PÃO DE VIDA
Padre Américo - Testemunho do Padre Nunes Pereira
Pela sua proximidade a Américo Monteiro de Aguiar, enquanto condiscípulo no Seminário de Coimbra e tendo sido ordenados de Presbítero no mesmo dia — 28 de Julho de 1929, é de continuar a dar nota do testemunho do Padre Augusto Nunes Pereira para a Causa de Canonização do Servo de Deus Padre Américo.
Sobre a Obra da Rua, disse mais algumas informações:
«A segunda Casa do Gaiato foi a de Paço de Sousa [1943]. O esquema orientador era idêntico. […]». Os Lares do Gaiato, nas cidades [v.g.: Porto — 1945; Coimbra — 1947; S. João da Madeira — 1950; Lisboa — 1953], eram «o prolongamento natural das 'Casas' e como que uma prova real da educação recebida nas mesmas.
Depois, surgiram outras Casas do Gaiato [vd. Obra da Rua, Paço de Sousa, 1983]: «a de Lisboa [1948], depois [a de Beire — 1954 e] a de Setúbal [1955].». As do Ultramar [Benguela e Malanje — 1964]; 1967 — Lourenço Marques] foram uma sequela das suas viagens àqueles territórios. Ali, inúmeros antigos gaiatos e amigos o rodearam de carinho e com ele insistiram para que fundasse lá Casas e Lares. Isto é claramente exposto no seu livro Viagens [vd. Viagens, Paço de Sousa, 1973].
A génese dos Padres da Rua foi a impossibilidade de o Servo de Deus, só por si, governar o barco, já muito grande para as suas forças, e então ele procurou rodear-se a tempo de vários colaboradores. Dos contactos dentro da Obra foi-se definindo o verdadeiro espírito e contorno de tal comunidade. Os primeiros colaboradores foram o P. Adriano Antunes, P. Manuel Gonçalves, P. Horácio, depois o P. Galamba, etc. Pediu muito às Criaditas dos Pobres que, além da colaboração no domínio específico em que trabalhavam, o ajudassem no trabalho das Casa e Lares. Nunca conseguiu.
A ideia da colaboração das Senhoras começou a tomar vulto no seu espírito: desejava para as Casas e Lares um ambiente familiar e maternal que a criança da rua não tem. O estilo de vida era a doação total, em desprendimento, pobreza e amor aos rapazes. […]».
Relativamente às digressões do Servo de Deus por além-mar [Brasil — 1949; Angola e Moçambique — 1952; Açores; e Madeira — 1956], referiu: «[…] a convite de amigos e admiradores, resolveu-se finalmente a deslocar-se lá [especialmente, à costa oriental de África]. Possivelmente terá sentido um certo saudosismo dos tempos que lá vivera, o conhecimento dos problemas locais, com o desenvolvimento urbano ali verificado e também a esperança de obter fundos para as suas iniciativas sociais [v.g.: Património dos Pobres — 1951].
O seu pensamento era com certeza promover a autoconstrução, em base paroquial, a fim de resolver a carência de habitações condignas para os desprovidos de lar. Ainda hoje continua válida a eficácia desta ideia.».
Quanto à necessidade social que pretendeu acudir com o Calvário, disse: «A sua visita assídua a casas degradadas e aos tugúrios das áreas urbanas, o Servo de Deus encontrou tais casos de abandono social, casos gritantes de desumanidade, que do seu coração brotou a ideia de lhe conseguir um lenitivo e refúgio para tanto abandono. Foi isso o Calvário, a sua última iniciativa, concretizada na casa construída em Beire [no concelho de Paredes]. Era mais um hino de amor ao pobre.
As soluções encontradas para resolver os problemas da pobreza são uma resposta simples e gradual aos casos que vai encontrando, tudo dentro de uma visão simples e concreta, baseada no Evangelho. Os problemas económicos eram encarados com um notável espírito de confiança na Providência e de transparência na aplicação dos donativos que iam chegando.
A renovação espiritual que o seu trabalho com os pobres ia suscitando era um facto inegável. Até mesmo os descrentes se rendiam ao seu espírito evangélico e ao seu desprendimento. Toda a gente o estimava e admirava. O seu Bispo era por ele admirado e venerado e sempre lhe obedecia. Era verdadeiramente venerado por todos os colegas. […]».
Depois, no seu depoimento, o Padre Nunes Pereira descreveu assim a personalidade humana e sacerdotal do Servo de Deus: «Alto e forte, bem constituído fisicamente, de rosto agradável, de saúde normal, era agradável e jovial na conversa, mas sério, quando era preciso ser sério. Sabia apreciar a virtude, quando a encontrava, cristalina e espontânea. Carácter forte, com uma vida espiritual bem apoiada no Evangelho, que era o seu livro principal. A sua devoção a Nossa Senhora era patente. A caridade para com Deus e para com o próximo, sem complicações, com uma profunda humildade, era a nota essencial da sua espiritualidade.».
Confirmando este seu amor à Escritura, Pai Américo deixou este pensamento lapidar: «Eu cá não leio nada. Não estudo nada. Não sei nada. Tenho um só livro: é o Novo testamento. Começo no princípio e vou por aí fora até ao fim. Torno a começar e vou, vou, vou, até acabar. Isto durante um ano. Isto durante dois. Isto sempre. São perigosos os homens dum só livro e podem vir a ser incendiários. Cautela!» [vd. O Gaiato, N.º 95, 18 Outubro 1947, p. 1].
Sobre a sua devoção mariana, Padre Américo rezava diariamente o Rosário, como escreveu: «Estava eu a rezar as minhas contas na varanda do refeitório, quando vejo passar um [rapaz] às cavaleiras do outro. Mais. Noto que trazia um pé entropado o que vinha a cavalo. Ambos eram pequenos, ambos da oficina de alfaiate.» [vd. O Gaiato, N.º 92, 6 Setembro 1947, p. 4]. De notar ainda que, de acordo com informação no seu processo individual, na Cúria Diocesana de Coimbra, em 16 de Novembro de 1930, foi nomeado Director diocesano da Medalha miraculosa — de Nossa Senhora das Graças [das aparições de Nossa Senhora a Catarina Labouré, em 1830, em Paris].
Padre Manuel Mendes
