PENSAMENTOS

A Pobreza é um sacramento fundado e vivido no mundo, por Quem nele quis trocar o Nome sem jamais trocar a Pessoa; e os Pobres são os sujeitos deste sacramento.

Pão dos Pobres, 2.° vol., p 65

O mundo tende a colocar de parte aquilo que parece não prestar; um Incurável é estorvo. O mundo engana e engana-se. Na hora em que a chamada ciência se retira, começa o poder de Deus.

Obra da Rua, p 133

Dá-me uma vaga na tua copa, a um destes pequeninos, irmão dos teus filhos; procura nele traços do Nazareno que tanto melhor os encontras quanto mais desgraçado ele for. Tens a página às tuas ordens; escreve nela o verbo amar - hoje.

Pão dos Pobres, 1.º vol., p 295

São muito mais raros e difíceis os lugares que procuram e esperam as pessoas, do que as pessoas que procuram e esperam os lugares.

O Gaiato, n.º 21, 10-12-1944

Os inválidos. Os doidos. Os leprosos. Membros doentes do corpo místico de Jesus. Abatê-los, como fariam os inimigos da Cruz? Não. Não senhor. Amá-los.

O Gaiato, n.º 78, 22-11-1947, p. 3

Todos os pequeninos habitantes que moram debaixo das nossas telhas, são enfermos da alma. Foi por um maneira muito simples que eles contraíram estes males; andavam sós pelos caminhos.

Da mesma sorte aqui hão-de topar a cura: andar bem acompanhados. As ovelhas, as vacas, as flores, a beleza do campo e das matas, as estrelas no fundo negro dos céus são as companhias que os hão-de salvar. Estes elementos da natureza, usados e saboreados pelo pequenino das ruas, valem mais do que todos os tratados de pedagogia.

Notas da Quinzena, pp 9-10

Os homens que constroem para a Eternidade empregam, acima de tudo, grandes remédios nos grandes males e o resto virá a seu tempo. No caso presente o grande remédio é escolher dos mais pobres entre os Pobres; dos mais enxovalhados entre os sujos; dos mais desprezíveis entre os desprezados. É levar de entre doentes os de maior gravidade, de entre famintos os que passam mais fome e os de mais vícios entre os viciados. Aplicar o remédio conforme o doente e na medida das feridas de cada um; cuidar de todos eles com intenção muito recta e muito silenciosa; esperar que o calhau venha de cima, abrir brechas fundas no coração daqueles que avidamente procuram a Sopa nas traseiras do jornal - e mais nada.

Pão dos Pobres, 2.° vol., pg 88

Meus senhores e minhas senhoras, eis de como se operam as transformações da alma! O pequenino há-de compreender por si. Ele há-de conquistar. Mas isto só é possível deixando-o perfeitamente à-vontade.

O Gaiato, n.° 43, p 4

Que venham ver todos esses Filósofos e esses Pensadores da Igualdade e da Fraternidade Humana, no que deram as suas doutrinas, ou por outra, que remédio trouxeram à Miséria, através de tanto progresso, de tanta luz, tanta ciência, tanta igualdade.

O Barredo, pg 71

Falta sangue de Cristo na sociedade. Falta, sim senhor. Vive cada um para si e mui poucos para os mais; quando nós havíamos de ser todos para todos, se nos temos na conta e gostamos de ser chamados discípulos de Jesus.

Doutrina, 2.° vol., pg 85

Caía a tarde quando entrámos na casa da Doente. Tudo ali são dores. Dor de quem fala, dor de quem escuta. A dor é mestra. Ai dos homens que nunca sofreram! Estivemos ali algum tempo, tendo regressado a Casa pelo caminho mais perto, com medo da noite. À Casa do Gaiato. À Aldeia do Rapazes. A irradiação quase universal da sua luz vem destas visitas aos Pobres.


O Barredo, pg 39

É absolutamente impossível haver no mundo alguém que se baste a si mesmo. Pode dizer que sim, mas a fala interior é outra. Somos feitos e criados na dependência. Trazemos esta lição nos membros do nosso corpo mortal; eles dependem uns dos outros, pela sua desigualdade. A igualdade é uma palavra. Sim. O Pobre é a riqueza espiritual das almas. A nossa verdadeira riqueza. Aonde iríamos nós por testemunhas de defesa no Tribunal de Contas, se não fosse o Pobre - aonde? Contas da hora derradeira. Hora tremenda!

Doutrina, 1.° vol., pg 259

A Obra da Rua é já, por si, uma afirmação da Divindade de Jesus: Ela é o Mandamento Novo em marcha. O amor ao Próximo sem cerimónias, como Cristo quer que seja.

