BEIRE - Flash's

No Calvário, «um pôr do sol feliz»...

Remonto aos anos em que andava de instituição em instituição a 'pregar aos peixes'… As 'relações humanas' era o tema base do meu trabalho. Mas a 'novidade' não era o tema — era a metodologia(1). Uma proposta para, após esses encontros, cada um, a sós consigo mesmo, confrontar-se com a sua experiência já vivenciada… A tónica dessa minha 'especialidade' era, essencialmente, mostrar o peso, a delicadeza e a importância das 'relações humanas'. Que sempre levam a um 'porto' de «mais vida e vida em abundância». Ou a um 'porto' em que só há desgaste e chatice de viver com tal gente… Gente de que, tantas vezes, também fazemos parte importante. Mesmo sem d'isso termos consciência … Uma verdadeira 'ralação' desumanizante…

Centro-me na importância do tema. Numa fase da vida em que começamos a acordar para a realidade de que a vida já nos foge — queiramos ou não…

Com frequência, encontrava uma «oração do envelhecer» — que acabei por assimilar e, agora, é a minha oração preferida. Para ir aprendendo a envelhecer e morrer — coisas a que já não escapo… Lá diz o ditado, quem não morre novo, de velho não escapa

1. A vida AINDA tem «coisas boas» … Logo no princípio da tal 'oração', aparece-nos isto: Senhor, ajuda-me a reconhecer as coisas boas da minha vida. Como já aqui tenho referido, não gosto da forma 'pedinchar' numa «oração / conversa-com-Deus»… A minha Fé diz-me que o «Deus revelado em Jesus de Nazaré» não quer de nós outra coisa senão que O deixemos ajudar-nos a ver o maravilhoso Dom da Vida. Essa que nos põe a bulir assim e faz com que tudo à nossa volta toca a mexer… Esse meu Deus precisa é que nós Lhe demos condições para que Ele possa ajudar cada um na sua circunstância específica. Usando uma velha linguagem campesina, Ele não alimenta burros à corda — que só comem e não trabalham…

Pego na oração original e vou-lhe dando a forma que, pontualmente, me ocorre: «Minha mão na Tua mão, Senhor da Vida e da Morte, eu quero reconhecer, aceitar, cultivar e saborear as 'coisas boas' que a vida, mesmo nesta idade, ainda me oferece a toda a hora e momento. Porque acredito que Tu, Senhor, queres que a minha vida seja mesmo uma festa. Até na hora derradeira». Gosto da fórmula da antiga 'missa dos defuntos' — vita mutatur, non tollitur. Isto é, para os que acreditam e amam a vida, ela não lhes é tirada, mas apenas mudada… Desde o acordar entre dois lençóis macios até ao adormecer ruminando a 'oração do abandono', gosto de não perder pitada desta experiência de «estar vivo»! E com a esperança(2) de continuar 'vivo' pelos séculos sem fim…

2. Aprendiz na arte de nos dizermos Cedo aprendi que «o homem não nasce homem. É a socialização que torna o homem homem»… E aprendi que a esse processo de socialização se dava o nome de processo de hominização… Ainda continuo nessa. A lembrar que a minha paixão pela Obra da Rua me vem daí — não deixar que ninguém morra enterrado nas valetas do abandono, por falta de alguém que bote a mão. Todos nascemos para nos tornamos adultos — humanos em plenitude

Graças a isto, gosto sobretudo de pensar nesse curioso fenómeno humano que dá pelo nome de ouvir o silêncio, ouvir essa delicada 'voz interior', que sempre chama cada um a ir mais além. Ouvir essa fome, essa aspiração mais profunda de todo o ser humano — ser mais e mais feliz… Chamem-lhe o que quiserem. Fome de Deus, fome de transcendência, fome de 'reciprocidade' numa relação sacramental de comunhão amorosa, que sei eu?! Para mim, o sedutor é reconhecer, aceitar, questionar e analisar a 'realidade' que se esconde nesse delicado 'fenómeno humano'… E debruçar-me sobre ele. Na descoberta de uma resposta que me satisfaça — como indivíduo e como pertença de um coletivo. A que chamamos 'comunidade de pertença'. A que chamamos humanidade… Tudo 'coisas' que Jesus traduziu num «vim para que tenham[os] mais vida e vida em abundância» (Jo 10,10).

Olho o Calvário. Olho as mudanças sociais que se entrelaçam e pedem acertos constantes Nos conceitos de família, de ajuda, de ação social e até de 'hominizar' / para melhor nos humanizarmos. Pelo método de nos dizermos e nos darmos as mãos uns aos outros…

3. Os últimos anos da vida mortal… De tantas vezes o ouvir, até já me ficou o jeito — gostava de morrer aqui, neste Lar, enquanto Fulan@ é @ Diretor@. Sei que Pe. Baptista também o ouviu muitas vezes — Gostava de morrer aqui no Calvário, com o sr. Pe. Baptista

Verdade que gosto de pensar a morte… Mas, hoje, é 'outra coisa' que me seduz. Na tal 'oração', fala-se: «Que os últimos anos da minha vida mortal sejam como um pôr de sol feliz: na oração e na caridade, na compreensão e na esperança».

A sós comigo, passeio pelo Calvário — instalações, mata ou quinta. — Para 'ouvir' as minhas vozes preferidas — as vozes do 'meu interior'. Em diálogo com o mundo exterior que aqui se nos revela. Sempre descubro revelações que a «Vida em Abundância» traz àqueles que se deixam 'parar' para ouvi-la. — Um pôr do sol feliz que o Calvário oferece «na oração e na esperança» desse dia que não tem acaso

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1. Escreveu Pai Américo — «O método aponta para algo que ele mesmo não contém, porque o ultrapassa»…

2. Esperança é 'a posse atual de um bem futuro'

Um admirador

[Escreve segundo o acordo ortográfico]