
Há 70 anos - Pai Américo - partiu para o Céu
Ecos do Gerês
Viemos em Maio, altura em que as termas começam a funcionar e em que há mais calma.
Neste momento, ocorre-nos ao pensamento a pessoa de Pai Américo. Veio connosco algumas vezes para aqui. Tivemos o prazer espiritual de acompanhar o conviver de perto com ele. Os dias tinham o ar festivo de agora. Estamos no Parque… Tudo admirava. A tudo fazia uma exclamação com um A muito prolongado, pondo-lhe o cunho da sua fina sensibilidade. E arrastava-nos com ele, fazendo-nos contactar com o que lhe ia na alma.
— Ó… Olha que lindo!
— Vês?! A natureza! A natureza!…
Depois fomos até ao lago. Atirei umas migalhas. Os peixes pegavam-se, e ele dizia por entre um sorriso:
— Que engraçado!
Depois concluía:
— Até parecem vocês. Eu ando por lá, vou à procura e vós sempre à espera que eu vos meta no bico.
Mas o cunho tão natural com que Pai Américo nos conquistava a alma é que tinha valor. Todos nos rendíamos à sua forte personalidade.
Sim, o Pai Américo também tem parte da sua história ligada a esta estância de cura e repouso.
De uma vez, juntamente com o Amadeu Mendes e o Sérgio ao volante, dá a ordem:
— Vamos por aí fora… Vamos correr mundo!… Olha: Já estou farto disto. Quero tomar ares novos.
E assim foi. Morris em forma. Nós lá dentro. Passamos por Caldelas e levámos Júlio Mendes e esposa que estavam em tratamento.
Carro ao caminho e palmilhamos uma grande parte do Minho, do qual Pai Américo só dizia bem.
Por fim, visitamos o Santuário de Nossa Senhora da Peneda, que fica no concelho de Arcos de Valdevez.
O carro foi até onde pôde. Apareceu o caminho estreito e com muitas pedras. Até aí bem foi, mas depois é que foi o cabo dos trabalhos. O caminho estreitou mais. Depois apareceu uma enxurrada. Ocupava o caminho todo. Cada um foi-se arranjando como pôde. Para trás é que não estávamos dispostos a voltar, depois de tanto caminho trilhado. Uns tiraram os sapatos. Os calçados iam com os pés encharcados. Pai Américo seguia de sandálias com fivela. Pareciam uns barcos… Apareceu um carro de bois para salvar a situação.
Pai Américo diz com ar brincalhão:
— Ó ti Manel, posso ir para «riba»?
Depois da resposta afirmativa, sobe e toca a limpar os pés. E depois ria-se com este imprevisto. Seguimos pelo monte acima até chegarmos ao Santuário. Magnífico! Belo mesmo. Muito forte, construído sobre a rocha. Para o outro lado havia uma soberba escadaria, feita da melhor pedra, estando ladeada de capelinhas que nos descreviam sugestivamente os principais passos de Jesus na Terra, para redenção da pecadora humanidade.
— Que coisa tão grande! Como se lembraram de fazer obras tão belas, no meio de pedras, montes, onde não há ninguém?
O entusiasmo atingiu o auge quando deparou com um cemitério humilde. O mais que possa ser. Terra muito areenta. As campas muito pobrezinhas. Não se via uma única flor!
— Como a humildade é grande! Oh! meus filhos, nunca vos queirais fazer grandes. Benditos são os humildes.
E depois de suspirar fundo e em tom de grande sinceridade de alma como só ele sabia manifestar:
— Como seria feliz! Como desejava morrer numa campa assim!
E a verdade é que a última morada de Pai Américo na terra é quase idêntica. Só uma diferença: Tem flores, e os queridos irmãos Pobres que são luzes a acender-se, para que a Obra da Rua se dilate e espalhe o fogo do Alto que vai alimentar os nossos corações.
Daniel Borges da Silva
«O Gaiato». 8 de Junho de 1957. Ecos do Gerez. Ano XIV, N.°346, p. 4.