Notas da Quinzena, pp 38-39

Fiel ao teu mandato e ao meu propósito, deixei uma camisa de flanela nas mãos da Maria cancerosa e levei outra ao pátio onde habita o pequeno «lindo como o sol aceso», tendo-a deixado ficar à mãe dele: «Ai, meu senhor, que eu não posso pagar!» Dá sempre assim a quem não pode retribuir; e o nosso bom Deus será a tua recompensa - e que recompensa!

Pão dos Pobres, 3.° vol., pg 73

Ora a verdade toda está em que o fundamento do Cristianismo é a renúncia. Jesus Cristo foi o pregador da renúncia que ensinava, praticando-a. Ele mesmo. Praticar a renúncia todos os dias; fazê-lo por amor do Mestre, até nas coisas que nos são lícitas, isso chama-se, e de facto é, ser católico praticante.

Notas da Quinzena, pp 45-46

As colunas deste jornal são silenciosas; por isso mesmo é que o mundo tanto fala delas! Ele há princípios certos nas leis da Natureza como também na da Graça. Com aqueles se fazem inventos e com esta, convicções. Eis um princípio de ordem natural: quem quiser ter sempre muito de tudo, dê sempre muito de tudo.

De como eu fui - Crónicas de viagem, pg 26

Tenho pena deste século! Século de doentes! Se o homem não tem a força de se limitar a si mesmo, pouco vale. Se quer mais e mais e mais, mata os outros e morre à fome. É tufão que passa a fazer poeira e a derrubar. É raiz de todos os males. [...] Alturas não são para todos. Porém, rasteirinhos como somos, podemos fazer alguma coisinha. Mais sentido social. Menos febre do dinheiro. Mais equilíbrio.

De como eu fui - Crónicas de viagem, pp 116-117

Aqui há tempos um senhor amigo d'O Gaiato e ansioso da sua expansão, aconselhou-me a ir ter com os jornalistas de nomeada a pedir colaboração. Disse, até, nomes. Enquanto escutava as razões do amigo, ia dizendo com os meus botões: «Eis um coveiro de boa fé»! Sim. Seria a morte irremediável do quinzenal. Caía-lhe a crista, as seguir as penas, depois a morte! Os «fundos» compactos não são para aqui. Tão pouco os escritores.

Doutrina, 1.°vol., p 157

Parece ser modo de vida que prende, isto de estender a mão a quem passa e, contudo, a gente nunca se habitua a ele. Por um desconcerto de ideias de que ninguém sabe dar conta, quantas vezes não desejaríamos nós encontrar fora de casa aquela mesma pessoa que em sua casa vamos procurar! Tal violência faz em nosso coração a vida dos desgraçados, que nos leva a sorver todos os dias este remédio deliciosamente amargo - Pedir!

Pão dos Pobres, 1.° vol., p 188

É necessário prudência na vida, que a figueira do Evangelho esteve em riscos de ser arrancada por ocupar um espaço precioso sem produzir fruto! Não é favor nenhum o meu bater à tua porta nem o teu abrir a mão; é simplesmente uma obrigação social. Pedras do mesmo edifício que todos nós somos, a abundância de uns deve suprir a indigência dos outros para assim haver harmonia no todo.


Pão dos Pobres, 2.° vol., p 64

Peço todos os dias. Imploro. Espero. Desejo acabar os meus dias nos sentimentos da Cruz. É a vida que faz a morte. Hei-de passar rentinho ao cruzeiro e às Alminhas, naquele dia tremendo, grande como nunca fui - porque morto!

O Gaiato, n.° 62, 13-07-1946, p 2

Oh! campo de jogos, casas de beleza, fontes e lagos, pomares e hortas, trabalho e alegria, horizontes, cor e luz! Pátria dos sem pátria. Vida dos que a não tinham. Como gosto, como me deleito loucamente em poder dar testemunho de uma riqueza perdida e mostrar o caminho do seu verdadeiro aproveitamento: - O trabalho. O amor ao trabalho.

O Gaiato, n.° 68, 5-10-1946, p 4

Se há na nossa terra quem se espante do que esta Obra da Rua tem operado nas almas, ninguém mais do que eu. Há muita coisa que eu não revelo; muitas cartas que eu destruo com medo dos mortais. O cisco das montureiras, visto através da luz que O Gaiato tem feito, mostra a beleza das gotas de orvalho, atravessadas pelos raios do sol. Não é poesia. Não são frases feitas. É maneira de assoprar cinzas para irromper a chama. 

Correspondência dos Leitores, p 18