BEIRE - Flash's

Alguém que tenha pele...

Aquela história enterneceu-me. Muitas vezes a contei para grupos que dinamizava. E, na sequência, muitas vezes ouvi outras histórias de quem me dizia: — Gostei tanto daquela história!… Porque, muitas vezes, ainda sinto o mesmo que aquela menina de seis aninhos… Até que um dia se me fez luz — a história enterneceu-me porque também é a minha história… E mais ainda: hoje, sobretudo aqui no Calvário, sei que também sou chamado a cuidar dessas feridas de não existência(1) que, em vidas como a minha, andam por aí com histórias que fazem doer …

1. Aprender a cuidar, cuidando(-se)Aí vai a história que, já lá vão muitos anos, li algures. Era um casal com uma filha de seis anitos. O pai, Pastor Protestante, de fé bem arreigada. Uma noite de tempestade cai sobre o casario da aldeia. Trovoada de assustar o mais pintado. A chuva a bater nas vidraças. Trovões e relâmpagos que faziam a terra tremer… A menina acordou assustada. Levanta-se e corre para o quarto dos pais. Já a correr ao seu encontro, o pai pega nela ao colo e murmura-lhe palavras da sua fé: — Vamos ter confiança, Joaninha. Deus é Pai. Precisamos de confiar n'Ele. Tudo vai já passar e nós estamos bem.

Resposta inesperada: — … Mas eu preciso de alguém que tenha pele!… Os anos passam. Apaixonado por aquilo que hoje já sei dizer melhor, esta história sempre bailava dentro de mim e, a propósito de tudo e de nada, lá saía para o público a quem me dirigia. Porque todos somos seres-de-contacto… E isso marca a nossa corporeidade (física, psíquica e espiritual) que sempre pede comun(i)hão.

Depois, veio a necessidade de aprender a transmitir estas descobertas. E logo se me alargam os meus campos de consciência sobre esse fenómeno humano — que tanto me seduz e tão difícil se me torna explicá-lo bem. Histórias de amor e de dor — o fenómeno humano mais complexo e que não pode ser ensinado. Mas que pode aprender-se. E, pobre de quem passa pela vida sem a doce experiência da festa de saber-se amado e de ter muito a quem amar muito.

A menina tinha seis aninhos. Nela, ainda era natural aquilo que tão bem soube expressar. Pede um colinho que lhe dê confiança para vencer o medo. Mas… não há vidas sem histórias — umas bonitas, outras assim-assim e ainda outras muito dolorosas. Os anos passam por todos. Com eles, todos crescemos. Com eles, nos tornamos adultos. E, sem darmos conta, já envelhessomos… Se tivemos a sorte de que, cada um na sua circunstância(2), tudo correu como Deus manda, as coisas estão no seu lugar — é a lei da vida

2. Adultos por fora, «meninos» por dentro… O pior é quando, 'por mal de nossos pecados', as coisas não correm bem. A criança que tanto precisa de alguém que tenha pele não encontra esse alguém. Depois… valham-nos as Casas do Gaiato, os asilos, os orfanatos, as famílias de adoção… E, na mesma linha, os Calvários, Lares, ERPI's e tanta coisa mais…. Tudo a tentar o impossível — sarar essas feridas de não existência. Não existência das respostas que urgia serem dadas a tempo e horas e não foram. Mas deixaram rastos — nas cicatrizes da vida. Precisámos é de aprender a com+viver saudavelmente com elas…

Com o tempo, estudo e trabalho interior, começo a perceber o porquê. Sei que o Calvário é a minha paixão. Digo-o muitas vezes. Sinto-o sempre. A nível consciente e/ou inconsciente. Por isso me seduz tanto o 'programa' que me proponho: a) compreender o meu cérebro; b) gerir as minhas emoções; c) melhorar a minha vida. E, já por um saber de experiências feito, hoje sei que isso me ajuda a compreender melhor os outros e a não entrar em seus disparos emocionais. Sei que isso me ajuda a acreditar na força da nossa própria história — que sempre nos faz tão diferentes… Até mesmo quando as limitações são muito antigas e, com o tempo, cada vez mais acentuadas.

Sabemos ainda que cada um de nós é comandado pelas leis naturais, nas suas circunstâncias. Mas podemos descobrir que, se nos deixarmos abrir a ela, também somos todos impelidos por uma força outra — que brota da alma de cada um e que «é sempre perfeita». Os crentes chamam-lhe 'Espírito Santo'… Não importa o nome. Importa é o trabalho que se faz sobre essa nossa Criança Interior — tão propalada, tão pouco conhecida e, ainda tão pouco analisada… No seu ser Criança Original e no seu ser Criança Ferida… Porque, numa e n'outra, a lei natural sempre chama a uma lei outra — que nos transcende, mas nunca nos abandona…

3. Não há doenças — há doentes… Gosto de me repetir aquela do médico catalão, que Abel Salazar quase tornou nossa: «Médico que só sabe de medicina nem de medicina sabe»… Que o mesmo é dizer: Médico, Psiquiatra, Psicólogo ou Assistente Social que só sabe d'aquilo nem d'aquilo sabe… Porque somos muito mais do que a ciência enxerga. «Cada ser humano é sempre mais que humano» — repete-se na encíclica do Papa Leão — Magnífica Humanidade

«É o coração que mata a gente», dizia Pai Américo. Mas… também é o coração que ensina a gente… Quem sabe de ciência sem saber amar as pessoas nem sequer ciência sabe…

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1. Gosto deste nome que dá PRH. Uma 'ferida de não existência' é uma marca (trauma!) que acusa a falta de resposta a uma necessidade básica da nossa corporeidade — física, psíquica e espiritual…

2. Referência a Ortega y Gasset — Yo soy yo y mia circunstancia

Um admirador

[Escreve segundo o acordo ortográfico]