PÃO DE VIDA
Padre Américo - Testemunho do Padre Nunes Pereira
Na sequência dos artigos anteriores sobre as virtudes teologais na vida do Padre Américo, segundo o testemunho do seu condiscípulo Padre Augusto Nunes Pereira, que vamos dando a conhecer, continuamos nesta matéria com interesse biográfico, pela proximidade do depoente, expondo de seguida alguns pontos sobre o modo como assumiu a virtude da caridade — o amor. Na verdade, no caminho de Cristo Ressuscitado, Padre Américo viveu para Deus e para os irmãos.
Jesus é o verdadeiro Mestre, tendo feito do amor o mandamento novo, ao entregar a sua vida pela humanidade: «Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a Sua hora de passar deste mundo ao Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao extremo.» [Jo 13,1]. E S. Paulo afirmou: «Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição.» [Col 3, 14]. O Catecismo da Igreja Católica define-a assim: «A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e ao nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.» [n. 1822].
No capítulo da caridade para com Deus, afirmou o Padre Nunes Pereira [p. 47-49]: «O Servo de Deus foi sempre exemplar no cumprimento dos seus deveres de estado, durante o seu tempo de Seminário, em que fomos companheiros. Pude verificar o integral cumprimento da vontade de Deus, representada pelo seu Bispo e seus Superiores. Ao desejo de ser sacerdote, vencendo todas as dificuldades que lhe surgiram pelo caminho, a que já me referi anteriormente.
Não dei conta de ocorrências extraordinárias no que conheço da vida do Servo de Deus, mas revelava um grande sentido da presença de Deus. Nós notávamos a sua profunda concentração, quando lidava com as realidades espirituais, missa, comunhão, etc..
Em certa aula, o professor perguntou-lhe se conhecia o salmo Miserere e ele respondeu: 'esse é muito meu conhecido!'. Nele era notável o espírito de imolação e entrega. Ele, recordando o contacto que tivera com o P. Matéo, viveu o espírito de imolação e reparação que o sustentavam nas suas lutas e sacrifícios pelos pobres. A sua vida de oração era notável e era sobretudo a oração contínua.»
Questionado sobre «se notou alguma vez no Servo de Deus qualquer coisa que se opusesse à caridade para com Deus», respondeu: «Não!… ao contrário! Via na sua vida simples o seu desejo de amar a Deus, expressando esse amor no amor aos pobres.»
Quanto à caridade para com o próximo, afirmou: «Logo que veio para o Seminário, notou-se no Servo de Deus o seu profundo culto pela amizade. Em breve, todos os companheiros eram seus amigos. Como era mais velho na idade e se impunha pela sua bondade a toda a comunidade do Seminário, muitos o procuravam como a um director espiritual que se interessava concretamente por todos, espalhando alegria, boa disposição e união. Assim, preparava a manifestação da caridade universal que caracteriza toda a sua vida. As suas iniciativas foram-se alargando, à medida que descobria o mundo do sofrimento humano nas suas inúmeras e dolorosas manifestações. A sua pregação era de uma simplicidade admirável e evangélica e fluía do seu coração seduzido pela caridade. Via Cristo no pobre, no irmão que sofre e isto era todo o seu mundo; a sua palavra movia mesmo os empedernidos e descrentes, pela sua expressão profundamente sincera e humana. Cristo era o seu viver e o seu modelo; a irradiação da sua caridade era mostrar o amor do seu Senhor!
A sua caridade não era fria; era verdadeiramente afectuosa e humana. Recordo-me de que, nas minhas primeiras tentativas artísticas e literárias, ele procurava estimular-me e animar-me. Nas dúvidas quanto à vocação, ele ajudava com carinho e interesse tocantes. As suas visitas aos tugúrios, sem manifestar repugnância, derivavam do seu coração compadecido pelo sofrimento alheio, estivesse onde estivesse, desde os seus amigos ao irmão que ele nunca conhecera.
Não era só a doença que o levava para junto dos irmãos, era qualquer necessidade, qualquer carência, tudo lhe servia para olhar e viver a dor dos outros. O seu carinho pelos que eram pequeninos, especialmente nas Casas da Obra da Rua, são verdadeiramente tocantes e lembram o carinho de Jesus pelas criancinhas.
Não tenho ideia de o ter ouvido queixar-se de quem o contrariava ou caluniava.
A caridade do Servo de Deus era verdadeiramente heróica. Ele começou sozinho e nunca voltou atrás no seu esforço, mas alargou-o progressivamente, mesmo nos momentos delicados, como durante a guerra de 39/45, em que os mantimentos escasseavam e até os ricos sofriam.
Não sei dizer outra coisa que não seja o exercício da sua caridade, por exemplo, em aceitar humildemente o que lhe acontecera.».
Finalmente, quando perguntaram ao Padre Nunes Pereira se conhecia «algum acontecimento no comportamento do Servo de Deus contrário à caridade para com o próximo», disse logo: «Não conheço.».
Assim, no que se refere à caridade, fica este testemunho eloquente e próximo da vida cristã do Padre Américo, cuja virtude o apaixonou e consumiu até ao fim da sua vida terrena. Como recoveiro dos pobres, entregue por inteiro à sua causa, por mandato do seu Bispo de Coimbra, D. Manuel Luís Coelho da Silva, foi dando conta de alguns dos seus muitos passos em socorro dos pobres, no jornal Correio de Coimbra, desde 1932. Depois, o jornal O Gaiato foi o seu verdadeiro diário, onde se manifestou a ligação entre santidade e apostolado. Desta virtude teologal, há inúmeras afirmações suas, nomeadamente escritas, muito belas e profundas, marcadas pelas suas preocupações na ajuda e promoção da dignidade dos pobres. Recolhemos, entre tantas, esta pérola: «A Caridade é uma doença que Deus dá no coração da gente; e também as pérolas, dizem, são doença que Deus dá no seio das ostras; toda a beleza e preço vem da doença, que não do doente. Esta doença gera febre causada pelo mal dos outros e somente a cura deles nos cura a nós.» [vd. Pão dos Pobres, vol. II, Coimbra, 1942, p. 133].
Padre Manuel Mendes
