Reflexão de um Gaiato

"Ensinar não é transferir conhecimento,

mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção."

Paulo Freire

Este pensamento de Paulo Freire resume, em poucas palavras, uma ideia que também foi central na pedagogia de Padre Américo: a educação como um caminho vivido, construído com esforço, responsabilidade e liberdade. Não se tratava de proteger excessivamente, nem de infantilizar os rapazes, mas de lhes confiar o espaço e a tarefa. De educar fazendo — e, muitas vezes, deixando fazer.

Vivemos tempos em que tudo parece caminhar para ser igual, padronizado, como se houvesse uma única forma certa de educar. No meio dessa vontade de "organizar" tudo, começa a crescer uma preocupação entre quem viveu ou vive a Obra do Padre Américo: será que, sem dar por isso, os "formalistas" estão a apagar, pouco a pouco, aquilo que tornava a Casa do Gaiato única?

Este texto não é uma crítica agressiva. É só um alerta. Porque, às vezes, com tanta vontade de fazer bem, corre-se o risco de matar o melhor que existe.

Padre Américo não via os rapazes como frágeis para sempre, nem criou instituições para "guardar" crianças. A sua maneira de educar era exigente, baseada na responsabilidade, no exemplo, na autoridade que nasce do respeito, e na ideia de que cada rapaz podia — e devia — tornar-se um Homem entre outros homens. A educação acontecia no dia a dia, no campo, na cozinha, nos erros corrigidos por outro rapaz, no convívio com quem nos conhecia pelo nome e nos confiava tarefas importantes.

Este tipo de pedagogia não cabe nos manuais dos "formalistas". Não por maldade, mas porque tem outra alma. É algo que não dá para medir com grelhas e relatórios.

Até hoje, nenhuma Casa do Gaiato foi assumida oficialmente pelos "formalistas". Mas o peso deles já se faz sentir: através de protocolos, regulamentos, fiscalizações e exigências que, mesmo sendo "só sugestões", acabam por ser obrigatórias. Aos poucos, o que era uma comunidade viva, com base no Evangelho e na autonomia, vai-se moldando a modelos formais e distantes.

Claro que tudo vem com boas intenções — proteger, ajudar, garantir direitos. Mas há um risco real: que se vá perdendo o que a Obra tem de mais especial. A sua alma. A sua forma de fazer crescer pessoas.

Não se trata de recusar mudanças, nem de se dizer que tudo no passado era perfeito. Mas é importante lembrar que a Obra nunca foi um lar qualquer. Foi – e deve continuar a ser — uma Casa. Uma Família. E isso faz toda a diferença.

[continua]

«Dimas»