PÃO DE VIDA

Padre Américo - Testemunho do Padre Nunes Pereira

Das declarações prestadas, em 4 de Março de 1992, pelo Padre Augusto Nunes Pereira, no Tribunal Eclesiástico de Coimbra, como testemunha indicada por D. Gabriel de Sousa, O.S.B., de grata e saudosa memória, como Postulador da Causa de Canonização do Servo de Deus Américo Monteiro de Aguiar, seguem-se respostas sobre as virtudes heróicas, das quais recolhemos o essencial. Como testemunha, foi chamado a responder se o Servo de Deus praticou em grau heróico as virtudes teologais, cardeais e morais.

Quanto à virtude da [p. 46-47], disse: […] No Seminário, foi sempre exemplar na virtude da fé, a todos edificando pela forma como rezava e como recebia a Sagrada Comunhão, ficando absorto e compenetrado dos momentos de convívio com o Senhor Sacramentado.

[…] do tempo em que com ele convivi no Seminário e na vida sacerdotal, posso testemunhar que sempre admirei nele um alto espírito de fé, vendo sempre Deus nos acontecimentos e a Ele referindo sempre a sua actividade. Toda a sua acção a favor do Pobre só se pode explicar pela sua convicção da presença real de Cristo, no seu irmão sofredor. O seu amor à pessoa do Salvador era intenso.

O Servo de Deus era verdadeiramente modelar, na oração e na meditação da Palavra de Deus, na celebração dos Sacramentos e na sua profunda devoção ao Santíssimo Sacramento. No primeiro ano que passou no Seminário, tanto instou para que dessem a Comunhão na Sexta-Feira Santa (o que não era permitido na Liturgia de então) que alcançou o seu desiderato e, para qualquer excursão para que fosse convidado, punha sempre a condição de poder comungar. Na sua devoção a Nossa Senhora, salienta-se a sua devota recitação diária do Terço.»

Em alguns momentos difíceis da sua vida, manifestou a virtude da fé desta maneira: «[…] quando foi excluído do noviciado franciscano de Tuy, em que não desistiu do seu desejo de ser sacerdote e nisso não era o interesse humano, mas a fé que o animava. Quando lhe foi recusado o ingresso no Seminário do Porto ainda não desistiu até conseguir a sua admissão no Seminário de Coimbra. No meio das vicissitudes do erguer a Obra da Rua, pode ver-se igualmente o poder ingente do seu espírito de fé.

Não tenho conhecimento de que alguma vez tenha falhado no exercício da virtude da fé; pelo contrário, viveu a sua fé em grau heróico, ao desfazer-se de tudo quanto tinha e das esperanças humanas num futuro risonho, atendendo à posição favorável que usufruía no seu meio social, em que contava tantas amizades, etc.».

Relativamente à virtude da Esperança [p.47], questionado se o Servo de Deus teve a virtude teologal da esperança em grau heróico, declarou: «Sem dúvida!

Profundamente baseado no poder e na bondade de Deus e certo de que humanamente nada podia, o Servo de Deus punha em Deus toda a sua confiança. Isso mesmo é expresso em muitos dos seus escritos e ocasiões houve em que só a esperança pode explicar a sua persistência, quer no que se refere à realização do seu ideal de ser sacerdote, quer no empreendimento da sua obra de assistência aos pobres e abandonados.

O Servo de Deus era naturalmente alegre e bem-disposto. Junto dele não havia tristezas. Era um homem fundamentalmente optimista.

Não tenho conhecimento de qualquer coisa contrária a esta esperança viva que o animou sempre.».

Na verdade, no quotidiano e nos escritos do Padre Américo, como artista das palavras, manifestaram-se as virtudes heróicas, exprimindo-as com sabedoria e originalidade, como nestes belos pensamentos: «Os nossos irmãos que sofrem, estão presos à vida pelo fio de orações dos verdadeiros discípulos de Jesus, que são todos aqueles que provocam nos pagãos de hoje, o vede como eles se amam, dos pagãos de outrora.» [vd. Pão dos Pobres, vol. II, Coimbra, 1942, p. 32]. «Da cabeceira, pende uma cruz com Jesus Crucificado. Está ali. Está ali a promessa. O Crucificado representa; o pequenino doente é. É Jesus.» [vd. O Gaiato, N.º 253, 7 Novembro 1953, p. 4]. Padre Américo.

Padre Manuel Mendes