PÃO DE VIDA

Do Padre Augusto Nunes Pereira

Na sequência duma breve nota biográfica, damos notícia de algumas declarações inéditas do Padre Augusto Nunes Pereira sobre o seu condiscípulo Padre Américo, como testemunha para a Causa de Canonização do Servo de Deus Américo Monteiro de Aguiar, sacerdote, em 4 de Março de 1992, no Tribunal Eclesiástico de Coimbra.

No capítulo O marco do sacerdócio, disse o seguinte, que recolhemos: «Desde os primeiros tempos do Seminário, mostrou uma profunda piedade, especialmente quanto à Eucaristia.

Era não só exemplar no comportamento como ajudava os companheiros, nas suas dificuldades. Reunia-os e incitava-os para assumirem as responsabilidades pessoais e disciplinares. Foi um grande animador das colónias de férias, em Buarcos. Em pequena festa de homenagem, das que se faziam nas colónias, o Servo de Deus afirmou, quanto a alunos que andavam muito tempo sem comungar: 'quanto a mim, o dia em que eu não comungar, que os Anjos do Céu me levem para a comunhão eterna…'. Em certo ano, fomos passar alguns dias de férias na Serra da Estrela. O Servo de Deus estava presente, mas pôs como condição poderem comungar todos os dias.

[…] Ele foi ordenado sacerdote no mesmo dia que eu – 28 de Julho de mil novecentos e vinte e nove. […] ele esteve presente na minha missa nova, na minha aldeia natal. Dele recebi uma carta nesta altura, em que ele me dizia: 'Lembre-se de que nos ordenámos não para ganhar, mas perder a vida'. Depois de ordenado, o cuidado pelos doentes manifestou-se na doença e morte do P. César Roque, increspando-me e aos colegas: 'então vocês deixam morrer o P. César?!...». Este bom sacerdote era de Unhais-o-Velho [em Pampilhosa da Serra].

Depois, no capítulo O evangelizador dos pobres, declarou:

«[…] Recordo bem o seu espírito de oração. Quando chegava à igreja, a sua primeira preocupação era a oração ao SS. Sacramento. Teve muita influência na formação dos seminaristas. Quando o P. Matéo veio a Coimbra, o Servo de Deus relacionou-se imediatamente com ele e terá sido o elo de ligação entre o Seminário e o famoso pregador daquele tempo. Pedimos um autógrafo ao P. Matéo para o Lume Novo e foi o Servo de Deus quem disso se encarregou e, quando D. Manuel Gonçalves Cerejeira foi eleito Arcebispo de Mitilene, foi o Servo de Deus o promotor da homenagem que então foi feita ao mesmo Prelado eleito.

O Servo de Deus ficou sempre muito grato ao então Prelado de Coimbra, D. Manuel Luís Coelho da Silva, por tê-lo admitido no Seminário de Coimbra. Como não pôde realizar o seu ideal no franciscanismo, terá sido levado a pedir ao seu Bispo viver como religioso o seu sacerdócio diocesano.

[…] Como, quando se ordenou, só tinha o 3.º ano de Teologia, ficou como professor e prefeito no Seminário de Coimbra. Continuei a ter contacto com ele, estando eu pároco de Montemor-o-Velho. O Servo de Deus foi lá pregar um dia e, ao ver a pobreza extrema da casa paroquial, interessou-se muito por mim, para mitigar esse ambiente de pobreza. A inclinação natural dele para o apostolado entre os pobres começou logo a manifestar-se e pediu ao Prelado para se dedicar ao apostolado entre eles que eram muito numerosos, nas zonas degradadas da cidade de Coimbra. […]».

Antes de avançarmos em mais recortes das declarações do Padre Nunes Pereira para a Causa de Beatificação, é de aditar outros testemunhos seus, recolhidos após a morte do seu condiscípulo Padre Américo, em que deu mais notícias desse tempo de seminarista em Coimbra, complementando as informações supra.

O Padre Euclides de Oliveira Morais – de Travassô [em Águeda], que foi admitido no Seminário de Coimbra em 1912-1913 – entre outras lembranças, referiu uma leitura significativa: o Padre Augusto Nunes Pereira recordou-lhe que «o Américo leu e meditou profundamente S. Vicente de Paulo». [O Gaiato, N.º 388, 24 Janeiro 1959, p. 1]. Seria uma biografia deste grande santo da sua devoção, intitulada: Vida popular de S. Vicente de Paulo, do Padre Berbiguier, traduzida por M. Fonseca [Porto: Ed. José Frutuoso da Fonseca, 1889; reeditada em 1925].

Corroborando o que foi sublinhado acima, o amor de Américo Monteiro de Aguiar à Eucaristia era tal que – segundo diz o Padre Nunes Pereira – «não se conformava com o regulamento de Sexta-feira Santa proibindo a Sagrada Comunhão. Duma vez insistiu tanto que lha ministraram naquele dia» [O Gaiato, N.º 390, N.º 21 Fevereiro 1959, p.1]. De facto, nesta prescrição litúrgica, foi um precursor. Em Sexta-Feira Santa nunca houve Eucaristia. No século XII, foi estabelecido que, além do sacerdote, ninguém comungasse. Em 1955, o Papa Pio XII, restabeleceu a comunhão do povo.

Das recordações do Padre Nunes Pereira sobre Padre Américo, serão dadas mais notícias que permitem traçar um esboço de algumas características do seu condiscípulo no Seminário de Coimbra e como recoveiro dos Pobres.

Padre Manuel Mendes