BEIRE - Flash's

"Milhares de jovens com deficiência..."

Não sou muito dado a vasculhar jornais, mas sempre abro — se algo me chama a atenção… O Jornal de Notícias de Domingo, 15.02.25, logo na primeira página, em letras garrafais, traz este alerta: «Milhares de jovens com deficiência sem lugar nos centros de apoio». E o lead do artigo esclarece: «Há pais que optam por vagas em Lares de Idosos e outros que deixam de trabalhar». E acrescenta ainda: «Governo diz que tem 85 projetos em obra».

1. Não podemos não falar... Ocupado nos meus «mundos outros» (porque este não me basta…), às vezes, sinto-me a 'pecar por omissão'… E, quando caio na conta do meu 'pecado', sinto-me mal. Porque sei que «a omissão é o ato destrutivo mais poderoso»… Ao ler o artigo de que falo, sinto-me no direito / dever de me indignar e de partilhar com os nossos leitores esta minha indignação. Porque, penso que também esta omissão seria mais um 'pecado'… Mais um ato destrutivo, nesta delicada e inesgotável matéria da Ação Social a que nos devotamos.

O tema das 'pessoas com deficiência', porque implica a 'pessoa' e implica a 'ajuda' a prestar-lhes, é um tema cujo conceito merece e precisa bem ser revisitado periodicamente. Para que não cristalize num já ultrapassado préconceito ou, pior ainda, vire um preconceito tal de que já não se sai mais — só porque sempre se fez assim… Assusta-me pensar nos erros que já cometi e vi cometer nesta matéria das 'deficiências'. Porque, as 'pessoas com deficiência' também são «verdadeiramente humanas» e a ajuda que precisam implica avaliações quase de caso a caso. Mas, lá porque «precisam de muito amor», não podemos esquecer que, na maioria dos casos, o amor debilitado (coitadinhos, são uns amores!...), usado em vez do «amor firme», só estraga. Deficientiza mais e mais…

E, tratando-se de crianças e/ou jovens, o problema assume sempre novas dimensões. Porque também aqui entra aquele princípio a que bem cedo me habituei:

A melhor ajuda que se pode dar a uma criança (mesmo com deficiências!), para que possa aprender a protoganizar o seu próprio desenvolvimento, é não fazer por ela aquilo que ela já pode fazer… E nada de buenistas, sempre com a desculpa esfarrapada do velho «são doentes e os doentes são assim — temos de os aceitar como são»…

Mesmo nas 'pessoas com deficiência' não podemos esquecer aquele velho princípio da educação: «A quem nasceu para voar alto como as águias não se lhe perdoa que passe a vida a rastejar como ave de capoeira». Coisa que, traduzida na linguagem dos talentos (Mt 25, 14-30)…), reza assim: A quem recebeu 10 não se lhe perdoa que atue como quem só recebeu 5; e quem recebeu 5 não se lhe perdoa que atue como se tivesse recebido só 1 e, por isso, os vá 'enterrar'…

O grande problema desta matéria inadiável é a sua urgência — que não se compadece com as demoras intermináveis dos «85 projetos em obra». As crianças com deficiência depressa viram adolescentes e jovens. E nesses «de repentes», se não forem assistidos a tempo e horas, a vida já não volta para trás. Sempre segue o seu curso. De 'circuito positivo' — se a ajuda chegou a tempo e horas; de 'circuito negativo' — se a ajuda não passou das boas intenções de gabinete, com os melhores «85 projetos em obra»…

2. A lição do Gaiato de Beire... A Casa do Gaiato de Beire (para rapazes com deficiência), tanto quanto sei dizê-lo, foi nascendo desta tomada de consciência dos Padres da Rua: há rapazes que são acolhidos nas nossas Casas para os ajudar a descobrir a "palavra nova, única e irrepetível" que cada um traz dentro de si. Mas, por deficiências que depois se revelam, não conseguem aquele mínimo de autonomia que precisam ter para voar sozinhos… Pai Américo não terá sentido essa necessidade — que hoje, no dizer do JN, é cada vez mais premente. Pe. Baptista, na sua especial vocação para descobrir o rosto de Deus neste casos, é que foi dando corpo à resposta exigida por gente assim. E que precisa de gente especial para cuidar dela — sem estragar mais…

Penso que não saber acolher e gerir a iniciativa privada (IPSS) pode significar desperdício de oportunidades de «salvação» para estes casos. Porque o 'internar' em Lares de Idosos e/ou ficar «ao deus-dará», entregues a si mesmas, pode vir a confirmar que, realmente, «o ótimo é inimigo do bom»… Pior ainda, pode confirmar que «a corrupção do ótimo sempre dá o péssimo»… Até com as flores é assim: as mais cheirosas, quando apodrecem… que Deus me livre!...

3. Há alertas que são proféticos... Beire lançou na vida alguns casos menos acentuados. Famílias se formaram e deram conta do recado. Gostava que este alerta do JN fosse o «aviso» de que é preciso salvar a honra do convento… Seguir o exemplo de S. Pedro, frente à urgência de anunciar a Boa Nova. Diante do Sinédrio, bem de pé, afirmou: — Nós não podemos não falar. Isto tem de ser anunciado (denunciado!)… A Obra da Rua nasceu de homens que sonham a obra que Deus quer — porque os homens precisam dela...

Sei que há «Leis» e que, por causa das nossas deficiências, «as Leis são necessárias». São vontade de Deus… Pois. Mas também sei que há «profetas» e que estes, quando não são «falsos», falam a voz de Deus a tentar pôr as coisas no seu lugar… O diálogo, tanto como o decálogo, são instrumentos de 'salvação'…

Um admirador

[Escreve segundo o acordo ortográfico]