
PÃO DE VIDA
Da Sagrada Família
«Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge…»
O Evangelho de S. Mateus [Mt 2,13-23] apresenta-nos momentos difíceis da Família de Nazaré. Tendo Jesus nascido em Belém [casa do pão], teve o acompanhamento próximo, afectivo e educativo, dos seus Pais — Maria e José. Acontece que o Menino Jesus correu perigo, depois dos Magos partirem, e o Anjo do Senhor avisou José para fugir: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». Quando Herodes morreu, terminando o perigo, o Anjo do Senhor disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel […]». Vemos nestes acontecimentos a intervenção de Deus e a colaboração humana, em face dos sinais dos tempos. A realidade do êxodo humano — migrações e perseguições — é permanente na história humana, desde os primórdios da espécie humana e das civilizações na Terra. Actualmente, está na ordem do dia, com múltiplos matizes, por todo o mundo: no Médio Oriente, em África, a Leste, Portugal, etc.
Construir uma família equilibrada, natural e nomeadamente cristã, exige muita dedicação, esforço, canseiras noite e dia. A Família de Nazaré, assim dita, nesse tempo, retirou-se «para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré.» Na verdade, Jesus, embora não tivesse lugar para nascer, teve um sítio para morar enquanto era criança e adolescente. Foi recebido no seio de uma família que cuidou d'Ele com enorme carinho e todos os cuidados. Depois, sendo enviado pelo Pai a anunciar o Evangelho aos pobres, a Sua vida de Profeta e Filho de Deus foi marcadamente itinerante, pregando o Reino de Deus — da verdade, da justiça e do amor. Ter casa digna e aconchego familiar — pai e mãe presentes, e irmãos (mais família alargada) — não é um privilégio humano. Na verdade, o amor familiar é fundamental para o crescimento saudável de qualquer ser humano feliz. Contudo, os afectos e os cuidados não são uma realidade generalizada nas famílias, infelizmente.
O Livro de Ben-Sirá [Sir 3, 1-16] oferece-nos várias recomendações aos filhos sobre os pais, v.g.: «Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe. […] Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida». Na Carta de S. Paulo aos Colossenses [Col 3, 12-21], v.g.: «revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. […] Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. […] E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai.».
Algumas lições se podem extrair das leituras desta Festa da Sagrada Família de Nazaré, na oitava do Natal do Senhor, principalmente o lugar central da família na sociedade e na vida eclesial, considerando que é uma comunidade onde se desencadeiam os principais acontecimentos da vida humana e as sementes lançadas germinam para a Humanidade e para a Igreja. A Lumen Gentium, do II Concílio do Vaticano, chama igreja doméstica à família[n. 11, 1965].
O nosso Venerável Padre Américo — visitador de muitos pobres [Recoveiro dos Pobres, como disse], que também amparou e cuidou — afirmou: «É no berço que se forma a criança» [O Gaiato, n. 65, 24.8.1946, p. 4]; pois, «o lume da lareira é a escola de todos os tempos; a escola da verdade, onde se criam e alimentam as almas sinceras.» [O Gaiato, n. 22, 24.12.1944, p. 1].
Foi há 86 anos que Pai Américo, depois de vários anos de Colónias de Férias, no campo, em S. Pedro de Alva — Penacova [1935 e 1936] e Vila Nova do Ceira — Góis [1937-1939], a 7 de Janeiro de 1940, no dia do Santíssimo Nome de Jesus, acolheu de forma permanente os três primeiros Rapazes pobres das ruas de Coimbra, em família cristã, na Quinta de S. Braz, em Miranda do Corvo, que se passou a chamar Casa de Repouso do Gaiato Pobre; e depois Casa do Gaiato. Por isso, escreveu com experiência e sabedoria de vida: «O padrão da Obra é a família, vida familiar. Eis a escola natural da sólida formação do homem. Tudo quanto seja regresso a Nazaré, é progresso social cristão.» [Do Fundamento da Obra da Rua e do Teor dos seus obreiros, Paço de Sousa,1950]. Desde os primórdios, nesta primeira Casa do Gaiato e em Coimbra, já foram acolhidos mais de mil Rapazes. São milhares os filhos que foram recebidos, vai para nove décadas, nas várias Casas da Obra da Rua… No altar do Senhor da vida, lembramos os filhos — gaiatos e doentes, padres da rua, colaboradores e uma multidão de amigos e amigas que partiram para a casa do Pai celeste.
Actualmente, nesta encruzilhada da História em que o desprezo da vida humana é clamoroso, principalmente por guerras terríveis, acentuam-se as migrações, a desagregação familiar e outras situações diferentes da família natural e da Família de Nazaré, por tantos motivos e ideologias perversas. No entanto, estes desafios não devem deixar os cristãos e as pessoas de boa vontade de braços cruzados nem desanimados. Quando os valores cristãos e humanos são esquecidos, especialmente na vida familiar, o tecido pessoal e social vai-se fragilizando, como sublinhou bem o Cardeal Joseph Ratzinger [depois, Papa Bento XVI]: «Uma sociedade na qual Deus está absolutamente ausente autodestrói-se» [19.11.2004].
Na Missa da noite de Natal do Ano Jubilar 2000, o Papa S. João Paulo II disse bem alto: «O Verbo chora numa manjedoura. Chama-Se Jesus, que significa Deus salva, porque Ele 'salvará o povo dos seus pecados'.» [Mt 1, 21].
A fechar este Ano Jubilar 2025, apesar de tantas desgraças humilhantes da dignidade humana, em muitos lugares da Terra, esperamos pela graça de Deus, com esperança, um mundo melhor, nos dias do nosso tempo e nos tempos vindouros. Também sonhamos um mundo com menos lágrimas de dores, em que «a luz da noite, mais brilhante que o dia, se difunda no futuro e oriente os passos da humanidade no caminho da paz».
Padre Manuel Mendes