
Há 70 anos - Pai Américo - partiu para o Céu
Na última viagem
Lê-se mas não se acredita: morreu o Padre Américo! Habituados como todos estávamos a vê-lo sorridente, dinâmico, impaciente, encontramo-lo agora imóvel e frio. Continua, porém, sorridente no leito de morte.
Milhares e milhares de pessoas de todas as categorias sociais foram vê-lo pela última vez. Descalço e vestido com a sua habitual batina de Padre! Descalço, como os Pobres e garotos da rua, pelos quais gastou a sua vida. Sem os paramentos sacerdotais. De batina, apenas por humildade. O Américo daquele tempo… sacerdote! Este pensamento traduzia-o ele, sempre propondo ao seu nome um ponto de admiração: «Padre Américo!» A sua alma contemplativa permanecia, mergulhada em Deus, admirada e agradecida. E, ao mesmo tempo, sabia o peso que o sobrecarregava. Por humildade somente uma batina. «É um pobre que morre. Dê-se-lhe tudo e unicamente o que é costume dar-se aos pobres que morrem nas cidades e aldeias». Assim ordenou. Se em vida fugiu das homenagens à sua pessoa — ainda na véspera do desastre, sabendo duma que lhe estava preparada na Marinha Grande não apareceu! — agora inanimado, não pode furtar-se à maior apoteose que em vida jamais sonhara. Uma mole enorme de gente de todas as idades, sexos e condições sociais comprimia-se à sua volta, para o ver, pela derradeira vez e oscular-lhe as mãos, e pranteava-o, ao longo das ruas, por onde passava o préstito fúnebre. Sentíamo-nos todos, não só os seus Padres, como os Gaiatos e ainda o público, órfãos. Todos tínhamos recebido dele alguma coisa. Uma esmola. Uma palavra. Umas linhas escritas. Uma censura amiga e sincera. Um sorriso. Tinha enxugado as lágrimas a muitos. Metia-se nas casas dos pobres e provava-lhes o caldo para analisar e sentir a sua pobreza. Matou a muitos a fome. Muitos, por meio dele, encontraram a razão de ser da sua existência, a paz da consciência, o caminho do Céu. A sua palavra ardente e o seu coração cheio do amor de Deus não conheceram tréguas, nem subornos, nem defecções na defesa dos direitos sagrados dos humildes e fracos. Por isso, foram estes os que mais sentiram a sua perda.
Custa a acreditar que o Pai Américo nos foi arrebatado e ficamos todos na orfandade. Mas não. Agora, mais que nunca é pai. Pelos Pobres, fracos e órfãos, não subiu tanta vez as escadarias dos ricos e poderosos deste mundo? Pois bem, subiu, agora, também ao trono de Deus, como confiadamente esperamos na sua Misericórdia infinita, para aí ficar como nosso Advogado e Protector. Mais que nunca não nos abandonará.
Na terra, ficou a Obra da Rua, a sua Obra querida, de protecção, socorro e evangelização dos Pobres, especialmente os rapazes da rua. É a continuação da sua personalidade. Por meio dela, ficará entre nós. O Pai Américo não morreu. Amá-lo-emos mais entranhadamente na sua querida Obra.
Padre Aires
«O Gaiato». 18 de Agosto de 1956. Na última viagem.
Ano XIII, N.° 325, pp. 3-4.