PÃO DE VIDA

Do Padre Augusto Nunes Pereira

Continuando na recolha do testemunho inédito do Padre Augusto Nunes Pereira para a Causa de Canonização do Servo de Deus Américo Monteiro de Aguiar, sacerdote, seu condiscípulo, no Tribunal Eclesiástico de Coimbra, em 4 de Março de 1992, retomamos o fio da meada [p. 43-44], desenvolvendo-o com várias notícias adicionais de outras fontes. Seguem-se, então, mais informações sobre a acção do evangelizador dos pobres:

«[…] continuei a acompanhar a sua acção, especialmente através da imprensa, lendo as suas crónicas no semanário diocesano Correio de Coimbra.

O seu contacto com as famílias pobres e marginalizadas da cidade de Coimbra levou-o a promover as colónias do Garoto da Rua. Mobilizava seminaristas e outros estudantes para o ajudarem nessas colónias. Por isso, alugou uma casa, na Rua da Trindade, e começou a receber os antigos assistidos nas ditas colónias de Férias e rapazes que saíam dos reformatórios da Tutoria, onde ele chegou a desempenhar as funções de capelão.».

Em 1932, foi confiada ao Padre Américo a Sopa dos Pobres, na Rua da Matemática, em Coimbra, pelo Bispo de Coimbra, conforme escreveu: «A Sopa dos Pobres, criação do Senhor D. Manuel Luís Coelho da Silva, foi inaugurada por ele em o dia 19 de Março de 1932. Nessa data andava eu enfermo e, como não pudesse trabalhar, roguei ao então meu Prelado que me deixasse ao menos visitar Pobres e cuidar da sopa deles, serviço este compatível com as minhas dores de cabeça de então. [Pão dos Pobres, Coimbra, vol. I, p. 1]. O Padre Américo colaborou no jornal Correio de Coimbra, sob o título 'Sopa dos Pobres' e depois 'Obra da Rua' [1932-1943].

Em 1935 e 1936, organizou Colónias de Férias do Garoto da Baixa [de Coimbra], na Casa da Palmeira, em S. Pedro de Alva Penacova. Em 1937, 1938 e 1939, promoveu Colónias de Férias na Quinta da Costeira, em Vila Nova do Ceira Góis [vd. Obra da Rua, Coimbra, 1942].

O Padre Américo também foi Assistente da Tutoria de Coimbra, conforme Diploma de funções públicas, de 3 de Junho de 1938, com Declaração de compromisso de 1 de Junho — documento importante que nos foi confiado [depois, entregue no Memorial Padre Américo]. No órgão oficial do Governo Português, consultado na Biblioteca Municipal de Coimbra, vem o despacho do Director Geral, interino, A. Afonso Salaviza, de 30 de Março desse ano: «Padre Américo Monteiro de Aguiar — aprovado o seu contrato, como pessoal extraordinário, para assistente religioso do Refúgio da Tutoria Central da Infância de Coimbra, por um ano, a partir de data posterior à publicação do visto do Tribunal de Contas no Diário do Governo. Este contrato é tacitamente prorrogado (Visado pelo Tribunal de Contas em 23 de Maio de 1938) [Diário do Governo, n.º 123, 2.ª série, 30 Maio 1938, p. 2716].

Depois, sobre a primeira Casa da Obra da Rua, referiu a compra da Quinta e Casa de S. Braz, no lugar de Bujos, freguesia de Miranda do Corvo, para a fundação da denominada inicialmente Casa de Repouso do Gaiato Pobre.

«[…] lembro-me bem das circunstâncias em que se deu o acontecimento: apareceu à venda aquela quinta, perto de Miranda do Corvo. O Servo de Deus, após algumas hesitações de raiz económica, que pessoas amigas ajudaram a enfrentar, adquiriu-a e adaptou-a em 1939. O seu primeiro cuidado foi construir a capela. Depois, a pouco-e-pouco, a sua estrutura foi-se definindo.».

Sobre a compra da dita casa e quinta em Miranda do Corvo, de acordo com a competente escritura [na Cúria Diocesana de Coimbra], foi efectuada em 3 de Outubro de 1939, perante o Notário Augusto Máximo de Figueiredo, como procurador de Aníbal Ferreira da Gama e Esposa, na Rua da Sofia, n.º 121, em Coimbra. O Padre Américo, ainda sem Estatutos, fez a aquisição como procurador da Sociedade Instrutiva Ozanam, ligada à Diocese de Coimbra. Os respectivos prédios tinham sido comprados ao Cónego Aníbal Ferreira da Gama e a outros, em 22 de Outubro de 1921. Em 7 de Janeiro de 1940, dia do Santíssimo Nome de Jesus, nesta Casa, foram acolhidos os três primeiros Rapazes, por Pai Américo. No retábulo da Capela desta Casa, está inscrita a data de 25-XII-1943.

Em 1 de Janeiro de 1941, abriu o Lar do Ex-Pupilo das Tutorias e dos Reformatórios do País, na Rua da Trindade, n.º 18, em Coimbra [vd. Relatório de 1941, Coimbra, p. 7], sendo Padre Américo o Assistente Religioso.

O Padre Nunes Pereira também salientou duas facetas de Padre Américo: pregador e escritor. Vejamos o que declarou:

«Pela pregação, artigos de jornal, especialmente nas colunas do Correio de Coimbra, que mais tarde apareceram compiladas em livro, a pedido de muitos leitores. O seu estilo subjugava e era esse, nessa altura, o instrumento especial da sua evangelização. O primeiro donativo veio do próprio Ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, que casualmente assistiu a uma das suas homilias, na igreja de S. Bartolomeu, em Coimbra. A sua pregação, como pude comprovar quando o convidei para ir pregar à minha paróquia, estava alicerçada no Evangelho. Era escutado sempre com agrado e enlevo espiritual.».

Quanto ao donativo citado, de facto, o Eng.º Duarte Pacheco [†18-11-1943], Ministro das Obras Públicas, concedeu 300 contos à Obra da Rua, para as obras da Casa do Gaiato de Paço de Sousa: «O alto interesse social da obra justifica, de sobejo, a ajuda do Estado. Por isso a concedo à obra e ao homem, dispensando formalidades que embaracem uma acção inspirada apenas em ideais de bondosa e pura solidariedade humana.» [vd. 'Contas', in O Gaiato, N.º 212, 12 Abril 1952, p. 1; Rebelo de Bettencourt, 'O Padre Américo e o saudoso ministro Duarte Pacheco', in Gazeta dos Caminhos de Ferro, Lisboa, Ano LXII, N.º 1485, 1 Novembro 1949, p. 661].

Sobre Padre Américo artista das palavras, é justíssimo dizer que foi um grande jornalista e escritor português, católico, no século XX. Depois da sua colaboração nos jornais Correio de Coimbra e A Ordem [1943-1949], do Porto, fundou o jornal O Gaiato, quinzenário da Obra da Rua, em 5 de Março de 1944, para defender e promover os Pobres, ao serviço da Igreja.

Padre Manuel Mendes