
BEIRE - Flash's
A "ternura de Deus" no Calvário...
Sei que nada d'isto(1) é para nós, pobres mortais, entendermos de todo. Nem é preciso. Basta-nos poder ruminar e saborear o que, pouco a pouco, se pode ir entendendo… E, se formos fiéis aos 'treinos' de cada dia, sempre poderemos crescer nesta sublime Ciência, Técnica e Arte (CTA) de «Aprender a Amar e deixar-se Amar». Isto nos basta. E nos mantém vivos. Alegremente ocupados. Durante uma vida inteira – por mais longa que ela possa vir a ser…
Encanta-me a 'revelação' que nos faz S. Paulo. Sobre as suas experiências vivenciadas da ação d'isso a que a nossa Fé (a dele e a nossa!) chama de 'Espírito Santo'. Que atuou nele de um modo tal que o transformou. De apaixonado perseguidor dos 'cristãos' num ainda mais apaixonado defensor dos ´cristãos'. Uma transformação que, segundo ele mesmo no-lo confessa (Fl 1, 21), mudou toda a sua vida. E já não mais aceita outras razões de viver senão a de testemunhar a festa interior que uma tal descoberta lhe proporciona: «Para mim, viver é Cristo e a morte até já é lucro. Um lucro tal que nem sei se me hei de deixar morrer (para receber esse prémio) se lutar pela vida para poder testemunhar-vos uma tal experiência interior – que já não posso mais calar»…
1. «Amor derramado em nossos corações»… Cresci à sombra de uma paixão que já bebi no leite materno. Sei que nem sempre essa doce paixão foi bem orientada. Hoje, vejo que havia ali o 'sonho' de uma vida dedicada ao trabalho de 'ajudar a vida a desabrochar-se'. Lá onde ela, por força das circunstâncias, estivesse a ser 'amarfanhada'… Ao descobrir a Obra da Rua (onde o Calvário é seu canto de cisne), sonho passar-me para aqui. Sem me aperceber de que, também eu, como todo a gente, «sou eu e as minhas circunstâncias». Coisa que Pe. Horácio traduziu tão bem naquele seu jeito de dizer que o rapaz quer voar, mas não tem asas…
Olho o Calvário que já tivemos. Olho o Calvário que hoje temos. E olho o sonho de novos 'Calvários' que Pai Américo perspetivou para um futuro onde o Reino de Deus se possa 'instaurar'. «Existe ainda outra modalidade de assistência que o 'Calvário' deseja e se propõe servir. São os convalescentes…». Ai a alegria que senti quando, há bem pouco, a Preciosa (a Senhora da Casa, de Paço de Sousa), na sequência de uma delicada cirurgia, veio para o Calvário a restabelecer-se… Até poder retomar o timão da barca que ali lhe compete. Recordo: «Cada comunidade cuide dos seus pobres, dos seus doentes»… E, na perspetiva de «outras modalidades» e de «mais Calvários», sempre lia com alvoroço as crónicas de Pe. Manuel António. Sonhava para Benguela um Calvário que pudesse responder a problemas que ali mexiam com ele…
E todo eu me sinto embandeirar em arco só de pensar que Pe. Rafael, lá na comunidade de Malanje, onde a Casa do Gaiato é, já está a sonhar… E a trabalhar a sério, com passos firmes, para ali erguer um Calvário. Algo que possa devolver a dignidade àqueles a quem ela está a ser roubada. Não terá de ser 'cópia' de nada de 'antes' ou de 'agora'. «O 'Calvário'! Um nome tirado do Evangelho». O resto virá por acréscimo.
Pe. Rafael esbarra com esses casos. Ouve esses gritos como 'voz de Deus' a chamar mais operários para esta 'messe'. Que, não sendo das Casas do Gaiato, é da Obra da Rua. A pedir «mais Calvários», que «são o sítio onde os homens podem amar o seu semelhante como a si mesmos»…
2. A ternura de Deus pelos mais débeis… Tocado por dentro, 'impelido pelo Espírito', Pe. Rafael não espera que o milagre caia do céu… Consciente de que é urgente tomar vez e dar voz a esses irmãos sem voz nem vez, partilha-se nas páginas d'O Gaiato. Sucede algo do que sucedeu com Pai Américo, com Pe. Baptista, com e com e com - «quando o homem sonha aquilo que Deus quer, a obra nasce». Acredito em cada um dos nossos leitores – não vamos deixar Pe. Rafael sonhar em vão. De mãos dadas com ele, vamos todos levantar O Calvário de Malanje. Calvário é um nome tirado do Evangelho - fonte da Esperança que a Fé nos alimenta. «Que ao menos possam morrer com dignidade aqueles a quem, em vida, ela lhes foi negada»…
3. Onde há trevas, há que levar a luz… Ruminando estas experiências que O Gaiato sempre relata, pego nas palavras que o próprio S. Paulo usa para nos falar do «Espírito Santo». Deixo-me ficar caladinho, fecho os olhos e espero que a coisa possa 'calar fundo' dentro de mim. Para melhor 'saborear' isso que ele nos quer revelar(2): «Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom 5, 2-5). Recordo 'ensinamentos´ que fui assimilando: «O Espírito Santo é a fonte inesgotável de tudo o que existe». Coisa que me habituei a ler assim: «Tudo d'Ele provém. D'Ele e n'Ele tudo ex[s]iste!». Isto é, como refere o Salmista, «se Ele retirasse a Sua mão, tudo voltaria ao nada de onde tudo provém (Sl 104, 29)...
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1. Gosto do pronome indefinido Isto, Isso e Aquilo para tentar traduzir, em linguagem 'humana', aquilo que, em linguagem 'divina', só dá acesso aos 'crentes' – com todos os riscos da indefinição dos terrenos resvaladiços que separam a crença vitalizante e a crendice castradora…
2. Revelar = acender mais uma luzinha dentro de nós para podermos 'enxergar' um chisquinho mais além da nossa miopia mental…
Um admirador
[Escreve segundo o acordo ortográfico]