralinguagem encanta-me. Sei dos riscos de a descodificar. Mas sei também que ela fala bem mais verdade do que a linguagem oral e/ou corporal…

2.
Quem é o se que diz semelhant'isso?!… Porque, de um e de outro lado, há corações honestos a buscar o mesmo Bem Comum…

Um admirador

[Escreve segundo o acordo ortográfico]